Com sequelas graves, torcedor que foi espancado desabafa em júri: "Não consigo me alimentar sozinho"

Publicado em 19/03/2026, às 14h46
Com sequelas graves, torcedor que foi espancado desabafa em júri - Dulce Melo / Ascom MP-AL

TNH1

Vítima da violência causada pelas brigas entre torcidas organizadas, Symei Araújo desabafou no Tribunal do Júri, nesta quinta-feira, 19, ao falar sobre as graves sequelas que ficou após ser brutalmente espancado por membros da Mancha Azul em 2 de agosto de 2023, na parte baixa da capital alagoana. Dois dos cinco denunciados por participação no crime começaram a ser julgados nesta manhã, na 9ª Vara Criminal de Maceió.

LEIA TAMBÉM

Simey contou que trabalhava com serviços gerais, tocava na bateria de uma torcida do CRB e afirmou que nunca participou de enfrentamentos. Ele passou quatro meses internado em coma, no Hospital Geral do Estado (HGE), e ficou com sequelas gravíssimas devido às agressões.

Ao júri, Simey disse que, ao sair do coma, não conseguia falar. Ele tentou andar no quarto do hospital e caiu.

"Não consigo me alimentar sozinho, porque fico me engasgando e minha mãe tem que estar perto", relatou a vítima.

Hoje, com 27 anos de idade, o jovem segue com dificuldade de fala, mas descreveu no tribunal o que aconteceu naquele dia 2 de agosto.

Symei sofreu traumatismo craniano com perda de massa encefálica e teve sequelas permanentes (Foto: Reprodução)

 

"Tentei correr, mas jogaram um barrote no meu pé e eu caí. Levaram tudo meu, roupa, celular, documentos. Me deixaram nu".

A vítima informou que imagens dele sem roupa e espancado foram compartilhadas em grupos de WhatsApp, em tom de zombaria sobre a tentativa de homicídio, e que o conteúdo viralizou.

"Antes de sofrer essa covardia, eu tinha o sonho de ser atleta de skate, participar de campeonato. Mas hoje não posso mais", lamentou.

O juiz Geraldo Amorim perguntou se Simey queria esperar pela conclusão do julgamento ou se preferia voltar para casa. A vítima optou por retornar para a residência.


Toque de celular com som de sirene teria interrompido espancamento

De acordo com a denúncia do Ministério Público Estadual, integrantes da torcida organizada Mancha Azul, ligada ao CSA, chegaram em dois carros e atacaram Symei e Michael Douglas com pedaços de madeira com pregos, porretes e tacos de beisebol. Michael também foi ouvido nesta quinta-feira, 19.

"Os carros chegaram de repente. Perguntei por que estavam me batendo e eles não respondiam nada. Quando estava sendo agredido por eles, meu telefone começou a tocar e acredito que correram porque o toque era de barulho de sirene".

Ele disse que não conseguiu ver Simey sendo agredido. "Enquanto estava sendo agredido, deu pra ver um 'buruçu' na esquina e eu achei que era o Júnior". Ele afirmou que foram cerca de seis a oito pessoas envolvidas. Outros dois rapazes que estavam com ele conseguiram correr.

Michael falou que, quando Simey saiu do HGE, foi visitá -lo e ficou arrasado. "Ele não conseguia tomar banho sozinho, não me reconheceu e eu passei mal".

Ainda na declaração, revelou que Simey teve dificuldade em reconhecer o próprio filho. "Simey amava muito o filho e, quando voltou do HGE, ele não reconhecia o menino, parecia que era uma criança estranha. Simey olhou pra ele e não teve nenhuma reação, e isso foi muito triste. Por diversas vezes fui lá e ele continuava sem reconhecer o filho".

Todas as falas de Simey e Michael foram compartilhadas pela assessoria de comunicação do Ministério Público do Estado, que acompanha o julgamento presencialmente.

A reportagem ainda não teve acesso ao material apresentado pela defesa dos acusados, mas o espaço segue aberto para atualizações. 

O Ministério Público aponta tentativa de homicídio com motivo fútil, uso de meio cruel e recurso que dificultou a defesa das vítimas, além de furto. Os outros três denunciados serão julgados separadamente. 

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

PF conclui que Flávio Bolsonaro cometeu calúnia contra Lula nas redes MP denuncia policial por execução de dois colegas dentro de viatura em Delmiro Gouveia Mendonça autoriza transferência de Vorcaro para Papudinha Supremo retoma julgamento sobre uberização; entenda a pauta