Flávio Gomes de Barros
Gostem ou não os governistas, dois fatos relacionados à última eleição presidencial são incontestáveis.
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Um deles foi a comemoração, no interior de presídios brasileiros, da vitória de Lula (PT) para retornar pela terceira vez ao Palácio do Planalto.
O outro foi a forma respeitosa como o então Ministro da Justiça, Flávio Dino - hoje ministro do Supremo Tribunal Federal -, foi recebido por traficantes numa favela do Rio de Janeiro.
Ambas as situações evidenciam a tolerância do atual governo com lideranças criminosas.
A classificação, pelos Estados Unidos, das facções criminosas Comando Vermelho e PCC cimo grupos terroristas deixou indignados o governo brasileiro e seus simpatizantes, mas trouxe à tona uma realidade: ao invés de se indignar com a interferência norte-americana, é preciso uma providência concreta contra o chamado crime organizado no Brasil.
Começar agindo contra tais facções seria o primeiro passo, como argumenta, no portal IG, o empresário Nuno Vasconcellos:
"Se ainda houvesse dúvidas sobre a importância da viagem do senador e pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), aos Estados Unidos na semana passada, elas desapareceram na tarde de quinta-feira (28). A viagem foi importantíssima — e a prova disso está na reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de seus apoiadores à principal novidade que o filho mais velho de Jair Bolsonaro trouxe na bagagem. Há muito tempo, a esquerda não tinha uma reação tão irada e uníssona diante de um fato político como teve ao ouvir a notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquadrou como terroristas as facções do crime organizado Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
A notícia sequer foi dada por Flávio. Ela partiu do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, por meio de uma postagem em suas redes sociais. Conhecido pelas posições rigorosas que defende no combate aos cartéis de drogas e ao crime transnacional, Rubio nunca fez segredo da intenção de classificar as duas facções brasileiras como 'Organizações Terroristas Internacionais'.
A Casa Branca já considerava tomar essa decisão desde fevereiro de 2025, quando a lei americana passou a admitir essa classificação. Só não tinha feito isso antes devido à resistência do governo brasileiro a essa medida. Na avaliação da diplomacia americana, a relação entre os dois países já acumulava desgastes suficientes para ser piorada por mais um contencioso.
Mesmo assim, a possibilidade de endurecer o jogo contra as facções nunca deixou de estar na mesa, e a portaria com a decisão de Rubio já estava pronta muito antes de voltar à cena com a visita de Fávio a Washington. Duas semanas atrás, quando esteve em Washington, o presidente Lula mencionou o assunto na reunião com o presidente Trump e insistiu na toada de que o CV e o PCC não podem ser considerados terroristas porque não se movem por inspiração política nem ideológica.
Alguém que não deve ter lido a lei americana com a devida atenção insiste na ideia de que a classificação do CV e do PCC como terroristas abriria para o governo americano a possibilidade de intervenção no Brasil. E que, no dia seguinte à assinatura da portaria com esse enquadramento, um porta-aviões carregado de fuzileiros fundearia na Baía de Guanabara e invadiria o país. Desde que essa hipótese sem qualquer fundamento passou a ser considerada, o governo brasileiro vem insistindo na ideia de que as facções não são organizações terroristas. São 'apenas' megaquadrilhas que visam o lucro.
É mais ou menos como aquele animal da anedota. Ele late como cachorro, coça as orelhas como cachorro, abana o rabo como cachorro, mas não quer ser chamado de cachorro. A visão sobre o PCC e o CV é mais ou menos a mesma. Os bandos têm a mesma organização paramilitar das células terroristas. Torturam e mantêm cidadãos inocentes sob ameaça permanente, como fazem os terroristas. Cometem atentados e praticam extorsão, exatamente como os terroristas. Mas não podem ser chamados de terroristas porque não têm alinhamento político nem rezam por qualquer credo religioso.
Na semana passada, Flávio foi recebido por Trump no Salão Oval. Estava acompanhado por seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e pelo jornalista Paulo Figueiredo. A dupla vive nos Estados Unidos e não esconde de ninguém que move uma cruzada contra o governo e o Judiciário brasileiro. Depois de sair do encontro no Salão Oval, Flávio disse ter seguido na direção oposta à de Lula.
Por sua própria versão, ele teria pedido 'enfaticamente' a Trump que fizesse aquilo que o presidente do Brasil tinha recomendado que não fizesse: desse às megafacções de origem brasileira — que hoje operam no mundo inteiro — o tratamento mais rigoroso que a legislação americana prevê para o crime organizado. A reunião com o presidente foi o ponto alto do encontro, mas não foi o único...
Aqui é preciso uma pausa para pôr ordem no raciocínio: os desdobramentos da viagem devem ser vistos sob três aspectos diferentes e nenhum deles é mais importante do que o outro. O primeiro diz respeito ao lado puramente político e à capacidade de articulação de um grupo que, por mais que os adversários insistam em tratar com desdém, vem ganhando projeção e se firmando como uma força importante.
O segundo aspecto diz respeito às consequências eleitorais da decisão do governo americano classificar o CV e o PCC como organizações terroristas. Ele precisa considerar a ação de Flávio e de seu grupo. Mas precisa levar em conta, também, a reação inflamada do presidente Lula e do PT ao anúncio de que, a partir de agora, as organizações brasileiras estarão sujeitas ao rigor da lei antiterrorista americana.
É preciso, por último, ver a decisão por seus aspectos técnicos e pelas consequências que o enquadramento das organizações como terroristas pode ter sobre o combate necessário, embora tardio, ao crime organizado. Já passou da hora desse combate ser levado a sério. CV e PCC são dois tumores que correm as entranhas da sociedade brasileira e, diante da omissão ou até mesmo da conivência do Estado, se transformou em um dos mais graves problemas que o país tem para resolver..."
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