'Elas se amavam como irmãs': amigas com leucemia morrem com 1h de diferença

Publicado em 19/05/2026, às 15h45
Maria Eduarda Ramos e Lara Gabriela Noé Diniz Vlaxio fizeram amizade no hospital - Arquivo pessoal
Maria Eduarda Ramos e Lara Gabriela Noé Diniz Vlaxio fizeram amizade no hospital - Arquivo pessoal

Por Igor Ribeiro / Folhapress

Lara Gabriela e Maria Eduarda, duas jovens que se tornaram amigas durante o tratamento contra leucemia em Rondônia, faleceram com uma hora de diferença após complicações da doença, gerando comoção nas famílias e na comunidade local.

Lara, de 17 anos, e Duda, de 19, enfrentaram a leucemia no Hospital do Amor, onde desenvolveram uma amizade que trouxe conforto em meio ao sofrimento, mas que não sobreviveu às complicações da doença.

As famílias das jovens buscam transformar a dor em ação, incentivando a doação de sangue, medula e órgãos, destacando a importância da solidariedade e do apoio mútuo em momentos difíceis.

Resumo gerado por IA

Lara Gabriela e Maria Eduarda morreram no mesmo dia após se conhecerem durante o tratamento contra a leucemia em Rondônia. Duas amigas unidas pelo tratamento contra a leucemia morreram com cerca de uma hora de diferença. Lara Gabriela Noé Diniz Vlaxio, 17, e Maria Eduarda Ramos, a Duda, 19, enfrentavam a doença no Hospital do Amor, na cidade de Porto Velho, e criaram um laço em meio a exames, internações e sessões de quimioterapia.

Lara sofreu seis paradas cardíacas na manhã de segunda-feira (11/5). A jovem estava intubada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) pediátrica e não resistiu às complicações da doença após tratar uma leucemia por vários anos. Ela estava internada desde o fim de abril.

Mãe de Duda recebeu a notícia da morte cerebral da filha logo em seguida. Cerca de uma hora após o falecimento de Lara, a equipe médica chamou Berenice, mãe de Maria Eduarda, para comunicar que a jovem, internada na UTI adulta desde o mesmo domingo em que a amiga foi intubada -5 de maio-, também havia morrido.

Lara começou a frequentar o hospital antes de Duda e, com o tempo, passou a evitar novas amizades. Ela havia perdido muitos colegas que fez durante o tratamento e tentou se proteger da dor criando distância dos outros pacientes.

"Ela chegou a um ponto em que se bloqueou. Falou que não ia mais fazer amizade, não ia mais ter vínculo com ninguém, para não sofrer mais qualquer outra perda", disse Guilherme Vlaxio, pai de Lara.

Duda mudou esse cenário. Comunicativa e carinhosa, ela foi, nas palavras de Guilherme, "destravando" a barreira que Lara havia construído. A amizade cresceu no corredor do hospital e ultrapassou aquele ambiente. As famílias faziam encontros, churrascos e refeições juntas quando as meninas estavam bem e com imunidade estável.

Lara completou 17 anos em 16 de abril. No dia seguinte, recebeu a notícia de que a leucemia havia voltado. Mesmo abalada, sua primeira preocupação foi com a amiga.

Lara chorou por cerca de dois minutos após ouvir o resultado do mielograma -exame que analisa células da medula óssea-, que detectou o retorno do câncer. Em seguida, fez um pedido à médica. "Doutora, não quero que a Duda me veja assim, porque ela vai fazer um exame importante e ela não pode falhar nesse exame."

Duda também estava no hospital naquele mesmo dia, prestes a fazer um exame importante. O exame em questão era o eletroencefalograma. Para ser realizado, o paciente precisa estar calmo para que não haja qualquer alteração. E assim foi feito.

A equipe médica respeitou o pedido e organizou a saída de Lara para que Duda não percebesse o que havia acontecido. Lara ainda pediu para comemorar o aniversário antes de reiniciar o tratamento -ela havia passado os três anos anteriores internada em datas comemorativas. A festa aconteceu no feriado, com pizza, bolo e amigos próximos. Em 22 de abril, retornou ao Hospital do Amor.

