Flávio Gomes de Barros
Como, num regime que se pretende democrático, considerar normal se recorrer à justiça para impedir a manifestação da opinião alheia?
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Mas é o que ocorre no Brasil, sempre que alguém divulga o que não é do seu interesse.
E isso é um sentimento geral, que afeta a todos, independentemente da preferência política, como argumenta o jornalista Fabiano Lana:
"Um dos motes retóricos do chamado bolsonarismo é a defesa da liberdade. No sentido amplo do termo. Em seu mundo almejado, não haveria qualquer tipo de censura. Todos teriam direito a falar o que quiserem, mesmo que fosse uma bobagem tremenda. Aí se inclui ser contra as vacinas, a favor das ditaduras, das piadas que ofendem as minorias, contra as urnas eletrônicas e por aí vai. Sem restrição. Assim funcionaria uma hipotética bolsonarolândia.
Porém, isso parece cair frente à primeira contrariedade. Tanto que pediram na justiça a censura de uma pesquisa AtlasIntel que constatava o óbvio: a queda do candidato Flávio Bolsonaro nas intenções de voto após ser flagrado em áudio a cobrar recursos de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro nitroglicerina, em tese para um filme homenagem ao pai, Jair Bolsonaro.
Alegaram que um áudio divulgado pelo instituto continha informações sobre o escândalo, o que prejudicava a sondagem, mesmo exibido após as respostas ao questionário. Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, atende liminarmente o pedido. Outros institutos, entretanto, confirmaram o movimento detectado pela Atlas.
Curioso que, do outro lado do balcão, entre líderes petistas, por exemplo, acusaram os adversários de 'censura'. Ok, estão corretos. Mas foi da lavra dos mesmos que nunca disseram uma frase sobre uma série de decisões judiciais, nos últimos anos, em direção ao cerceamento de opiniões na sociedade, incluindo censura prévia. Algumas meramente políticas. Dos mesmos também que comemoram sempre que a justiça buscar acuar alguns comediantes indesejáveis. Como se o chamado humorismo do insulto fosse de fato um problema social. Seria?
Com a escalada, na política brasileira, de grupos tão antípodas, o que um lado defende vira blasfêmia para o outro. Tome-se o caso da deputada trans Érika Hilton, que já pediu remoção na internet de perfis críticos a seus projetos. Ela é bastante ativa em acionar a justiça contra os que dela discordam. Em compensação, existem pautas da esquerda em relação às drogas, sexo e concepção que a direita gostaria de ver bastante longe do debate público.
De um lado temos, portanto, grupos que nem escondem mais o anseio por censura. Nem que seja para defender minorias ou 'para proteger a democracia'. Uma pequena contradição no sentido de o que constituiria a democracia seria exatamente o direito de falar o que quiser – com exceções previstas em lei. De outro, um movimento de defender a livre-expressão, mas apenas para o que convém.
Com a contradição de ser nostálgica do regime militar, que abertamente instituiu a censura prévia nas redações jornalísticas. Uma palavra multi-ideológica resume tudo isso: hipocrisia.
Nos tempos de falas tumultuadas das redes, o conceito de liberdade costuma ser muito válido, mas apenas para o que se concorda. Ninguém parece acreditar em teses clássicas, como a do filósofo britânico Stuart Mill, lá pelo século 19, que alegava a sociedade ser madura o suficiente para discutir qualquer assunto e distinguir sabiamente os que deveriam ou não ser levados a sério.
Ilusão dos tempos arcaicos."
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