Um Boeing 767 da Amazon Air saiu da pista no Aeroporto Internacional de Miami, colidindo com veículos e resultando em cinco mortes, com pilotos expressando preocupação sobre a velocidade excessiva antes do pouso.
Os dados do gravador de voo indicam que a aeronave estava em alta velocidade e não acionou os freios aerodinâmicos ou reversores de empuxo, levantando questões sobre a operação na cabine durante o incidente.
A NTSB está investigando o acidente, entrevistando os pilotos e coletando evidências, enquanto a Amazon e a empresa contratada 21 Air se comprometem a cooperar com as autoridades e apoiar as famílias das vítimas.
Um piloto na cabine do Boeing 767 da Amazon Air — que, no domingo (6), saiu da pista do Aeroporto Internacional de Miami e colidiu com dois veículos, causando cinco mortes — expressou preocupação com a velocidade excessiva da aeronave antes do pouso; é o que mostram informações recém-divulgadas provenientes do gravador de voz da cabine.
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O NTSB (Conselho Nacional de Segurança nos Transportes) divulgou o relato do que foi dito na cabine do avião de carga da Amazon em uma "atualização da investigação", na noite de quarta-feira (9).
Cerca de dois minutos após receber a autorização para pousar, enquanto o avião descia em direção à pista, um dos pilotos expressou preocupação de que a aeronave estava “rápida demais” e “fez comentários adicionais sobre a velocidade excessiva da aeronave durante o restante da gravação” — conforme revela o resumo da mesma —, mas não houve uma “resposta verbal coerente” a tais comentários.
Após tocar a pista, um piloto solicitou realizar uma manobra de arremetida — um procedimento para abortar o pouso e dar uma volta para tentar novamente —, mas a aeronave estava a apenas 5 segundos de ultrapassar o final da pista.
O relatório também detalhou que foram ouvidos vários alertas automatizados na cabine, como parte do Sistema de Aviso de Proximidade com o Solo, indicando que a aeronave estava descendo com excesso de velocidade.
Os investigadores recuperaram o gravador de voz da cabine e o gravador de dados de voo — frequentemente chamados de "caixas-pretas" — da cauda da aeronave acidentada e conseguiram acessar os dados em seu laboratório em Washington.
As conversas captadas pelo gravador de voz da cabine oferecem mais contexto sobre a sequência incomum de acontecimentos nos momentos que antecederam o acidente fatal.
Os dados do gravador de voo, divulgados na terça-feira (8), mostravam o comportamento físico da aeronave, mas levantavam questões sobre o que estava acontecendo na cabine.
O avião de carga de 230 mil libras (cerca de 104 toneladas), operado para a Amazon pela empresa contratada 21 Air, ultrapassou o final da pista em alta velocidade e colidiu com uma van que transportava uma equipe de limpeza, uma cerca do aeroporto, barreiras de concreto e um veículo utilitário esportivo (SUV) antes de finalmente parar e pegar fogo.
Na quarta-feira, os investigadores da NTSB planejavam entrevistar os pilotos da aeronave acidentada, bem como o piloto-chefe adjunto da 21 Air, segundo informou na noite de terça-feira a presidente da NTSB, Jennifer Homendy.
Trinta segundos antes do fim da gravação, enquanto o avião se deslocava a mais de 180 milhas por hora (cerca de 290 km/h), dois dos trens de pouso — as rodas traseiras direitas e as rodas do trem de pouso dianteiro — tocaram a pista, declarou na terça-feira Chihoon Shin, investigador principal da NTSB neste caso.
O terceiro trem de pouso, situado na parte traseira esquerda da aeronave, só tocou o solo nove segundos depois. As aeronaves são projetadas — e os pilotos treinados — para pousar apoiando primeiro as rodas traseiras.
Quinze segundos antes do fim da gravação, enquanto o avião se deslocava a quase 225 km/h, os freios das rodas foram liberados e as manetes de potência foram acionadas ao máximo para a decolagem.
Quatro segundos depois, as manetes retornaram à posição de marcha lenta e os freios foram acionados novamente.
Na terça-feira, a NTSB declarou que precisava conversar com os pilotos para entender o que aconteceu com as manetes de potência. “O que precisamos fazer é conversar com a tripulação e obter a versão deles para entender como manipularam os comandos e, assim, compreender melhor a situação”, disse Shin na terça-feira. “As entrevistas com a tripulação nos ajudarão a esclarecer alguns pontos [...] em relação a ações que eles podem ter realizado, mas não verbalizaram. E isso é algo que precisamos compreender totalmente antes de analisar o que aconteceu com as manetes de potência neste caso.”
O Gabinete do Xerife de Miami-Dade identificou os pilotos como Joseph Carol e Jaime Felipe Silva Molina. Carol, o capitão de 55 anos, acumulava mais de 7 mil horas de voo e estava certificado para pilotar aeronaves Boeing 767 desde maio, segundo informações da NTSB. Silva Molina, o primeiro oficial de 37 anos, tinha mais de 2.500 horas de voo e estava certificado no modelo 767 desde abril de 2025.
A NTSB informou que não houve indícios de acionamento dos freios aerodinâmicos ou dos reversores de empuxo durante o incidente.
