A Binance foi alvo de um roubo recorde de US$ 6,3 bilhões (R$ 33 bilhões) na noite de quinta-feira (30), levantando dúvidas sobre como os sistemas da maior corretora de criptomoedas do mundo foram violados.
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O crime foi o maior já ocorrido com criptomoedas, e ainda não se sabe quem foi o autor do ato. A Binance afirmou que deve ressarcir as vítimas, mas não indicou prazo.
Veja abaixo o que se sabe sobre o ataque.
COMO O ATAQUE ACONTECEU?
O maior ataque hacker da história parece ter começado por meio do laptop de um dos engenheiros de desenvolvimento e operações da Binance.
A empresa afirmou que o dispositivo foi comprometido por hackers, que o usaram para "enviar transações de saque não autorizadas" e, em seguida, retiraram um valor recorde de US$ 6,3 bilhões das carteiras de criptomoedas dos clientes da Binance.
Em vez de acessar as chaves privadas das carteiras dos usuários, como costuma ocorrer em ataques envolvendo criptomoedas, os hackers exploraram um laptop que já tinha acesso aos sistemas responsáveis por aprovar transações.
"Os engenheiros da Binance gerenciam os sistemas que operam a corretora", afirmou Tom Robinson, cofundador da empresa de análise Elliptic, ao Financial Times. "O laptop de um engenheiro de DevOps normalmente contém as credenciais necessárias para acessar esses sistemas. Um invasor que controla esse laptop pode usar o mesmo acesso", disse.
"Eles fizeram com que os próprios sistemas da Binance enviassem o dinheiro para eles", comentou.
Os hackers aparentemente violaram carteiras da Binance mantidas em diversas blockchains, entre elas Solana, Ethereum, Base (a blockchain da Coinbase) e Tron, enviando bilhões de dólares em tokens de criptomoedas para carteiras controladas por eles próprios.
O roubo começou às 17h05 (horário de Brasília) de quinta-feira e durou meia hora, com uma segunda onda de saques ocorrendo depois das 20h, segundo a Elliptic.
A Binance afirmou ter "descoberto outros pontos de invasão", além do laptop, mas ainda investiga exatamente como o ataque ocorreu.
"Deveria haver controles sobre como os saques são iniciados, os endereços para os quais podem ser enviados e como são aprovados... Tudo isso falhou", apontou Alistair Heggie, diretor-executivo da DA Insured, uma empresa de seguros para criptomoedas.
QUEM ESTÁ POR TRÁS DO ATAQUE?
A empresa de inteligência de blockchain TRM Labs associou o ataque a uma unidade norte-coreana conhecida como TraderTraitor.
A Coreia do Norte, fechada e isolada por sanções, ganhou notoriedade por ataques cibernéticos. Somente no ano passado, hackers do país teriam roubado cerca de US$ 2 bilhões, mais da metade do total mundial, segundo a empresa de análise de blockchain Chainalysis.
O co-CEO da Binance, Richard Teng, disse nesta manhã que não se sabe ainda quem foi o autor do ataque.
QUANTO FOI ROUBADO?
Cerca de US$ 6,3 bilhões em quase 200 criptomoedas diferentes foram roubados.
A Elliptic afirmou que quatro tokens representavam 74% dos recursos roubados: bitcoin; as stablecoins USDC, da Circle, e USDT, da Tether, mantidas na blockchain Tron; além de USDT mantido na blockchain Ethereum.
A empresa de análise disse ter confirmado que a Circle e a Tether congelaram US$ 2,8 bilhões em USDC e USDT, mas os hackers converteram cerca de US$ 3,3 bilhões dos valores roubados em ativos digitais que não podem ser congelados, como ETH.
Segundo a empresa, os suspeitos ainda tentavam movimentar e converter esses ativos antes de, por fim, sacá-los.
OS ATIVOS CONGELADOS PODEM SER RECUPERADOS?
Ativos congelados às vezes podem ser recuperados, embora isso exija que as empresas de criptomoedas trabalhem em conjunto com as autoridades.
As operadoras de stablecoins Tether e Circle dispõem de tecnologia para destruir os ativos congelados e reemitir as criptomoedas diretamente às vítimas, embora isso leve tempo.
Mas elas "geralmente só fazem isso após uma solicitação das autoridades ou uma ordem judicial, o que pode levar semanas ou meses", afirmou Tom Robinson, da Elliptic.
A BINANCE PODE RESSARCIR AS PERDAS?
A Binance afirma que todos os usuários que sofreram perdas serão ressarcidos por meio de uma combinação de recursos de seu fundo de reserva emergencial e da própria empresa. Segundo a carteira do fundo, ele mantém US$ 1,2 bilhão em bitcoin.
Nesta sexta-feira (30), a corretora afirmou que "já havia reservado mais de US$ 6,34 bilhões em recursos para cobrir este incidente", dos quais US$ 5 bilhões estavam mantidos "exatamente nos mesmos tokens afetados".
A empresa disse que estava comprando criptomoedas no mercado aberto para cobrir a diferença. No entanto, reconheceu que isso poderia levar mais tempo porque alguns tokens eram negociados com pouca frequência.
"A receita de nossa empresa neste ano é suficiente para cobrir as perdas", afirmou Yi He, codiretora-executiva da Binance, em post no X, acrescentando que o fundo emergencial "e as reservas da Binance incluem uma grande quantidade de ativos, como bitcoin e ETH".
A Binance não divulga suas demonstrações financeiras, o que torna muito difícil verificar as afirmações sobre suas receitas.
QUEM FOI AFETADO?
