Opinião: "Banco Master, Messias e o acordão"

Publicado em 10/05/2026, às 08h30

Flávio Gomes de Barros

Um misto de politicagem, traição, religião e liberação de emendas parlamentares para compra de consciências envolveu a frustrada indicação do Advogado Geral da União, pelo presidente Lula, para o Supremo Tribunal Federal.

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Quem analisa o episódio é o médico oncologista Marcos Davi Lemos de Melo, membro das Academias de Letras, de Medicina e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas: | 


"Por que o Senado rejeitou o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal na semana passada? Qual foi o peso da religião nessa disputa? E como a decisão impacta o caso do Banco Master e a corrida presidencial? Essas são questões que ainda provocam muitas polêmicas.

O senador Davi Alcolumbre venceu a queda de braço com Luiz Inácio Lula da Silva, o político mais influente de sua geração, eleito presidente três vezes. Alguns articulistas afirmam que o vínculo religioso de Messias foi determinante para que isso acontecesse.

A cobertura jornalística sobre a indicação ressaltou dois pontos da carreira de Messias: seu posicionamento contrário ao aborto e sua atuação à frente da AGU, ao lado do governo e em defesa da punição dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

Apesar disso, a narrativa dominante é a de que Messias perdeu para o centrão de Alcolumbre porque, como ministro, ele se alinharia a André Mendonça para investigar e julgar com rigor os envolvidos no caso do Banco Master, em oposição a Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, considerados os mais políticos do Supremo. Ao encerrar a sessão que rejeitou a indicação, Alcolumbre abraçou calorosamente Jaques Wagner, líder do PT na Casa.

A atitude levanta suspeitas: tanto o Amapá quanto a Bahia têm vínculos com o caso Master. No Amapá, o fundo de previdência dos servidores investiu R$ 400 milhões no banco, sob a gestão de um afilhado político de Alcolumbre. Na Bahia, as investigações apontam para políticos petistas com conexões financeiras com o banco — entre eles, o próprio Wagner.

Se a religião não foi o motivo pelo qual Messias foi barrado, poderia ter sido o caminho para sua redenção. Ele é visto como um crente legítimo e recebeu apoio de sua comunidade de fé.

Atuaram a favor dele o ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, e lideranças de igrejas importantes, especialmente o Ministério Madureira da Assembleia de Deus, uma das maiores denominações do Brasil.

O cálculo deles foi ideológico: Messias seguiria como ministro conservador quando Lula saísse de cena e poderia permanecer na Corte por mais de 30 anos.

Os senadores evangélicos sentiram a pressão e precisaram improvisar diante da saia justa. Membros da bancada cumprimentaram Messias publicamente e, ao mesmo tempo, explicaram às suas bases que votaram contra.

A bancada evangélica rachou. A senadora Damares Alves mencionou que estava sendo questionada por muitos pastores. Vários parlamentares esclareceram que sua escolha não era contra Messias, mas contra o campo político que ele representa."

Uma parte da esquerda, entre eleitores e lideranças, parece ter respirado aliviada por não precisar celebrar a escolha de um ministro conservador nos costumes. Agora ganha força a indicação de uma mulher negra, possivelmente mais sensível às religiões de matriz africana.

Do ponto de vista simbólico, a derrota mostrou que Lula não quis — ou não foi devidamente informado para — defender Messias.

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