Bebê que viveu há 6 mil anos pode ter sido vítima de abuso; entenda o que intrigou cientistas

Publicado em 08/07/2026, às 23h50
- Divulgação/Arkadiusz Sołtysiak

Galileu

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Os restos mortais de um bebê que viveu há cerca de 6 mil anos podem representar um dos casos mais antigos conhecidos de violência contra crianças no mundo e o mais antigo já documentado no Oriente Médio. A conclusão é de um estudo que analisou o esqueleto de uma criança encontrada no sítio arqueológico de Tell Brak, na atual Síria.

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Quando morreu, entre 4200 e 3900 a.C., o bebê tinha entre 6 e 9 meses de idade, segundo estimativas baseadas no desenvolvimento dos dentes. Os pesquisadores identificaram quatro costelas fraturadas próximas ao esterno (osso localizado na parte anterior e central do tórax), um crescimento anormal no fêmur direito e lesões porosas ativas nos dois lados do crânio. As descobertas foram descritas em um estudo publicado em 21 de maio na revista International Journal of Osteoarchaeology.

De acordo com os autores, esse conjunto de lesões indica que os ossos foram submetidos a forças externas intensas e repetitivas. Além disso, os ferimentos não são compatíveis com uma queda acidental.

“Costelas não deveriam quebrar” em um bebê tão pequeno, afirmou em entrevista ao site Live Science a bioarqueóloga Aleksandra Grzegorska, da Universidade de Varsóvia, e coautora do estudo. Embora fraturas nas costelas sejam relativamente comuns em adultos, elas costumam ser um forte indicativo de maus-tratos quando aparecem em bebês muito jovens.

Antes de sugerir que a criança sofreu violência, os pesquisadores descartaram diversas explicações médicas para os ferimentos. Entre as possibilidades consideradas estavam raquitismo, escorbuto, traumas ocorridos durante o parto e fraturas provocadas por crises intensas de tosse associadas a doenças como tuberculose. Segundo os autores, essas hipóteses não se sustentam.

As deficiências de vitaminas, por exemplo, foram consideradas improváveis porque a antiga Mesopotâmia tinha uma abundante luz solar e acesso a alimentos frescos graças às terras férteis entre os rios Tigre e Eufrates. Já fraturas relacionadas ao nascimento normalmente cicatrizam em poucas semanas, e as medidas de crescimento e densidade óssea indicaram que o bebê não apresentava nenhuma doença esquelética subjacente.

Para entender se aqueles ferimentos eram comuns, a equipe comparou o esqueleto com o de outras crianças enterradas no mesmo cemitério infantil. Nenhuma delas apresentava fraturas semelhantes nas costelas, tornando o caso uma exceção dentro daquela população.

Violência causada por um cuidador?

Com base nas evidências, os pesquisadores concluíram que o bebê provavelmente sofreu “violência induzida pelo cuidador”. O termo foi escolhido porque os vestígios arqueológicos não permitem identificar quem provocou os ferimentos nem determinar se houve intenção de matar a criança.

Segundo Grzegorska, a expressão evita culpar uma pessoa específica, já que, em muitas sociedades antigas, os cuidados com as crianças eram compartilhados por vários membros da família, e não apenas pelos pais.

Outro detalhe importante é que algumas fraturas apresentavam sinais de cicatrização parcial, indicando que o bebê sobreviveu por algum tempo após sofrer as lesões. Isso sugere que os traumas não foram a causa imediata da morte.

Na época em que o bebê viveu, Tell Brak passava por um processo de urbanização e já estava entre as primeiras cidades do mundo. Os autores levantam a hipótese de que as pressões sociais associadas ao surgimento dos centros urbanos e uma possível redução do apoio da família extensa possam ter contribuído para o episódio de violência. Séculos depois da morte da criança, a região registrou episódios de violência em larga escala relacionados às transformações provocadas pelo crescimento urbano.

Os pesquisadores ainda destacam que casos documentados de violência contra crianças continuam sendo extremamente raros nos registros arqueológicos. Até hoje, apenas um pequeno número de exemplos semelhantes havia sido identificado em países como Egito, França e Lituânia.

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