Embate no STF: “Eis um duelo de enorme interesse: Sinceridade de Gilmar X Verdade de Fux”

Publicado em 24/06/2023, às 14h11

Redação

Texto do jornalista Josias de Souza:
“Gilmar Mendes e Luiz Fux meteram-se numa toga justa ao bater boca durante o julgamento sobre juiz de garantias, na noite de quinta-feira. Atacado por engavetar o tema por três anos, Fux se disse admirado com a franqueza. E Gilmar: ‘Pode esperar durante o julgamento pela minha sinceridade’. Fux afirmou não ter ‘medo de sinceridade’. Fustigou: ‘Eu olho no olho. Vou falar a minha verdade até o fim’.
A sinceridade é uma virtude fictícia. A verdade absoluta é ainda mais incrível do que a ficção. Mas, ainda assim, a nação deveria suspender todos os seus outros negócios para dedicar atenção total à continuidade desse duelo. De um lado, a ‘sinceridade’ de Gilmar. Do outro, a ‘verdade’
de Fux. No centro, as gavetas do Supremo. O julgamento será retomado na quarta-feira. Reserve a pipoca.
Criada pelo Congresso em 2019, a figura do juiz de garantias teve a implantação suspensa por Fux em janeiro de 2020. Surgiu como reação ao ativismo da Lava Jato. Serviria para dividir o trabalho entre o juiz que conduz a produção de provas durante o inquérito e o juiz que profere as sentenças. Em tese, isso levaria a julgamentos mais isentos. Ou reforçaria a aparência de isenção.
Houve enorme polêmica. Ouviram-se argumentos respeitáveis contra e a favor do juiz de garantias. Ao Supremo caberia julgar a constitucionalidade da decisão do Legislativo, não engavetá-la. Na época, Gilmar disse que Fux deveria entregar as chaves do Congresso à então força-tarefa de Curitiba. Agora, afirma que não se pode suspender a aplicação de uma lei porque alguém teve ‘dor de barriga’.
Algo parecido aconteceu em abril de 2014. Julgava-se ação da OAB questionando a constitucionalidade da lei que permitia doações de empresas a campanhas políticas. O relator era Fux. Farejava-se uma maioria pela proibição do financiamento eleitoral privado. As barrigas dos dirigentes partidários entraram em ebulição. Gilmar pediu vista do processo. Engavetou-o por um ano e meio.
A ação da OAB contra as arcas eleitorais privadas chegara ao Supremo em 2011. Começou a ser julgada em 2013. Mas a proibição só veio em setembro de 2015, depois que Gilmar abriu sua gaveta. Por 8 votos a 3, o Supremo decidiu que o financiamento de campanhas por empresas afronta a Constituição. Voto vencido, Gilmar defendeu o engavetamento.
Se a decisão saísse no início de 2014, ele dizia, o Supremo teria que resolver se a proibição valeria para as eleições daquele ano. Temia a ‘insegurança jurídica’. Deu em Lava Jato, em Vaza Jato, em juiz de garantias…
A propósito, deve-se à gaveta de Gilmar também o título de juiz suspeito que o Supremo concedeu a Sergio Moro. Quando Moro, com a popularidade ainda reluzente, aceitou convite para integrar o ministério de Bolsonaro, o advogado Cristiano Zanin correu ao Supremo.  Arguiu a suspeição do algoz de Lula.
O pedido começou a ser julgado na Segunda Turma da Corte em dezembro de 2018. Esboçava-se um placar pró-Moro. Gilmar pediu vista. Tirou o caso da gaveta mais de dois anos depois. Relator das encrencas de Curitiba, Edson Fachin anulou as condenações de Lula no pressuposto de que a ação contra o ex-juiz perderia o objeto. Levada a voto em março de 2021, quando Moro já era um ex-Moro, a suspeição prevaleceu por 3 a 2. Cármen Lúcia, que votara pelo arquivamento em 2018, mudou de lado, sacramentando o placar que Gilmar construiu com método.
Gavetas também fazem história.
Hoje, Moro é um senador com o mandato sub-judice, Zanin é o mais novo ministro do Supremo, Bolsonaro está na bica de se tornar inelegível, Lula desfruta do seu terceiro mandato presidencial e Gilmar tornou-se um crítico das gavetas dos outros. Escolheu um alvo conveniente, pois Fux é exímio engavetador. Segue um viés predominantemente corporativo.
Fux segura desde 2012, por exemplo, ação contra penduricalhos que engordam contracheques de juízes fluminenses. Manteve por quatro anos (entre 2014 e 2018) o auxílio-moradia ilegal aos juízes brasileiros.
Só revogou a liminar depois que o governo, sob Michel Temer, injetou a imoralidade nos contracheques dos magistrados.
A gaveta de Gilmar é mais, digamos, política. Para ficar no caso mais recente, Gilmar concedeu, em dobradinha com Dias Toffoli, um congelamento processual de mais de um ano a Flávio Bolsonaro.
Nesse intervalo, as provas gordas do caso da rachadinha foram desossadas. O Superior Tribunal de Justiça empurrou parte das evidências colecionadas contra Flávio para a cova. Em dezembro de 2021, a Segunda Turma do Supremo jogou terra em cima.
O relator foi Gilmar. Fachin divergiu. Mas ficou isolado. Votaram com Gilmar outras duas togas: Ricardo Lewandowski, agora substituído por Zanin, e o ministro-gorjeta Nunes Marques (10% de Bolsonaro no Supremo).
Há seis meses, a pretexto de conter o engavetamento indiscriminado, o Supremo ajustou o seu regimento para disciplinar os pedidos de vista. Manteve-se a prerrogativa dos ministros de interromper julgamentos para, supostamente, examinar determinada questão. Mas os processos serão automaticamente liberados para julgamento após um prazo de 90 dias. O prazo anterior era de 30 dias. E jamais foi respeitado.
Não há no Supremo ambiente mais fascinante do que a gaveta de alguns ministros. Hoje, aguardam na fila do plenário algo como 240 processos interrompidos por pedidos de vista.
Levado às últimas consequências, um bate-boca como o que opõe Gilmar e Fux poderia iluminar os porões de supremas escrivaninhas. Ninguém espera que a contenda resulte numa troca de socos. Mas a audiência da TV Justiça subiria se surgissem ao longo do julgamento sobre juiz de garantias boas frases, insultos mais elaborados, ironias mais finas, qualquer coisa que compensasse o custo da sessão.
Vivo, Cazuza diria que, nesse tipo de duelo, até as ‘mentiras sinceras me interessam’
Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Senadora Eudócia propõe criação da Comenda de Mérito Científico Casa Tuca realiza hoje a 4ª Feira do Empreendedorismo O que tira o sono do presidente Lula Um ingrediente de incentivo a Paulão