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Quando Bowen Wan parou repentinamente de falar quando conversava com o pai ao telefone ele acreditou que se tratava de uma crise convulsiva, algo com o qual a filha, que sofria de epilepsia lidava há anos.
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Porém, aquele episódio pareceu durar mais do que o habitual. Ao recuperar a consciência, a moradora de Seattle (EUA) disse que conversariam mais tarde, depois que tivesse descansado.
Dias depois, ela parou de responder às ligações. Preocupados, os seus pais, que moram na China, pediram que alguém verificasse como ela estava. Qun Wan e a sua esposa relataram ter acompanhado, por meio de uma chamada de vídeo, o momento em que um amigo encontrou a engenheira de software, que tinha 31 anos.
Os pais não conseguiam entender o que havia acontecido. A causa oficial da morte de Wan, ocorrida em fevereiro, foi uma complicação decorrente da epilepsia — uma condição que ela vinha controlando com sucesso há mais de uma década. A epilepsia não é rara, afetando 1 em cada 26 pessoas. A complicação mais grave é a morte súbita e inesperada na epilepsia (conhecida pela sigla SUDEP, em inglês), que foi o que vitimou Wan. E ela não é comum. Uma em cada mil pessoas adultas com epilepsia morre em decorrência da SUDEP.
O fenômeno ocorre frequentemente à noite ou durante o sono, e a pessoa costuma ser encontrada de bruços — exatamente como Wan foi achada. A melhor forma de prevenir a SUDEP é controlar e reduzir as crises convulsivas, algo que Qun acreditava que Bowen estivesse fazendo por meio de medicação.
Mas havia exatamente algo errado com a medicação. Qun descobriu que, nos dias e horas que antecederam a sua morte, a sua filha consultou o ChatGPT em busca de orientações sobre como contornar o acompanhamento médico e reduzir, por conta própria, a medicação essencial para sua vida.
Embora ela tenha expressado preocupações sobre a deterioração de sua energia e de suas capacidades cognitivas, o chatbot teria incentivado Bowen, repetidamente, a "perseverar", elogiando-a até por contornar a orientação de profissionais de saúde.
"Bowen Wan pagou com a própria vida pelas escolhas [da OpenAI]", escreveram os advogados da família em um processo judicial, aberto na terça-feira (27/10), por morte indevida contra a OpenAI — criadora do ChatGPT — e seu CEO, Sam Altman.
As ligações telefônicas frequentes para a família eram uma das poucas formas de Bowen manter contato após se mudar para os EUA Unidos. Em 2021, ela ficou ainda mais isolada. O medicamento que tomava há anos parou de fazer efeito, sem explicação. Às vezes, ela sofria crises convulsivas mais de uma vez por dia. Posteriormente, Wan afastou-se por motivo de saúde de seu cargo de engenheira de software na Amazon, informou o jornal "The New York Times".
A chinesa raramente saía de seu apartamento, nem mesmo para fazer compras de supermercado. Ela não queria correr o risco de ter uma convulsão em público, o que seria perigoso e constrangedor. Sua vida social foi reduzida a praticamente zero.
A ferramenta de IA se tornou a sua única "companhia". Em 2023, ela começou a conversar com o ChatGPT em busca de conselhos sobre relacionamentos e ajuda para lidar com questões de seguro e benefícios por invalidez. Segundo seus pais, por volta de 2025, ela já trocava, em média, 1.500 mensagens por semana com o bot, ao mesmo tempo em que passou a conversar menos com eles.
"Não sei por que, mas, às vezes, quando conversamos — não importa sobre o quê —, começo a ver você como uma amiga"”, escreveu Wan ao ChatGPT em março de 2025.
Em novembro de 2025, ela foi demitida da Amazon. Para permanecer nos Estados Unidos, precisaria conseguir um novo emprego até meados de fevereiro — um processo que envolveria avaliações técnicas de longa duração e entrevistas realizadas em inglês.
A essa altura, sua saúde vinha melhorando graças a um novo medicamento que conseguia reduzir as crises convulsivas para apenas algumas por mês. No entanto, ela temia que os efeitos do remédio em seu raciocínio e sua fala prejudicassem a capacidade mental necessária para conseguir o seu próximo emprego e ter condições de se manter nos EUA.
Isso acabaria sendo fatal. Reduzir a dose "poderia ajudar a recuperar um pouco da minha habilidade linguística para entrevistas de emprego", disse ela ao ChatGPT.
O bot, então, incentivou Bowen a reduzir a dose por conta própria, sem avisar seu médico, segundo o processo. Em janeiro de 2026, ela pediu orientações sobre como reduzir sua medicação para epilepsia — de 400 para 300 miligramas por dia, e depois para 200. Embora, inicialmente, o ChatGPT tenha recomendado que ela consultasse um médico, acabou elogiando-a por não "depender da prescrição médica".
Nicholas Poolos, o médico da chinesa, afirmou no processo que jamais recomendaria que Bowen reduzisse a dosagem.
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