Grupo de Vorcaro acessou dados do MPF sobre Master e BRB: 'Quero tudo', diz mensagem obtida em investigação

Publicado em 11/09/2026, às 08h38
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Laura Intrieri, Diego Felix, Joana Cunha e Felipe Machado Maia/Folhapress

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Um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro obteve informações de processos sigilosos por meio de consultas registradas nos logins funcionais de servidores do MPF (Ministério Público Federal), segundo a Polícia Federal. Em um dos episódios descritos pelos investigadores, um documento atribuído ao órgão foi usado para obter informações sobre quem havia contratado um helicóptero que teria sobrevoado a casa do ex-banqueiro na Bahia.

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As informações constam de relatório da PF enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens reproduzidas no documento mostram que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário e identificado como Felipe Mourão nas conversas, encaminhava a Vorcaro resultados de consultas a sistemas internos.

De acordo com as investigações, Sicário integrava o núcleo conhecido como A Turma, suposta milícia que que servia para monitorar e intimidar pessoas consideradas adversárias ou ligadas às apurações sobre o banco. Mourão se enforcou na cela da Superintendência da PF de Minas Gerais em 4 de março, logo após ser preso durante operação, e teve a morte confirmada dois dias depois.

A PF relata que Sicário recebia R$ 1 milhão por mês pelo trabalho, que incluia acesso de informações sigilosas, coação e fabricação de dossiês.
Segundo a investigação, Mourão oferecia a Vorcaro a possibilidade de pesquisar pessoas e empresas e compartilhava documentos relativos a investigações, inclusive procedimentos protegidos por sigilo.

Em junho de 2024, ele enviou uma lista com nomes de pessoas e empresas e afirmou que Vorcaro poderia acrescentar outros "pra puxar os sigilosos", mostram mensagens que constam do relatório da PF. Em outra conversa, perguntou quais documentos o então banqueiro desejava receber. "Todos, obviamente", respondeu Vorcaro.

No dia seguinte, Mourão disse que poderia buscar outras informações porque estava com "acesso total e ilimitado" aos sistemas do MPF, mas afirmou não saber até quando as consultas estariam disponíveis.

Parte dos documentos encaminhados estava registrada no login funcional de uma servidora do MPF. O relatório aponta a utilização recorrente dessa conta em consultas a processos, inclusive sigilosos.

A PF também identificou uma busca feita em 23 de julho de 2024 com o CPF de Vorcaro. A consulta localizou 15 procedimentos relacionados ao ex-banqueiro, dos quais 11 eram sigilosos, e estava registrada no login funcional de outro servidor.

Os investigadores afirmam que ainda é necessário esclarecer se as consultas foram realizadas pelos próprios servidores, se as credenciais foram cedidas ou se os acessos ocorreram sem o conhecimento deles. O relatório não atribui participação consciente aos titulares das contas. No caso de um deles, o relatório levanta suspeita de tentativa de ocultar a identidade do servidor e diz que chamou a atenção o fato de o nome do responsável pela consulta aparecer apenas na segunda página do documento.

Segundo o relatório, em julho de 2025 Mourão teria compartilhado nova consulta feita nos sistemas do MPF utilizando as palavras "BRB AND MASTER". De acordo com a investigação, Vorcaro responde de imediato: "Quero tudo. Atenção total". Em seguida, Mourão responde: "Sim! Então vou mandar puxar geral. Ok".

O episódio do helicóptero ocorreu em janeiro de 2025. No dia 13 daquele mês, Vorcaro enviou a Mourão uma imagem da aeronave e afirmou que ela havia sobrevoado sua casa na Bahia durante 40 minutos na sexta-feira anterior, dia 10.

"Fazendo todo perímetro", escreveu o banqueiro, que disse pretender apresentar uma queixa formal à polícia.

Mourão respondeu que seria necessário descobrir quem havia alugado o helicóptero e quem estava a bordo, segundo a investigação. "E pedir para a turma ir em cima", acrescentou.

Às 14h41 do mesmo dia, Mourão encaminhou um arquivo e escreveu: "Ofício está pronto para encaminhar mediante sua autorização".

Com brasão e identificação do MPF, o documento era classificado como "URGENTE/SIGILOSO" e dirigido a uma empresa de serviços aéreos.

O pedido abrangia a identificação do contratante, os itinerários, os horários de decolagem e pouso e a lista de passageiros, se disponível. Solicitava ainda que o contratante não fosse informado, sob a justificativa de que o sigilo seria necessário ao êxito das investigações.

O documento não tinha assinatura digital nem manuscrita. Para a PF, a ausência causa estranheza, especialmente porque o ofício estava classificado como urgente e sigiloso.

Em 16 de janeiro, Mourão encaminhou a Vorcaro uma resposta atribuída à empresa de serviços aéreos. O texto citava o número do ofício e informava que a requisição havia sido recebida no dia 14.

A empresa descrevia um primeiro voo destinado à verificação de equipamentos, sem passageiros, e informava o contratante e os itinerários de outro voo. Depois de encaminhar a resposta, Mourão perguntou a Vorcaro se seria necessário consultar os nomes dos passageiros.

Para a PF, a resposta da empresa indica que o ofício chegou a ser enviado. As páginas analisadas, porém, não apresentam confirmação do MPF sobre a autenticidade da requisição nem mostram autorização expressa de Vorcaro para que Mourão a encaminhasse.

Na conclusão do relatório, a PF afirma que o grupo ligado ao ex-banqueiro acessava de forma recorrente e irregular procedimentos sigilosos em andamento no MPF e em outros órgãos.

Segundo os investigadores, as informações eram obtidas por meio de logins funcionais de terceiros, extração de documentos e consultas não autorizadas a sistemas internos.

A publicação dos documentos foi determinada por pelo ministro André Mendonça a pedido de Edson Fachin, presidente do STF, em meio à grave crise institucional na Corte. Mendonça retirou o sigilo de 14 procedimentos, além do principal, que deu origem aos demais.

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