Crescer
A americana Marissa Layne, mãe de um menino com menos de 10 anos e de uma bebê de 1 ano, acreditava que estava protegendo a privacidade dos filhos ao compartilhar fotos deles apenas com um pequeno grupo de familiares e amigos próximos em um perfil privado no Facebook. Mas a medida não foi suficiente para impedir que imagens da filha caçula fossem roubadas e usadas indevidamente por alguém em quem ela confiava plenamente.
LEIA TAMBÉM
"Minha melhor amiga há 15 anos sequestrou minha filha digitalmente", contou a dona de casa ao New York Post.
Marissa só descobriu o que estava acontecendo depois que outra mãe a alertou. Segundo ela, a ex-amiga, de apenas 25 anos e identificada pelo pseudônimo "Lucy", fingia para colegas de trabalho e chefes que era a mãe da bebê. Além de inventar toda uma história sobre a gravidez e o parto, ela também enviava para desconhecidos fotos da menina usando pouquíssima roupa.
"Foi uma violação enorme. É assustador. Isso mudou completamente a forma como eu enxergo o mundo", disse Marissa, que passou a tomar medicamentos para ansiedade depois de descobrir a farsa, em março.
"Minha família e eu deixamos de nos sentir seguros. Passamos de noites tranquilas para noites sem dormir. De nos sentirmos confortáveis no nosso próprio mundo para termos a sensação de estarmos completamente expostos", desabafou.
'Ela estava com meus filhos o tempo todo, mas era especialmente apaixonada pela minha filha'
Infelizmente, Marissa conhecia muito bem a pessoa responsável pelo chamado "sequestro digital" da filha. Enquanto enfrentava dificuldades para engravidar, Lucy ficou ao seu lado durante todo o processo. Quando finalmente conseguiu engravidar e deu à luz a menina, em 2025, passou a compartilhar fotos e vídeos da bebê nas redes sociais com familiares e amigos próximos.
Mas Lucy, que Marissa considerava sua melhor amiga desde os 11 anos de idade, tinha muito mais do que acesso às imagens publicadas na internet. "Ela estava com meus filhos o tempo todo, mas era especialmente apaixonada pela minha filha", contou Marissa. Depois de dar à luz por cesariana e enfrentar uma grave infecção abdominal, ela passou a contar com a ajuda da amiga, que acabou assumindo, na prática, o papel de uma "segunda mãe".
"Ela trocava fraldas, dava mamadeira, me levava às consultas médicas, carregava o bebê-conforto quando meu marido, Shawn, não podia e tirava muitas fotos da minha filha", relembrou.
Marissa contou ainda que Lucy costumava publicar imagens da bebê em seu próprio Facebook com legendas como "Minha bebezinha". Quando não estava com a criança, enviava mensagens perguntando: "Estou com saudades da minha menininha" ou "Como está o meu bebê?". "Ela nunca dizia que sentia saudades de mim", acrescentou.
"Eu sempre a defendia"
Apesar dos sinais estranhos, Marissa nunca desconfiou das atitudes de Lucy — nem mesmo quando o marido, Shawn, e a avó alertaram que o comportamento da amiga era exagerado. "Eu sempre a defendia. Ela era minha melhor amiga, quase como uma tia para os meus filhos", contou.
Tudo mudou no início deste ano, quando ela recebeu uma mensagem inesperada no Facebook. "Uma mulher de uma cidade vizinha me escreveu dizendo: 'De mãe para mãe, achei que você deveria saber que sua amiga está dizendo que é a mãe da sua filha'", relembrou Marissa.
Sem pensar duas vezes, ela fez uma captura de tela da conversa e enviou a mensagem para Lucy. A amiga respondeu dizendo que a autora da denúncia era uma colega de trabalho "maluca". "Lucy me ligou repetindo: 'Ela é louca. Bloqueia ela! Bloqueia!'", recordou Marissa.
Em vez de seguir o conselho da amiga, Marissa continuou conversando com a mulher que havia feito a denúncia. Foi então que descobriu detalhes ainda mais perturbadores da farsa.
"A coisa mais invasiva e absurda foi ela ter inventado toda uma história sobre o nascimento da minha filha", contou Marissa, que enfrentou um trabalho de parto longo e difícil. "Ela dizia que teve um parto normal, sem anestesia e com pouca dor. A realidade foi completamente diferente da minha experiência."
Após descobrir o que estava acontecendo, Marissa procurou o departamento do xerife de seu condado. Um policial foi enviado à casa de Lucy e determinou que ela apagasse todas as fotos, vídeos e publicações relacionadas à bebê. Apesar disso, Marissa optou por não registrar uma queixa criminal contra a ex-amiga.
'Queria ter pensado mais como mãe do que como melhor amiga'
Desde então, Marissa rompeu definitivamente qualquer contato com Lucy. "Isso é algo que eu nunca vou conseguir perdoar", afirmou. Ela admite, no entanto, que hoje também se culpa, em parte, por não ter percebido antes os sinais de que havia algo errado. "Gostaria de ter prestado mais atenção ao comportamento dela e de não tê-la enxergado através de uma lente cor-de-rosa", desabafou. "Queria ter pensado mais como mãe do que como melhor amiga."
Marissa diz que também se arrepende de não ter ouvido seus instintos. "Eu deveria ter confiado mais no meu lado protetor, no meu instinto materno. E gostaria de nunca ter publicado fotos dos meus filhos nas redes sociais."
Segundo ela, acreditava que as crianças estavam protegidas porque seu perfil no Facebook era privado e acessível apenas a pessoas conhecidas. "Eu era muito ingênua em relação à segurança na internet. Achava que, se meu Facebook era privado e eu conhecia quem estava na minha lista de amigos, meus filhos estariam seguros. Mas não é assim", lamentou.
Ainda tentando superar tudo o que aconteceu, Marissa diz que não compartilha mais momentos dos filhos no Facebook. Ela conta que também reduziu muito o contato com pessoas fora do círculo mais próximo da família. Segundo ela, a experiência do "sequestro digital" deixou marcas profundas que ainda não conseguiu superar.
"Não crie uma vida falsa usando o filho de outra pessoa, uma criança que significa tudo para os pais dela", pediu, dirigindo-se a pessoas que possam agir como Lucy. "Por favor, não provoquem esse tipo de dor em outra mãe."
O que é "sequestro digital"?
A atitude de Lucy é chamada de "sequestro digital", que acontece quando alguém rouba fotos de crianças publicadas nas redes sociais e as utiliza de forma indevida para benefício próprio. Considerada uma forma de perseguição virtual, essa prática faz parte de um grupo de crimes cibernéticos que afeta cerca de 7,5 milhões de pessoas por ano. Segundo dados de 2026, em 67% dos casos, o autor é alguém conhecido da vítima.
Os criminosos podem simplesmente repostar imagens de crianças fingindo que elas são seus filhos e criando uma vida fictícia nas redes sociais, mas também podem cometer crimes ainda mais graves, como vender essas fotos na dark web. Em todos os casos, o uso indevido da imagem e da identidade de uma criança aumenta significativamente os riscos à sua segurança.
A gravidade do problema é refletida nos números do National Center for Missing & Exploited Children (NCMEC). Em 2025, a organização recebeu mais de 21,3 milhões de denúncias e auxiliou as autoridades em 53 mil investigações relacionadas a crimes virtuais contra crianças, incluindo pornografia infantil, aliciamento on-line e uso indevido de imagens de menores na internet.
LEIA MAIS