Câncer transmissível é descoberto em peixes de lago entre EUA e Canadá; entenda a doença inédita

Publicado em 27/07/2026, às 10h58
- Foto: The New York Times

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Por mais de uma década, algo estranho vem acontecendo em um lago que fica na fronteira entre Vermont, nos Estados Unidos, e Quebec, no Canadá. O lago Memphremagog abriga bagres-cabeça-de-touro-marrons, e, em 2012, pescadores começaram a perceber que alguns deles estavam cobertos por crescimentos pretos e aveludados. Biólogos especializados em vida selvagem determinaram posteriormente que os peixes tinham câncer de pele.

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Os chamados melanomas são extremamente raros em bagres, porém mais de um terço dos peixes da espécie apresentava os tumores. Agora, pesquisadores acreditam saber o motivo: uma forma contagiosa de câncer está se espalhando pelo lago, segundo eles relataram na última quarta-feira.
 

O surto começou com um único bagre, acreditam os cientistas. Ele desenvolveu um tumor que liberou células cancerígenas na água. Essas células invadiram outros bagres, dando início, na prática, a uma epidemia.

Pesquisadores já encontraram tumores contagiosos em apenas um pequeno conjunto, aparentemente aleatório, de espécies: cães, diabos-da-tasmânia e alguns tipos de mariscos e outros moluscos. Mas essas descobertas foram suficientes para levantar uma série de questões provocativas.


Alguns cientistas afirmam que os cânceres transmissíveis são novas espécies por si só. Outros chegaram a argumentar que algumas espécies animais podem ter surgido, milhões de anos atrás, a partir de células cancerígenas.

A descoberta do primeiro câncer transmissível em peixes agora está levando cientistas a questionarem o quanto esse fenômeno pode ser realmente disseminado.


— Isso é realmente tão raro quanto pensamos ou simplesmente não estamos procurando? — pergunta Julie Dragon, geneticista da Universidade de Vermont e autora do novo estudo.
Dragon não começou sua pesquisa tentando encontrar um câncer contagioso. Em 2014, biólogos do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont a convidaram para ajudar a descobrir por que os bagres-cabeça-de-touro-marrons do lago Memphremagog estavam ficando doentes.


A luz ultravioleta é uma causa comum de melanomas. Mas parecia improvável que bagres, que vivem na lama do fundo do lago e são ativos principalmente à noite, sofressem com níveis astronomicamente altos de melanomas.


Dragon e seus colegas investigaram várias outras possibilidades, incluindo os efeitos da poluição causada por um aterro sanitário próximo e a infecção por microrganismos, que às vezes podem desencadear câncer. Mas os níveis de poluentes nos peixes eram baixos, e não havia evidências de vírus ou bactérias causadores de câncer.


Dragon decidiu analisar de perto o DNA dos bagres, assim como o DNA mutado presente em seus tumores. Certas variações genéticas podem tornar animais (e pessoas) altamente vulneráveis ao câncer.


Ela esperava que cada célula cancerígena fosse geneticamente mais semelhante ao bagre de onde havia surgido. Em vez disso, todas as células cancerígenas eram muito próximas umas das outras, mas não dos animais nos quais os tumores estavam crescendo.


— Eu disse: "Nós cometemos um erro. Isso não pode estar certo — lembra Dragon. Os pesquisadores reiniciaram toda a análise e chegaram ao mesmo resultado. Os tumores não haviam surgido dos próprios bagres que os carregavam.


Cada vez que analisavam o DNA de um novo peixe, esse padrão ficava ainda mais evidente. Os cientistas começaram a considerar uma possibilidade perturbadora: os bagres eram vítimas de uma forma contagiosa de câncer.

Já no Renascimento, estudiosos especulavam que os cânceres poderiam ser contagiosos. Em 1603, o médico português Rodrigo de Castro imaginou tumores “exalando um vapor horrível” capaz de transmitir câncer para novas vítimas.


Quando cientistas modernos descobriram que o câncer geralmente surge de mutações no nosso próprio DNA, a ideia de “pegar” câncer perdeu força. Só no início dos anos 2000 surgiram evidências sólidas de que alguns cânceres transmissíveis eram reais.


