Nova eleição para a Presidência da República e o eleitor se vê novamente diante de uma velha polarização.
Lula ou Flávio Bolsonaro, eis a questão - e o problema.
Há um considerável contigente de eleitores que não deseja votar em nenhum deles, mas muitos dos que estão nessa situação no final das contas vai cumprir o "dever cívico" de comparecer à urna e manifestar sua opção.
Mais na base de escolher o menos ruim deles, como analisa o jornalista Marco Antônio Sabino:
"Conheço amigos que levantariam o dedo do meio para Lula. E, como tenho amigos para mais de duas mãos (graças a Deus), também conheço outros que, se pudessem, mandariam Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos só com a passagem de ida, sem "Dark Horse" para financiar a volta.
Melhor: conheço muitos, talvez a maioria, que apenas olham para o horizonte e rezam pelo futuro do país.
Talvez esse seja o retrato mais fiel do eleitor brasileiro em 2026. Não veste camisa vermelha. Nem amarela. Quem sabe branca?
Tenho a impressão de que a campanha começou discutindo candidatos quando deveria estar discutindo eleitores.
Existe um contingente enorme de brasileiros que não procura um novo presidente. Procura uma porta de saída desse duelo permanente.
Só que há um problema. Boa parte deles está convencida de que essa porta simplesmente não existe. E, por causa dessa convicção, acaba fazendo exatamente aquilo que mantém vivo o cenário que gostaria de abandonar.
Gostaria de escolher outro nome. Mas considera impossível que qualquer alternativa alcance o segundo turno.
Resultado: fortalece justamente aquilo que pretendia superar.
É um paradoxo. Talvez meio burro, mas continua sendo um paradoxo.
Desde 2018, o Brasil disputa praticamente a mesma eleição. Mudam os personagens secundários, mudam os escândalos, mudam os slogans. O roteiro, porém, permanece intacto.
Os eleitores podem continuar fiéis aos respectivos campos.
Isso não significa que estejam satisfeitos. Muito pelo contrário —o desgaste cresce.
Não necessariamente da esquerda, nem da direita. Mas da obrigação de decidir sempre entre os mesmos antagonistas.
É aqui que entra um conceito interessante da sociologia.
Em 1948, Robert K. Merton descreveu aquilo que chamou de profecia autorrealizável. As pessoas acreditam que determinado fato ocorrerá e, justamente por acreditarem nisso, passam a agir de maneira a produzi-lo.
É exatamente isso que parece mover a política brasileira.
Quase todos dão como certo que a decisão ficará entre Lula e Flávio Bolsonaro. Como tratam esse desfecho como inevitável, votam desde já como se ele estivesse escrito. E acabam escrevendo a própria profecia.
A polarização deixou de ser apenas uma fotografia envelhecida do país. Transformou-se numa engrenagem que produz continuamente a si mesma.
O raciocínio é quase matemático. Lula e o bolsonarismo lideram as pesquisas. Os partidos concentram recursos nesses dois polos. A imprensa dedica a maior parte da cobertura a esse confronto. Os debates gravitam ao redor dele.
O eleitor conclui que o cardápio se resume a duas opções, e essa conclusão reforça ainda mais o domínio de ambas. Um círculo quase perfeito.
Existe espaço para uma candidatura diferente? Acredito que sim.
Talvez o problema não seja falta de demanda, mas falta de oferta.
Milhões de brasileiros parecem desejar uma alternativa. O que ainda não surgiu foi alguém capaz de convencê-los de que essa alternativa tem condições reais de vencer.
É aí que aparecem os candidatos que tentam ocupar esse espaço.
Caiado tem realizações para apresentar, mas continua tropeçando na estratégia, no discurso e nas alianças.
Romeu Zema lembra um pouco Augusto Matraga antes da travessia. Continua olhando para Minas quando precisa enxergar o Brasil. Parece não ter percebido que, para disputar a Presidência, é preciso atravessar as fronteiras do próprio sertão.
Renan Santos —com o perdão do trocadilho— ainda tem como principal missão viabilizar o Missão.
Nenhum deles conseguiu romper a barreira mais difícil desta disputa: a psicológica. Porque o grande embate talvez nem seja por votos, seja por expectativa.
No dia em que um candidato convencer o eleitor de que pode realmente chegar ao segundo turno, muita gente abandonará o voto útil e simplesmente votará. É aí que a eleição poderá mudar de rumo.
Talvez exista hoje um partido maior do que PT e PL. O partido invisível dos brasileiros que já não querem escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O curioso é que seus filiados ainda não sabem que pertencem à mesma legenda. Enquanto cada um imaginar que está sozinho, continuará repetindo o comportamento de sempre.
No dia em que descobrir que milhões compartilham exatamente o mesmo desconforto, a lógica do voto útil poderá desmoronar. Talvez seja nesse instante que a verdadeira campanha comece.
Ou talvez meus amigos continuem apenas rezando. E fazendo promessa."