Frangofilia: saiba o que é o episódio psicótico apresentado pelo procurador que espancou a chefe

Publicado em 17/04/2023, às 20h29
G1 -

G1

Além do quadro psiquiátrico compatível com esquizofrenia paranoide, o procurador que agrediu a chefe durante expediente na Prefeitura de Registro, no interior de São Paulo, apresenta episódios psicóticos de frangofilia, segundo laudo do Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo (IMESC). O g1 conversou com especialistas que explicaram que o termo remete ao comportamento de quebrar compulsivamente as coisas, e também está relacionado a outros transtornos.

LEIA TAMBÉM

O médico psiquiatra Fellipe Miranda Leal disse ao g1 que, embora ações como quebrar ou estraçalhar objetos, sobretudo roupas, travesseiros ou colchões possam ser consideradas frangofilia, esta "não é uma doença, tampouco é uma apresentação específica de algum diagnóstico".

"Trata-se apenas da descrição de uma manifestação que, em geral, reflete um importante descontrole emocional".

Em 15 de novembro do ano passado, Demétrius de Oliveira Macedo, de 35 anos, pegou o estrado da cama e bateu contra a porta da cela. Como consequência, quebrou o vidro usado para a vigilância. No dia seguinte, em um novo momento de fúria, o procurador quebrou a pia e o prato de alimentação dentro da cela de isolamento na Penitenciária de Tremembé.

Leal afirmou que é comum observar esse comportamento em transtornos de personalidade, principalmente naqueles em que há um padrão mais acentuado de impulsividade, como boderline e antissocial.

"Nestes casos, de transtornos de personalidade, além de frangofilia também é possível que ocorram episódios de autoagressividade e heteroagressividade [conduta agressiva ao mundo externo, contra outras pessoas ou elementos]".

Frangofilia em outros transtornos

Segundo o psiquiatra, é possível observar ações semelhantes à frangofilia em outros transtornos mentais, como a esquizofrenia. "Mas cabe sublinhar que comportamento tipo frangofílico não é específico da esquizofrenia, ao contrário, é mais comum ser observado em outros transtornos".

O especialista afirmou, ainda, que a esquizofrenia é uma doença complexa, de evolução bem característica e que envolve multiplicidade de sintomas.

O psicólogo e professor de Saúde Coletiva do Curso de Medicina da Unimes, Paulo Muniz, reforçou que a frangofilia não é uma doença e sim um sintoma que, geralmente, está associado à algum transtorno mental, como bipolaridade e esquizofrenia e, assim como Leal, não descarta a ocorrência de frangofilia em outros transtornos de personalidade e de humor.

De acordo com ele, por tratar-se de um impulso, a pessoa não consegue controlá-lo. "Vem como um impulso súbito de destruir coisas que estão próximas à pessoa que tem esse problema, quebrando objetos, rasgando documentos, destruindo, estraçalhando coisas que estão ao redor de si próprio ou nela mesma. [...] ele é praticamente involuntário, a pessoa não consegue dar conta de filtrar essa vontade, esse desejo que vem para destruir as coisas ao redor".

Muniz explicou, ainda, que a frangofilia também pode ocorrer em demências, como Alzheimer. "É muito comum que a pessoa idosa com Alzheimer tenha impulsos também de violência e passe a apresentar a frangofilia, mas comumente [ocorre] na esquizofrenia e no transtorno bipolar".

Esquizofrenia paranoide

O laudo do IMESC concluiu que Demétrius apresenta quadro psiquiátrico compatível com esquizofrenia paranoide. Um parecer elaborado pelo psiquiatra forense Guido Palomba já havia apontado o mesmo.

Demétrius foi internado em 27 de fevereiro com "comportamento de personalidade narcisista e combativo", sem previsão de alta médica, segundo um relatório médico da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP-SP). Antes da internação, ele estava preso na Penitenciária de Taiúva (SP).

Com base no documento obtido pelo g1, além do quadro de esquizofrenia paranoide, os peritos do IMESC apontaram que o procurador apresenta capacidade de entendimento prejudicada e capacidade de determinação abolida à época do crime e é inimputável [incapaz de entender o caráter ilícito do fato].

Os profissionais recomendaram tratamento em regime de internação pelo período mínimo de 3 anos. Para os peritos, apesar de existir o suporte familiar, mesmo em contexto protegido e sob tratamento médico adequado, Demétrius ainda não apresentou remissão dos sintomas, mantém episódios psicóticos, de alteração do comportamento e de frangofilia [Impulso de quebrar objetos].

De acordo com os peritos, a esquizofrenia paranoide e os sintomas apresentados por Demétrius prejudicam a capacidade crítica e o pragmatismo dele. "Tais sintomas que estavam presentes à época dos fatos permitem concluir que a capacidade de entendimento encontrava-se prejudicada, enquanto a capacidade de determinação restava abolida", consta do laudo.

Relembre o caso

A procuradora-geral do município de Registro foi agredida pelo colega dentro da prefeitura, onde os dois trabalhavam. Gabriela Samadello Monteiro de Barro ficou com o rosto ensanguentado após levar socos e pontapés.

A ação foi filmada por outra funcionária do setor. As imagens mostram o também procurador Demétrius Oliveira Macedo espancando a vítima. Ele foi preso dias depois, na manhã de 23 de junho, em São Paulo. A Justiça havia determinado a detenção dele no dia anterior.

Durante o ato criminoso, ele xinga a vítima diversas vezes e, inclusive, empurra demais profissionais que tentam impedir os golpes.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Vigilância Sanitária apreende 300 kg de produtos impróprios para consumo no Jacintinho Laboratório com irregularidades é interditado pela Vigilância no Tabuleiro do Martins O perigo da farmacinha caseira: mistura de medicamentos comuns podem causar falência renal Lentes de contato vestíveis tratam depressão sem remédios ou cirurgia