Contextualizando

Análise: "O Brasil não perdeu para a Noruega. Perdeu para a realidade."

Em 7 de Julho de 2026 às 18:00

Se o desalento afetava os brasileiros por causa da derrota da Seleção para a Noruega, deste hoje o sentimento se transforma em inveja pela estupenda reação da Argentina sobre o Egito, na já memorável vitória de 3x2.

Essa é tônica do comentário de Ricardo Kertzman:

"Quem não faz leva'. 'Todo grande time começa por um grande goleiro'. 'Quem tem um matador tem tudo'. 'Copa do Mundo é decidida no detalhe'. 'O lado emocional pesa'. Todos estes clichês de mesa-redonda, repetidos há décadas por comentaristas, boleiros e palpiteiros de boteco explicam parte da eliminação do Brasil para a Noruega. Mas apenas parte, porque o principal motivo é cruel: a Seleção Brasileira virou uma seleção comum. Simples assim. Triste assim.

Passamos décadas acreditando que a amarelinha entrava em campo com um gol de vantagem. E entrava mesmo. Quando tinha Pelé, Garrincha, Zico, Reinaldo, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e outros gênios que transformavam qualquer jogo complicado e placar adverso em vitórias inesquecíveis. E mesmo nas derrotas, como em 1982 e em 2006, com times superiores aos adversários, isso ficava patente. Hoje, temos bons jogadores, mas não temos esses caras.

Vini Jr. é craque? Muito. Desequilibra? Opa! Decide jogos? Na Espanha, sim. Mas colocar o crush da Virgínia na mesma prateleira de um Romário em 1994 ou de um Ronaldo em 2002 é confundir fama momentânea com lugar na prateleira de cima da história do futebol. Romário e Ronaldo eram fatais! Chegavam na copa e qualquer adversário, por mais forte que fosse, sabia que, em algum momento, a conta chegaria. Hoje, essa conta chega para nós.

Outras seleções entram em campo esperando que Messi, Cristiano Ronaldo, Mbappé, Harry Kane ou Haaland resolvam. E eles resolvem. Mas o Brasil tenta se convencer de que o Endrick será o 'cara' da Copa. Ou que o menino Ney ainda tem lenha pra queimar. Na boa, uma seleção que depende de Fabinho, Rayan, Martinelli, Douglas Santos e outros esforçados não assusta ninguém. Principalmente europeu com um goleiro e um atacante como a 'modesta' Noruega.

O futebol mudou? Claro. Faz tempo. Força física, esquema tático e equilíbrio emocional superam, às vezes, craques geniais. Para nosso azar, não temos nem uma coisa nem outra. Aquele outro jargão, 'Não existe mais time bobo', não surgiu do nada. E essa frase também virou uma espécie de muleta para esconder outra realidade: nós ficamos menos especiais. Ou melhor, comuns. Marrocos nos mostrou isso. Japão nos mostrou isso. A Noruega confirmou.

Não temos um talento verdadeiramente 'fora da curva'. Muito menos a organização que os europeus têm. Ao contrário. O futebol brasileiro continua entregue à baixa qualificação e à cartolagem corrupta. Na CBF, hoje, manda um ministro do STF. Claro que não daria certo. Inclusive, talvez seja nossa maior derrota.

O mundo já não entra em campo com medo da Seleção, e a FIFA tem seus próprios 'capas pretas'. Ou seja, nem o tapetão irá nos salvar.”

Gostou? Compartilhe