"Inferno de Dante" representou impacto de asteroide? O que diz este estudo

Publicado em 12/05/2026, às 22h06
- Reprodução/Ilustração de Sandro Botticelli de 1480/PxHere

Galileu

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Uma das interpretações do conceito de "inferno" mais famosas da história é a que Dante Alighieri fez na sua obra Divina Comédia. Escrita no século 14, a primeira parte da obra apresenta aos leitores a a interpretação do autor sobre o abismo eterno. Acontece que uma pesquisa publicada em 14 de março na European Geosciences Union (EGU) sugere que a obra vai além da literatura, e pode fazer referência a um evento astronômico.

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Ao reavaliar o poema sob a ótica da meteorítica moderna, Timothy Burbery, da Universidade Marshall, nos Estados Unidos, propôs que Alighieri imaginou Satanás como um “causador de impacto de alta velocidade” que, ao atingir a superfície terrestre, abriu caminho até o centro do planeta.

Para a equipe de pesquisadores, a escalada tomada pelos poemas de Alighieri pode ser a representação de um experimento mental em física de impacto, sendo este baseado na descrição da colisão planetária que levou ao fim dos dinossauros.

Não existem evidências concretas, mas Burberry contou que as descrições de Alighieri foram comparadas com as teorias modernas de impactos de asteroides e formação de crateras. Pelas semelhanças, os pesquisadores acreditam que o poeta possa ter testemunhado um evento cósmico, ainda que este tenha sido menos impactante.

Gravura anônima/Bridgeman Images

 

Tudo nos lembra eles…

Uma hora ou outra, os dinossauros voltam ao centro das discussões científicas. Desta vez, não é muito diferente: segundo Burberry, a catástrofe imaginada pelo autor de Divina Comédia é semelhante ao impacto de Chicxulub, evento cataclísmico associado à extinção dos dinossauros. Não à toa, o impacto descrito em Inferno – primeira conjunto de poemas da obra – é retratado como poderoso o suficiente para penetrar profundamente na Terra e gerar o pico central do Monte Purgatório.

Satanás é tratado como um corpo do tamanho de um asteroide, semelhante ao objeto interestelar Oumuamua, que chega com força suficiente para desencadear um evento geológico em escala planetária. Ele também é comparado ao meteorito Hoba, uma rocha espacial de 60 toneladas que permaneceu intacta mesmo após a colisão com o planeta.

Nove círculos do Inferno

Na obra de Alighieri, o inferno assume o formato de um funil com nove camadas em direção ao centro da Terra. Cada um deles representa uma punição eterna, cujo sofrimento aumenta com a gravidade do pecado. Antes do novo estudo, essa estrutura era lida apenas a partir do seu simbolismo, mas a história agora é outra.

As nove estratificações apresentam uma descrição notavelmente precisa da morfologia concêntrica e em terraços encontrada em bacias de impacto. Alighieri mapeou, seguindo a sua intuição, a física da velocidade terminal e da ruptura da crosta terrestre. Por isso, Burberry argumenta que a realidade geológica dos meteoros foi efetivamente descoberta pelo poeta.

PxHere

 

Além disso, os cientistas observaram que Alighieri desafiou os dogmas aristotélicos, que reconheciam os corpos celestes como agentes físicos imutáveis. Agora, o que resta são outras dúvidas: quais narrativas podem conter verdades planetárias que a ciência moderna está apenas começando a desvendar?

De qualquer maneira, a obra de Alighieri com a ser um fascínio literário e, agora, ganha mais uma camada: a de ser um experimento mental geofísico que pode aprofundar a compreensão dos seus leitores sobre aspectos da meteorítica moderna.

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