Cientistas identificam bactéria antártica capaz de atacar células de câncer de pele

Publicado em 18/06/2026, às 21h43
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Uma bactéria encontrada há 20 anos em um organismo marinho que vive nas águas geladas da Antártida pode representar um importante passo na busca por novos tratamentos contra o melanoma, uma das formas mais agressivas de câncer de pele. A descoberta, feita por pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos, voltou a ganhar impulso neste mês após uma expedição científica de seis semanas realizada em uma das regiões mais remotas do planeta.

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O alvo da pesquisa é uma espécie de ascídia — um pequeno invertebrado marinho conhecido por viver fixado em rochas e outras superfícies submersas. “Descobrimos que essa ascídia produz uma bactéria que contém um composto tóxico capaz de matar células cancerígenas do melanoma sem prejudicar as células humanas normais.

Essa seletividade é crucial no desenvolvimento de medicamentos, pois o objetivo é tratar a doença sem prejudicar o paciente”, afirma o professor de química Bill Baker, responsável pela pesquisa, em comunicado publicado no dia 2 de junho.

A descoberta ainda está longe de resultar em um remédio funcional e disponível para a utilização de pacientes humanos em tratamento. Mas os pesquisadores defendem que compreender o funcionamento desse composto já poderá abrir novas possibilidades interessantes para o tratamento do câncer.

Tesouro biológico escondido

O interesse dos pesquisadores pela região vai além das baixas temperaturas. Isolada por milhões de anos, a Antártida abriga espécies que evoluíram de forma única, sem contato com muitos organismos encontrados em outras partes do planeta.

Essa trajetória evolutiva singular transformou o continente em uma espécie de laboratório natural para a busca de compostos inéditos. No ambiente marinho, muitos invertebrados dependem de substâncias químicas para se defender de ameaças ou competir por espaço, produzindo moléculas que despertam interesse da indústria farmacêutica.

“O continente é único porque esteve isolado geográfica e ambientalmente durante milhões de anos”, explica Baker. “Como resultado, as espécies na Antártida tiveram tempo para evoluir independentemente, dando origem a organismos altamente especializados. As ascídias que estudamos são adaptadas especificamente a esse ambiente e não são encontradas em nenhum outro lugar.”

O que a nova expedição queria descobrir

Se a existência do composto já era conhecida, a missão realizada neste ano buscou responder perguntas consideradas fundamentais para os próximos passos da pesquisa. Os cientistas queriam entender onde a bactéria ocorre, como ela se distribui ao longo da Península Antártica e qual a sua relação biológica com a ascídia hospedeira.

“Nossa expedição teve como foco determinar onde a bactéria que mata melanomas presente na ascídia ocorre e qual a sua disseminação”, indica o pesquisador de pós-doutorado Sam Afoullouss. “Também queríamos entender como ela vive dentro do organismo e como isso se conecta aos compostos relacionados à pesquisa sobre melanoma.”

As respostas podem ajudar os pesquisadores a compreender como a substância é produzida na natureza. Consequentemente, ainda seria possível verificar a capacidade de reproduzi-la futuramente em escala adequada para aplicações médicas.

Mergulhos entre gelo e focas-leopardo

A coleta das amostras exigiu operações complexas. As ascídias são encontradas principalmente em encostas submarinas onde as correntes marítimas são mais intensas, geralmente entre 18 e 24 metros de profundidade. Para além dos mergulhos realizados pela equipe, veículos operados remotamente foram enviados a áreas mais profundas para localizar novas populações dos organismos e mapear sua distribuição. Veja vídeo da operação:

“Em média, nossos mergulhos duravam de 25 a 35 minutos, com uma profundidade máxima de 40 metros”, relata Ben Meister, oficial de segurança de mergulho da USF. “Mas na Antártida, você lida com gelo, focas-leopardo, mares em constante mudança e, às vezes, visibilidade muito limitada. Cada mergulho precisa ser cuidadosamente planejado para equilibrar a realização do trabalho com a segurança de todos.”

Após a coleta, as amostras foram preservadas para evitar alterações que pudessem comprometer os resultados das análises posteriores.

Da descoberta científica ao possível medicamento

Com o retorno da expedição, inicia-se agora uma etapa que pode durar anos. Diferentes grupos de pesquisadores analisarão o material coletado sob perspectivas complementares, incluindo genética, química e biologia.

O objetivo é identificar como a bactéria produz o composto, compreender sua estrutura molecular e avaliar seus efeitos com maior precisão. Esse tipo de investigação é considerado essencial antes que qualquer substância possa avançar para estudos mais aplicados.

“Esta pesquisa é importante tanto do ponto de vista ambiental quanto médico”, destaca Baker. “Estamos aprendendo como os organismos usam a simbiose para sobreviver em condições extremas, algo ainda amplamente desconhecido em ecossistemas de água fria como a Antártica. Compreender a origem e a função desse composto é fundamental se quisermos desenvolvê-lo em um medicamento.”

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