Drogasil e outros varejistas testam escala 5x2 e veem vantagens, mas custo e organização são desafios

Publicado em 08/05/2026, às 11h00
- Imagem feita com I.A.

Felipe Mendes e Sylvia Miguel/Folhapress

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Grandes e médios varejistas do país vêm testando a escala 5x2 (cinco dias de trabalho e dois de descanso) e constatam algumas vantagens do modelo, como maior atração de candidatos e redução da rotatividade. Desafios operacionais, no entanto, existem.

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Executivos de redes como Supermercados Pague Menos, RD Saúde (Droga Raia e Drogasil) e Savegnago, ouvidos pela reportagem, também apontam gastos menores com benefícios como vale-transporte e alimentação, além da diminuição das faltas e dos acidentes de trajeto.


Entre as dificuldades relatadas estão a gestão das folgas, os riscos de aumento de custos e, em alguns casos, a redução das gorjetas devido à ampliação das equipes.


As experiências dessas empresas, que acontecem em meio à discussão no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho e um de descanso) e a redução da jornada de trabalho, serão detalhadas em uma série de reportagens publicadas entre esta sexta-feira (8) e domingo (10).


"O déficit de mão de obra é um grande problema no varejo e as experiências que temos visto estão despertando o interesse dos candidatos, atraídos pela possibilidade de uma jornada mais flexível", afirma Maurício Bendixen, superintendente da Apras (Associação Paranaense de Supermercados).


Para ele, um ponto crucial a favor da escala 5x2 é a maior flexibilidade, algo que passou a ser mais valorizado após a pandemia de Covid-19.


"Nos dias de folga, algumas pessoas preferem fazer bicos como horista, outras priorizam o lazer, o descanso ou os estudos. A valorização do tempo e da qualidade de vida ficou muito evidente a partir de 2020 e no pós-pandemia. As novas gerações não se importam tanto com cargos de liderança. Dão mais valor à vida privada e querem trabalhar por menos tempo", disse.


Estudo da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) divulgado em fevereiro aponta que uma redução na jornada de trabalho semanal para 40 horas afetaria mais de 90% da força de trabalho hoje empregada no setor de comércio e serviços, e exigiria a abertura de 980 mil postos de trabalho para compensar a redução.


A entidade do setor afirma que haverá um impacto em R$ 122,4 bilhões para o comércio e R$ 235 bilhões para o setor de serviços, que soma R$ 357,5 bilhões.


Em alguns casos, o modelo 5x2 pode impactar a folha de pagamentos. "Se o negócio é pequeno, há menos gente para fazer os escalonamentos e rodízios e às vezes é necessário contratar horistas, tanto que algumas empresas estão se especializando na oferta dessa mão de obra", afirma Bendixen.


A jornada diária do comércio, em torno de 7 horas e 20 minutos, passa a ser maior no modelo 5x2 — chegando a 8 horas e 48 minutos com os dois dias de folga, normalmente durante a semana. O escalonamento não compromete as 44 horas semanais, teto previsto pela Constituição Federal.


As propostas em discussão no Congresso Nacional, no entanto, querem reduzir esse total.
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou no dia 22 de abril o relatório favorável à tramitação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do fim da jornada 6x1, o primeiro passo para o avanço da proposta. O texto agora seguirá para uma comissão para a discussão de mérito.


São duas PECs tramitando juntas, dos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), que propõem a redução da jornada semanal das atuais 44 horas para 36 horas. A proposta de Hilton também altera a escala, fixando-a em quatro dias de trabalho por três de folga.
Esse desenho de jornada é considerado superado pelo governo, que vem defendendo a adoção de um limite de 40 horas semanais, sem a fixação de um regime de escala, que deve ficar para as negociações entre categorias e empresariado.


O fim da escala 6x1 é uma das principais bandeiras eleitorais do governo Lula para as eleições deste ano. Segundo o Datafolha, 71% dos brasileiros aprovam o fim desse regime de trabalho.


O presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), João Galassi, disse à Folha que a implementação da nova escala pode quebrar os supermercados menores. Ele defende, como alternativa ao 5x2, a PEC 40/2025, do deputado Mauricio Marcon (Podemos-RS), que implanta um regime flexível, por horas trabalhadas.


"Nós queremos uma segunda opção além da que temos hoje. Além do modelo mensalista, queremos o horista", afirma o dirigente, que também é crítico à redução da jornada semanal de 44 para 40 horas.


Para o presidente da Apas (Associação Paulista de Supermercados), Erlon Ortega, o formato 5x2 contempla tanto o jovem que quer maior flexibilidade quanto pessoas com mais de 50 anos de idade, que querem uma jornada mais compacta.


Segundo Ortega, algumas redes paulistas já estão praticando a escala 5x2 e mantendo as 44 horas semanais, com bons resultados, conseguindo que os colaboradores tenham dois dias de folga na semana sem que o custo operacional sofra aumento.


Glauco Humai, presidente da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), afirma que a nova escala poderá prejudicar a operação de pequenos lojistas, que são a maioria dos estabelecimentos.


"Quase 60% dos lojistas de shoppings são pequenos, com três a cinco funcionários. Para mudar a escala, terão de contratar um ou dois funcionários a mais. Com o encargo trabalhista que a gente tem hoje, isso vai impactar o resultado em 30% a 40%. Ou seja, vai inviabilizar praticamente o negócio", afirma Humai.

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