A Binance é a maior corretora de criptomoedas do mundo e afirma ter mais de 300 milhões de usuários cadastrados. É provável que muitos investidores individuais em criptomoedas tenham sido afetados, assim como grandes instituições que usam a Binance por sua elevada liquidez.
Já há sinais iniciais de impactos mais amplos sobre empresas do setor de criptomoedas. A plataforma de empréstimos Jupiter Earn afirmou que enfrentava uma "crise de liquidez que está afetando os saques".
Os recursos foram retirados das chamadas "carteiras quentes", nas quais as criptomoedas de muitos usuários são agrupadas para ficarem prontamente disponíveis para transações. Por isso, é provável que o número de pessoas afetadas seja grande.
A Binance é regulamentada em Abu Dhabi. A Autoridade Reguladora de Serviços Financeiros dos Emirados Árabes Unidos afirmou na sexta que estava "mantendo contato próximo com a Binance e monitorando o incidente", acrescentando que "proteger os interesses dos clientes e apoiar a integridade e o funcionamento ordenado dos mercados" era uma prioridade fundamental.
O QUE É O SEGURO DE ATIVOS DIGITAIS?
O seguro de ativos digitais abrange uma série de apólices destinadas a proteger corretoras de criptomoedas, custodiantes e outras empresas do setor contra perdas financeiras decorrentes de roubo de ativos digitais, ataques cibernéticos, falhas tecnológicas e outros riscos empresariais.
Ao contrário dos seguros tradicionais, essas apólices são adaptadas aos riscos associados à tecnologia blockchain, incluindo roubo ou perda de chaves privadas, violações de segurança de carteiras, vulnerabilidades em contratos inteligentes e falhas na custódia de ativos digitais.
O mercado global de seguros para criptoativos foi avaliado em US$ 9,37 bilhões em 2025 e deverá alcançar US$ 184,98 bilhões até 2033, segundo a Data Bridge Market Research.
A empresa de pesquisa apontou a crescente adoção institucional das criptomoedas e o aumento dos ataques cibernéticos e dos roubos de ativos digitais entre os fatores que impulsionam a demanda.
A cobertura pode incluir vários tipos de apólice:
- Seguro contra crimes para roubo, engenharia social e golpes
- Responsabilidade cibernética para violações, ataques hackers e resposta regulatória
- Seguro contra erros e omissões para falhas de software e de contratos inteligentes
- Seguro de responsabilidade civil de administradores e diretores para ações judiciais contra executivos
- Responsabilidade tecnológica para fornecedores de infraestrutura
COMO AS PERDAS SÃO COBERTAS?
Quando uma corretora de criptomoedas sofre um ataque hacker, as perdas podem ser cobertas por uma combinação de indenizações de seguros, capital próprio da empresa e fundos emergenciais reservados para compensar clientes.
A extensão da cobertura depende das apólices contratadas pela corretora, incluindo seus limites, franquias e exclusões. Quando as perdas superam o valor segurado, a empresa precisa recorrer a seus próprios recursos financeiros ou a outros mecanismos de recuperação para cumprir suas obrigações.
Algumas corretoras também mantêm fundos de reserva para reembolsar clientes após violações de segurança. A Binance criou o Fundo de Ativos Seguros para Usuários (SAFU, na sigla em inglês) em julho de 2018 como uma reserva emergencial destinada a proteger os usuários em casos extremos, como violações de segurança ou incidentes que afetem toda a plataforma.
Em 2026, o fundo SAFU detém criptoativos no valor aproximado de US$ 1 bilhão, integralmente em bitcoin, segundo o site da Binance. A empresa não respondeu de imediato ao pedido da agência de notícias Reuters para comentar sua cobertura de seguros.
O QUE PODE IMPEDIR O PAGAMENTO DE UMA INDENIZAÇÃO?
Exclusões que permitem às seguradoras negar determinadas reivindicações são comuns tanto em apólices que cobrem ativos digitais quanto naquelas voltadas à responsabilidade pessoal de administradores e diretores de empresas de criptomoedas. Essas exclusões podem limitar o alcance da proteção disponível às empresas e dificultar a contratação de cobertura.
Entre as exclusões comuns nessas apólices estão oscilações de valor, atos fraudulentos cometidos pelo segurado e gestão negligente ou sem proteção adequada das chaves.
APÓLICES TRADICIONAIS CONTRA CRIMES E RISCOS CIBERNÉTICOS COBREM CRIPTOMOEDAS?
A maioria das apólices-padrão contra crimes não cobre perdas com criptomoedas, pois foi originalmente criada para proteger bens físicos, como dinheiro, títulos e metais preciosos.
As apólices tradicionais de responsabilidade cibernética também nem sempre cobrem o valor dos ativos digitais roubados em um ataque hacker. Embora possam cobrir tanto perdas do próprio segurado quanto responsabilidades perante terceiros, incluindo investigações forenses, notificações a clientes e despesas jurídicas, em geral, excluem a perda ou a transferência de recursos.
Por isso, apólices cibernéticas independentes normalmente não cobrem o valor integral das criptomoedas roubadas, a menos que tenha sido adicionada uma cobertura específica para ativos digitais.
COMO AS SEGURADORAS AVALIAM PEDIDOS DE INDENIZAÇÃO POR ROUBO DE CRIPTOATIVOS?
As seguradoras examinam como ocorreu a violação, quais sistemas foram comprometidos e se a perda resultante está abrangida pela cobertura da apólice.
Elas também podem avaliar se a corretora seguiu os procedimentos de segurança exigidos, incluindo controles sobre chaves privadas, acesso a carteiras e aprovações de transações.
A diferença entre um hacker externo que rouba credenciais e um funcionário que transfere ativos deliberadamente pode determinar se uma apólice contra crimes ou riscos cibernéticos cobrirá a perda.
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