Como extinção de animais gigantes há 10 mil anos causa efeitos até hoje

Publicado em 28/04/2026, às 21h16
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Por Galileu

Um estudo recente revela que a extinção de mamíferos gigantes, ocorrida entre cinco e dez mil anos atrás, alterou significativamente as teias alimentares atuais, com impactos duradouros na biodiversidade e nas relações ecológicas.

Os pesquisadores analisaram 389 locais em três continentes e descobriram que a América sofreu as maiores perdas, com mais de 75% dos mamíferos pesando acima de 45 quilos extintos, resultando em cadeias alimentares enfraquecidas.

As próximas etapas da pesquisa incluem investigar como essas extinções históricas podem aumentar a vulnerabilidade das comunidades atuais, especialmente diante da ameaça de novas extinções.

Resumo gerado por IA

Imagine, leitor, como seria o mundo se animais gigantes, como os tigres-dentes-de-sabre – com dentes de 18 centímetros –, preguiças da altura de elefantes e mamutes-lanosos com presas chegavam a mais de 3,5 metros não tivessem sido extintos? Sem os humanos no topo da cadeia alimentar, a vida em sociedade poderia ser ainda mais complexa. O fato é que apesar de não vagarem mais pela Terra, o desaparecimento desses e de outros mamíferos de grande porte continua a reverberar na vida como a conhecemos.

Publicado nesta segunda-feira (27) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), um novo estudo revela como o desaparecimento desses animais – que aconteceu entre cinco e dez mil anos atrás – remodelou as teias alimentares contemporâneas. A pesquisa também explora por que algumas mudanças serem mais acentuadas em algumas partes do mundo do que em outras.

Seu passado te condena

A causa do desaparecimento dos mamíferos gigantes ainda não é consenso. Enquanto alguns cientistas acreditam nas mudanças climáticas e nas pressões ambientais de milênios passados, outros argumentam que o motivo tenha sido a dispersão dos seres humanos da África para outros continentes, que aumentou a pressão em espécies maiores.

Seja qual for a verdadeira explicação, os cientistas não têm dúvidas sobre um aspecto: a vida e a morte desses animais deixaram marcas duradouras. Tudo porque, quando uma espécie entra em extinção, não é apenas o animal que desaparece, mas também a sua teia de relações. A falta de um único membro pode desencadear mudanças complexas, como a multiplicação sem controle das presas na falta de um predador.

Lydia Beaudrot, da Universidade Estadual de Michigan (Estados Unidos) disse, em comunicado, que a equipe de pesquisadores tinha essa hipótese há um bom tempo, mas não havia muitos dados [sobre isso]”. Então, eles desenvolveram métodos para sintetizar mais informações em escalas espaciais maiores.

Com a nova técnica, eles analisaram as relações mais recentes entre predadores e presas em 389 locais da América, da África e da Ásia. Ao todo, cerca de 440 espécies de mamíferos – incluindo ursos, lobos, elefantes e leões – foram consideradas no estudo.

De continente para continente

Chia Hsieh/Universidade Estadual de Michigan

Independente da região, as teias alimentares seguem um padrão básico: animais que comem e que, por sua vez, são comidos por outros. O que as difere é o número e os tipos de espécies que as compõem.

Mesmo conhecendo essas noções e diferenças, os pesquisadores se surpreenderam ao descobrir que as atuais teias alimentares do continente americano possuem menos presas e, logo, menos animais, do que as teias da África e da Ásia. Mas as diferenças não foram apenas mais um resultado de fatores como o clima ou a estação do ano.

Chia Hsieh, também da Universidade Estadual de Michigan, compartilhou que o grande diferencial foi, na verdade, a gravidade das extinções em cada região. Não à toa, a equipe descobriu que a América foi o continente mais afetado: a fauna da região perdeu mais de três quartos de todos os mamíferos com massa superior a 45 quilos nos últimos 50 mil anos.

O tamanho das perdas recai tanto no número de predadores quanto no de presas extintas. A porção sul do continente, por exemplo, foi habitat de cervos gigantes que, ao serem extintos, levaram ao colapso dos seus predadores, como os tigres-dente-de-sabre e os lobos-terríveis. Esse processo, segundo os cientistas, levou ao enfraquecimento da cadeia alimentar, refletido nas relações atuais entre as espécies.

Ao perceberem que “grande parte da camada inferior da cadeia alimentar foi perdida”, como dito por Hsieh, os pesquisadores compreenderam os potenciais impactos a longo prazo das espécies que, hoje, estão ameaçadas de extinção. Para Beaudrot, o próximo passo da equipe é analisar se as extinções históricas podem tornar certas comunidades mais vulneráveis ​​no futuro.

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