Ambos os sistemas são projetados para ajudar a reduzir a velocidade da aeronave: os freios aerodinâmicos, por meio do uso de superfícies aerodinâmicas, e os reversores de empuxo, desviando o fluxo de ar do motor.
Na terça-feira (8), os investigadores da NTSB coletaram evidências, fizeram medições, examinaram os motores e a cabine de comando e recuperaram destroços encontrados em um estacionamento próximo ao local onde o avião parou.
Também foi recuperada a caixa-preta de um dos veículos atingidos.
A NTSB também visitou a torre de controle de tráfego aéreo e o TRACON (centro de controle de aproximação por radar do terminal), que orienta as aeronaves em direção ao aeroporto.
Além disso, os investigadores foram ao centro de operações da 21 Air em Miami e entrevistaram o despachante de voo, que realizou o planejamento pré-decolagem e monitorou o trajeto de San Juan a Miami.
A aeronave transportava mais de 32 mil libras (mais de 14 mil kg) de carga, composta majoritariamente por lentes de contato, informou a NTSB. Os investigadores planejam acessar outras partes da aeronave na quarta-feira (9) e coletar mais evidências em solo.
Uma das pistas do Aeroporto Internacional de Miami permanece fechada, mas outra pôde ser reaberta para decolagens na noite de terça-feira, segundo informou a NTSB.
Os investigadores concentram-se em coletar evidências perecíveis no local do acidente. Dispor de tempo suficiente permite garantir que tudo esteja correto, afirmou Homendy.
“As informações que recebemos horas ou dias após um acidente costumam estar incorretas. E levamos tempo para garantir que as informações que fornecemos estejam corretas”, declarou ela aos jornalistas na terça-feira. “Muita coisa está acontecendo e muitas informações estão sendo reunidas e precisam ser validadas... por isso, esse processo exige tempo.”
As cinco vítimas eram como da família, segundo a empresa
As cinco pessoas que morreram na van trabalhavam para a Professional Ocean Service Corp., uma empresa de limpeza subcontratada por companhias aéreas, segundo declarou na terça-feira (8) a xerife do condado de Miami-Dade, Rosie Cordero-Stutz.
As vítimas foram identificadas como Rolando Alemán León, de 55 anos; Yoel Rodríguez Naranjo, de 53 anos; Julio C. Pineda, de 75 anos; Carlos Acosta Fajardo, de 53 anos; e Javierkys Reyes Quevedo, de 47 anos, informou o gabinete da xerife.
A viúva de Rodríguez Naranjo, Yaraisi Santiso Morejón, entrou com uma ação judicial por morte decorrente de negligência contra os pilotos da aeronave, a Amazon, Inc. e a 21 Air LLC, anunciaram seus advogados na quarta-feira (9).
“Todos os que desempenharam um papel neste acidente terrível terão de prestar contas”, disse John Morgan, fundador do escritório de advocacia.
A CNN entrou em contato com a 21 Air para solicitar comentários sobre a ação judicial.
Um porta-voz da Amazon afirmou que a empresa está comprometida em apoiar as famílias e a comunidade em geral afetadas pelo acidente.
“Nossas mais sinceras condolências permanecem com as famílias, os entes queridos e todos os afetados por essa tragédia devastadora”, disse Kelly Nantel, porta-voz da Amazon, em um comunicado enviado à CNN. “O NTSB está no Aeroporto Internacional de Miami conduzindo sua investigação.”
“Cooperaremos plenamente com eles e apoiaremos qualquer outra autoridade investigadora; da mesma forma, continuaremos a nos coordenar com a 21 Air, a empresa que operou o voo”, continuou o comunicado. “Líderes da Amazon também estão se reunindo com autoridades locais, equipes de resposta a emergências e outros membros da comunidade para oferecer nosso apoio.”
A Professional Ocean Service Corp. declarou estar “devastada por esta tragédia inimaginável” e ressaltou que seus funcionários eram como da família.
“Nossos corações e orações estão com cada funcionário e cada família cujas vidas mudaram para sempre”, afirmou a empresa. “Lamentamos profundamente a perda daqueles que perderam um ente querido e rezamos pela recuperação e pelo restabelecimento dos que ficaram feridos.”
Três pessoas feridas no acidente permaneciam hospitalizadas na manhã de terça-feira, segundo informou o xerife.
Ridoel Averhoff Díaz, de 32 anos, que estava na van, e Eugenio Corredor, de 79 anos, que estava no outro veículo, encontram-se em estado crítico, informou o gabinete do xerife.
Roosevelt Sebastián Perdomo Torres, de 36 anos, que também viajava na van, está em condição estável, acrescentou o gabinete do xerife.
A van foi atingida em uma via de serviço do aeroporto, enquanto o avião colidiu com o veículo utilitário esportivo (SUV) do lado de fora da cerca do complexo aeroportuário, apontou Homendy.
O processo, aberto no condado de Miami-Dade, alega que "múltiplas falhas simultâneas contribuíram para a tragédia" e que o acidente foi uma "tragédia previsível e evitável causada por negligência", informou o escritório de advocacia Morgan & Morgan.
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