Duda voltou ao hospital em 5 de maio, depois de passar mal em Cacoal, cidade onde morava com a mãe, Berenice. As duas foram internadas no mesmo período, em quartos próximos -o de Lara era o 7; o de Duda, o 15. Mesmo assim, não podiam se encontrar pessoalmente. Lara estava com a imunidade baixa, e Duda passava por exames. A equipe médica não autorizou o contato direto.

Elas se falavam por videochamada. Choraram, conversaram e combinaram que, quando estivessem melhor, caminhariam juntas pelo corredor para "botar as histórias em dia". A caminhada nunca aconteceu.

Por ser maior de idade, Duda foi transferida para a UTI adulta, em outro prédio. Lara, por sua vez, para a UTI pediátrica. Elas não se falaram mais.

No domingo, as duas foram intubadas. Na segunda-feira de manhã, Lara morreu após seis paradas cardíacas, segundo Guilherme. Cerca de uma hora depois, a mãe de Duda foi chamada pelo médico e recebeu a notícia da morte cerebral da filha.

"Minha filha foi maravilhosa. Minha filha aguentou, minha filha lutou. Ela queria viver, e por isso eu só agradeço", disse Guilherme, pai de Lara.

QUEM ERAM LARA E DUDA

Para a família, Lara era doce, forte e agregadora. Mesmo nos momentos mais difíceis, dizia que estava bem para não preocupar quem estava ao redor. "Ela carregava força, doçura e uma capacidade enorme de transmitir amor", disseram os parentes.

Duda, segundo a mãe Berenice, era alguém que "amava a vida e não perdia tempo reclamando". Trabalhou desde os 12 anos para ajudar em casa e queria ser médica para continuar cuidando de outras pessoas. No velório, adolescentes e jovens descreveram Duda como amiga leal, sempre disposta a ajudar. "Era mais mãe do que filha", disse Berenice.

As duas compartilhavam planos para depois do tratamento. Elas queriam estudar medicina, viajar, conhecer outras culturas e construir uma vida longe da rotina dura do hospital. "Elas se amavam como irmãs e se protegiam", afirmou Berenice.

FAMÍLIA QUER TRANSFORMAR DOR EM CAUSA

Raíza, tia e madrinha de Lara, acompanhou a amizade de perto e destaca o que as duas deixaram de ensinamento. "Lara e Duda mostraram que amizade vai além das circunstâncias, que o apoio verdadeiro pode transformar jornadas dolorosas em caminhos de esperança."

"Essa amizade ensinou sobre empatia, amor genuíno e a importância de estar presente", disse Raíza Vlaxio.

Família não quer que a história das duas seja "apenas uma notícia". O pedido é que ela sirva de estímulo para quem ainda não tomou nenhuma atitude em relação à doação de sangue, medula ou órgãos. "Transformar essa dor em ajuda ao próximo é o verdadeiro sentido de compartilharmos sua história", disseram os parentes.

O QUE É A LEUCEMIA E COMO DOAR

Leucemia é um câncer que afeta as células do sangue. Ela começa, em geral, na medula óssea, onde são produzidos glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas.

Em crianças, adolescentes e jovens, um dos tipos mais frequentes é a leucemia linfoblástica aguda. O câncer pode evoluir rapidamente e exigir tratamento intenso, com quimioterapia, internações, transfusões e cuidados contra infecções. Entre os sinais de alerta estão o cansaço intenso, palidez, febre, infecções, hematomas, sangramentos e dores nos ossos ou articulações.

Estoques dos hemocentros dependem fortemente de voluntários regulares. Pacientes em tratamento contra o câncer precisam de transfusões frequentes ao longo de toda a jornada médica, e os interessados devem procurar as unidades de saúde locais para realizar a doação de sangue ou plaquetas.

Cadastro para doação de medula óssea exige apenas uma amostra de sangue. O voluntário entra em um banco de dados genético nacional e recebe um chamado futuro caso apresente compatibilidade com algum paciente que necessite do transplante, sem obrigatoriedade de doação imediata.

Doação de órgãos depende exclusivamente de autorização familiar no Brasil. As famílias orientam que as pessoas conversem abertamente com os parentes ainda em vida para deixar o desejo claramente registrado, o que facilita o processo burocrático e garante que o procedimento aconteça após a morte.

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