O que a cor do cocô de pinguins da Antártida diz sobre o aquecimento global

Publicado em 14/07/2026, às 21h47
- Philip Trathaniucn

Galileu

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A cor das fezes congeladas de pinguins-de-adélia permitiu que cientistas acompanhassem, do espaço, mudanças na alimentação dessas aves ao longo de quase 30 anos, e identificassem mais um sinal dos impactos das mudanças climáticas sobre o ecossistema antártico.

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Um novo estudo, publicado em 7 de julho na revista Current Biology, utilizou imagens do programa Landsat, da NASA, para analisar colônias de pinguins em praticamente toda a distribuição da espécie entre 1984 e 2013. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram monitorar padrões da cadeia alimentar em escala continental e ao longo de décadas usando observações por satélite.

Os resultados mostram uma tendência preocupante: em regiões e períodos com maior cobertura de gelo marinho, os pinguins consumiam mais peixes. Já quando havia menos gelo, a dieta passava a depender mais do krill, um pequeno crustáceo semelhante a um camarão.

Essa mudança também parece estar relacionada ao tamanho das populações. Segundo os autores, colônias com uma dieta baseada principalmente em krill apresentavam maior probabilidade de declínio populacional do que aquelas que consumiam mais peixes. Pesquisas anteriores já tinham mostrado que filhotes alimentados com peixes costumam crescer mais e têm melhores chances de sobrevivência do que aqueles alimentados predominantemente com krill.

Fezes como fonte de informação

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram a assinatura espectral do guano — fezes de aves marinhas — ou seja, a forma como sua cor é registrada em diferentes comprimentos de onda. Basicamente, essa análise demonstra como cada material interage com diferentes espectros da luz visível ou da luz infravermelha.

O pesquisador Casey Youngflesh, da Universidade Clemson, nos Estados Unidos, coletou amostras de guano em colônias de pinguins e analisou suas propriedades espectrais em laboratório. Em seguida, Michael Polito, professor de ciências oceânicas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, utilizou análises de isótopos estáveis dessas mesmas amostras para determinar a proporção de peixes e krill na dieta das aves.

Com esses dados, a equipe desenvolveu um modelo capaz de relacionar a cor das fezes ao tipo de alimentação. Depois, aplicou esse modelo às imagens registradas pelos satélites Landsat, permitindo reconstruir a dieta dos pinguins ao longo de quase três décadas.

Segundo Youngflesh, esta é a primeira vez que imagens de satélite são usadas para acompanhar a dinâmica das cadeias alimentares em escalas continentais e decenais (em décadas). “Os satélites nos permitiram fazer algo que seria impossível de outra forma. A inovação não foi a tecnologia de satélite em si, mas a capacidade de aproveitar décadas de imagens de satélite com ferramentas geoquímicas, estatísticas e computacionais modernas”, afirmou o pesquisador, em comunicado.

Um retrato das mudanças na Antártida

Os autores explicam que acompanhar a alimentação dos pinguins em toda a Antártida sempre foi um desafio. Embora pesquisadores consigam visitar algumas colônias para coletar amostras, o continente é vasto, remoto e de difícil acesso, tornando inviável repetir esse trabalho em todas as populações durante décadas.

Como os pinguins-de-adélia estão distribuídos por praticamente todo o continente e podem ser monitorados por satélite, eles funcionam como importantes indicadores das transformações no ecossistema antártico.

Durante a reprodução, essas aves se alimentam principalmente de peixinhos-prateados antárticos e de krill. Além de ser menos nutritivo que o peixe, o krill também vem se tornando menos abundante em algumas regiões da Antártida devido às mudanças climáticas e ao aumento do consumo por populações de focas e baleias em recuperação.

O período analisado pelo estudo terminou em 2013. Desde então, os pesquisadores destacam que a Antártida registrou quedas ainda maiores na extensão do gelo marinho, incluindo níveis recordes de baixa.

Caso essa tendência continue, os pinguins-de-adélia poderão ser forçados a depender cada vez mais do krill em uma área maior de sua distribuição geográfica, o que pode representar novos desafios para a sobrevivência de muitas colônias.

Para Polito, os pinguins funcionam como um alerta sobre as mudanças que vêm ocorrendo no continente gelado. “Os pinguins-de-adélia são uma espécie icônica que se reproduz em todo o continente antártico. Eles funcionam como um 'canário na mina de carvão' e nosso estudo ilustra como o aquecimento recente perturbou a cadeia alimentar marinha antártica da qual dependem, em detrimento de muitas de suas populações”, disse o coautor do estudo.

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