Entenda o que é a amnésia imunológica do sarampo que pode aumentar o risco de outras infecções

Publicado em 20/08/2026, às 13h38
Imunização é fundamental - SESA

Patrícia Pasquini / Folhapress

Ler resumo da notícia

Imagine que o sistema imunológico seja uma biblioteca com informações sobre as infecções que o corpo humano enfrentou ao longo da vida. Após o sarampo, páginas de alguns livros desse acervo são apagadas.

LEIA TAMBÉM

Com essa analogia, a bióloga Patrícia Rosa Vanderborght, responsável pelo setor de imunização humana do Richet Medicina e Diagnóstico da Rede D’Or, explica como a amnésia imunológica pode acometer o organismo após a infecção pelo sarampo.

A doença é de transmissão respiratória e causada por um vírus. Os sintomas mais comuns são febre alta, manchas vermelhas pelo corpo (exantemas), conjuntivite, coriza, mal-estar e tosse seca.

O sarampo evolui em quatro períodos:

"Amnésia imunológica é a perda de parte da imunidade adquirida, que pode acontecer após uma infecção pelo vírus do sarampo. Guardamos memórias de microrganismos que já encontramos e conseguimos produzir anticorpos novamente quando somos expostos a eles.

O vírus do sarampo pode atingir células importantes para essa memória e reduzir parte desse repertório", explica Vanderborght.

Um grupo de cientistas de Harvard acompanhou crianças não vacinadas antes e depois do sarampo. Segundo os pesquisadores, a infecção eliminou entre 11% e 73% do repertório de anticorpos preexistentes, a depender do paciente.

O estudo foi publicado na revista Science. Outro trabalho, divulgado na Science Immunology, mostra alterações duradouras no repertório de células B de memória após a infecção.

Com as células de memória destruídas, o corpo perde a capacidade de defesa contra patologias contra as quais a criança já havia adquirido proteção. Por outro lado, a imunidade ao sarampo se torna robusta.

"Depois que a pessoa melhora do sarampo, o número de células de defesa até pode voltar ao normal relativamente rápido, mas isso não significa que a biblioteca voltou a ter todos os livros", explica Jessica Fernandes Ramos, membro da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e médica do Núcleo de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês.

"Então organismo passa a produzir mais células que não sabem reconhecer muito bem os outros microrganismos que já entrou em contato, mas sabe reconhecer o do sarampo e a pessoa fica protegida. Esse é o paradoxo do sarampo e é por isso que usamos essa expressão", diz.

A especialista da SBI afirma que o fenômeno não é exclusivo das crianças e também pode ocorrer em adultos, porque eles também possuem as células de memória suscetíveis aos vírus com o mesmo receptor.

Ainda não há dados exatos sobre a intensidade e a duração da amnésia imunológica em adultos, nem sabemos o quanto ela difere daquela observada em crianças.

Até o momento, parte do que se sabe sobre os efeitos em adultos vem de estudos realizados com gestantes que contraíram sarampo e apresentaram perda de anticorpos.

Segundo Ramos, um protocolo de pesquisa internacional já está em andamento no continente africano para investigar a amnésia imune especificamente em adultos.

Contudo, devido ao recente aumento de casos da doença nos Estados Unidos, na Europa e no estado de São Paulo, é provável que dados de surtos locais tragam respostas — inclusive com estatísticas brasileiras —antes mesmo da conclusão do estudo na África.

Até esta quarta-feira (19), o estado de São Paulo tinha 23 casos confirmados da doença em 2026 —20 na capital, dois em São Bernardo do Campo, no ABC, e um em Guarulhos, na região metropolitana. A vacinação é a melhor forma de se proteger contra a doença.

QUEM DEVE SE VACINAR CONTRA O SARAMPO

- Em São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos

Dose zero: crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias.

Qualquer pessoa de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal (a partir de 3 de agosto).

- Rotina - demais municípios brasileiros

O esquema vacinal recomendado pelo Ministério da Saúde prevê duas doses: a primeira aos 12 meses, com a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), e a segunda aos 15 meses, com a tetraviral (que inclui varicela).

Pessoas de 1 a 29 anos devem ter duas doses da tríplice viral, enquanto adultos de 30 a 59 anos devem ter pelo menos uma. Profissionais de saúde precisam comprovar duas doses independentemente da idade.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Saúde de Maceió reforça importância do combate ao mosquito Aedes aegypti Dia D de vacinação será realizado neste sábado em todo o país Entenda o que é o Transtorno de Excitação Genital Persistente: sintomas e quando buscar ajuda Maceió realiza “Dia D” de Multivacinação no próximo sábado (22)