Ebola pode chegar ao Brasil? Veja o que preocupa especialistas após novo surto

Publicado em 19/05/2026, às 14h42
- Avener Prado/Folhapress

O Tempo

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A declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) que classificou o atual surto de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional reacendeu o alerta das autoridades sanitárias globais. Apesar disso, especialistas afirmam que o risco de chegada da doença ao Brasil permanece baixo neste momento.

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Em comunicado, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) informou acompanhar “com preocupação” o avanço do surto causado pelo vírus Bundibugyo, uma variante rara do ebola para a qual ainda não existem vacinas ou terapias específicas aprovadas.

Segundo dados da OMS citados pela SBI, até 16 de maio de 2026 foram registrados oito casos confirmados laboratorialmente, 246 casos suspeitos e ao menos 80 mortes suspeitas na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo. Também houve confirmação de casos importados em Kampala, capital de Uganda, o que evidencia transmissão internacional.

A infectologista Luana Araújo, presidente do Comitê Científico de Saúde Única da SBI, afirma que existe possibilidade de o vírus chegar a outros países, incluindo o Brasil. “Existe o risco, mas é baixo diante das características epidemiológicas da própria doença e pelo fato de termos barreiras sanitárias para essa mobilização populacional”, afirma.

Segundo a médica, o número reduzido de voos diretos entre o Brasil e as áreas afetadas contribui para diminuir as chances de disseminação internacional. “Não é o continente africano inteiro, obviamente, que está passando por essa situação difícil, é uma região específica. Então, nesse momento, considera-se risco baixo tanto no Brasil quanto no resto do mundo”, acrescenta.

Variante rara preocupa especialistas

A SBI ressalta que a declaração de emergência internacional não significa que exista uma pandemia em curso, mas indica necessidade de coordenação global, fortalecimento da vigilância epidemiológica e apoio internacional imediato para conter a disseminação da doença.

Entre os fatores que elevam a preocupação das autoridades estão a ausência de vacinas e tratamentos específicos para a cepa Bundibugyo, a circulação do vírus em áreas de conflito, a elevada mobilidade populacional na região afetada e a possibilidade de subnotificação.

Para Luana Araújo, a combinação entre alta letalidade e dificuldade de controle sanitário em áreas vulneráveis torna o cenário especialmente delicado. “Embora a letalidade do vírus Bundibugyo não seja a maior dentre os vírus ebola, é muito alta ainda assim, é de 25 a 50% nesse caso, e a gente não tem nenhuma medida terapêutica ou de prevenção medicamentosa disponível para esse vírus. É uma combinação bastante perigosa e que provavelmente vai nos levar a ver o pior surto de ebola no continente africano desde 2014”, enfatiza.

A infectologista destaca que, diferentemente da cepa Zaire — para a qual existem vacinas e tratamentos com anticorpos monoclonais —, o vírus Bundibugyo ainda não possui ferramentas específicas de prevenção ou tratamento.

Segundo a médica, o contexto regional dificulta a atuação das equipes de saúde e amplia o potencial de transmissão. O ebola é transmitido principalmente pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, como suor, urina, fezes, leite materno e sêmen. “Isso faz com que a doença fique mais potencializada. Então as equipes têm a sua ação dificultada, as pessoas têm também um obstáculo maior em conseguir chegar ao sistema de saúde, o próprio sistema de saúde fica dividido em atender tantas demandas”, afirma.

Brasil possui plano de contingência

Apesar do alerta internacional, a SBI informa que não há registro de casos no Brasil até o momento. A entidade defende vigilância ativa em portos, aeroportos e serviços de saúde, especialmente para identificação precoce de viajantes provenientes de áreas afetadas.

Luana realça que o país possui estrutura para identificar casos suspeitos. “Temos um plano de contingência, inclusive de febres hemorrágicas atualizado em 2024, que trata desse assunto”, diz. Ela ressalta, porém, que o enfrentamento depende de articulação internacional e transparência entre os países.

Ao analisar surtos anteriores, a infectologista evidencia que o ebola expõe fragilidades sociais, sanitárias e políticas globais. “O ebola também mostra para a gente que não existe ninguém seguro enquanto todo mundo não estiver seguro”, declara.

Segundo a médica, a repetição de crises sanitárias em regiões vulneráveis demonstra falhas persistentes da comunidade internacional na resposta às emergências de saúde pública no continente africano. “Não existe decisão em saúde pública que não tenha uma consequência, e o que a gente está vendo agora é a consequência dessa displicência internacional com relação à população do Centro-Oeste africano”, conclui.

OPAS reforça preparação e descarta restrições de viagens

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) também emitiu orientações aos países das Américas após a declaração de emergência da OMS. Embora o risco para a população em geral permaneça baixo, o organismo recomendou o reforço da preparação dos sistemas de saúde, da vigilância epidemiológica, da capacidade laboratorial e das medidas de prevenção e controle de infecções.

“A OPAS reitera a necessidade de os países reforçarem as medidas de prevenção e controle nos serviços de saúde. Estas incluem sistemas de triagem eficazes para a rápida identificação de casos suspeitos, procedimentos de isolamento seguros, utilização adequada de equipamentos de proteção individual (EPI), formação dos profissionais de saúde, gestão segura de resíduos e limpeza e desinfecção ambiental”, informou em comunicado.

O organismo ainda afirmou que, conforme as recomendações atuais da OMS, não há indicação para fechamento de fronteiras ou restrições a viagens e comércio relacionadas ao surto. Segundo a entidade, medidas desse tipo não possuem respaldo científico e podem até aumentar o risco de disseminação ao incentivar deslocamentos por rotas informais e não monitoradas.

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