Cães são hospedeiros de um deles, conhecido como CTVT, sigla em inglês para tumor venéreo transmissível canino. Durante o sexo, essas células cancerígenas podem passar de um cão para outro. Estudos do DNA desses tumores sugerem que todas as formas da doença descendem de um único cão que viveu há milhares de anos.


O CTVT raramente é fatal. O mesmo não acontece com um câncer contagioso que se espalha entre os diabos-da-tasmânia.


Essa doença, chamada de tumor facial do diabo-da-tasmânia, se aproveita das frequentes brigas com mordidas e sangramentos entre esses animais. Quando um diabo-da-tasmânia morde um tecido tumoral de outro, as células cancerígenas viajam pelo corpo e chegam ao próprio rosto.


Esse câncer surgiu apenas nas últimas décadas, mas já levou os diabos-da-tasmânia à beira da extinção.


Em 2015, nas costas do Atlântico do Canadá e dos Estados Unidos, pesquisadores encontraram amêijoas-de-casca-mole e outras espécies devastadas por um câncer semelhante à leucemia. Descobriu-se que as amêijoas infectadas liberavam células cancerígenas na água do mar, e os animais saudáveis próximos absorviam essas células.

Mais recentemente, cientistas encontraram câncer transmissível em moluscos no Pacífico e também em águas europeias. Agora, Dragon e seus colegas acreditam ter encontrado um novo câncer contagioso em um hospedeiro completamente diferente.


Eles estão convencidos de que todos os tumores do lago Memphremagog vieram de uma única célula cancerígena ancestral. As estratégias reprodutivas dos bagres-cabeça-de-touro-marrons podem ter dado às células de melanoma uma oportunidade de se espalhar, já que os peixes se agrupam em águas rasas para desovar.

— Eles ficam todos uns sobre os outros — diz Dragon. Nesses agrupamentos, os bagres durante a reprodução podem morder ou arranhar uns aos outros, e seus ferimentos podem expô-los às células cancerígenas que flutuam na água.


Michael Metzger, que estuda cânceres contagiosos em moluscos no Instituto de Pesquisa do Noroeste do Pacífico, em Seattle, observou que esta é a primeira vez que um câncer transmissível foi descoberto se espalhando em água doce. As células normalmente sobrevivem apenas em fluidos salgados.


— Isso nos faz repensar como essas coisas funcionam — diz Metzger.


Dragon também encontrou indícios de que bagres em outras partes do nordeste dos Estados Unidos podem ter sofrido do mesmo câncer. Algumas dessas pistas vieram dos diários do século XIX do naturalista Henry David Thoreau.


Thoreau afirmou que frequentemente encontrava bagres em rios de Massachusetts cobertos por manchas. Em 1858, ele descreveu um que viu durante uma visita ao rio Assabet: “Quase metade da cabeça, do focinho para trás em diagonal, está coberta por uma espécie de lepra negra como tinta, semelhante a um líquen incrustado”, escreveu.


Dragon e seus colegas agora estão procurando cânceres transmissíveis em bagres além do lago Memphremagog. Os cientistas também gostariam de receber relatos de pescadores e biólogos que tenham capturado bagres com tumores pretos e elevados.


Eles podem enviar imagens do peixe inteiro, junto com seus crescimentos, além de informações sobre onde o animal foi capturado, para o e-mail [julie.dragon@med.uvm.edu]. Dragon também pede que, se possível, o peixe inteiro seja congelado. Caso ela e seus colegas queiram examinar o animal, eles providenciarão o recebimento.


— É difícil dizer se toda mancha preta é o nosso tumor, mas não saberemos até testá-las — diz Dragon.


Peter Emerson, outro autor do estudo e biólogo especializado em pesca do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont, recomendou que pescadores evitem comer bagres com tumores.

 Não temos nenhuma evidência de que os peixes sejam inseguros para consumo. Nós apenas preferimos ser cautelosos — afirma.


Por enquanto, há poucas pesquisas indicando que cânceres contagiosos estejam circulando entre humanos. Mas é possível que um deles surja algum dia, disse Elizabeth Murchison, especialista em cânceres transmissíveis da Universidade de Cambridge:


— Essa descoberta reforça a ideia de que cânceres transmissíveis podem surgir em qualquer lugar, incluindo na nossa própria espécie.

 

 

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