Galileu
Uma equipe de pesquisadores da Universidade Curtin, na Austrália, afirma ter determinado com a maior precisão já alcançada a idade da mais antiga cratera de impacto conhecida da Terra. Localizada na região de Pilbara, a estrutura conhecida como Cratera do Polo Norte, na região de Pilbara, na Austrália Ocidental, teria sido formada há cerca de 3,02 bilhões de anos pela colisão de um grande asteroide ou meteoro com a superfície do planeta.
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Os resultados foram obtidos por meio da análise de minerais presentes nas rochas afetadas pela colisão, e publicados nessa terça-feira (23) no formato de um artigo científico na revista Geology. Segundo os pesquisadores, dois métodos independentes de datação utilizados chegaram praticamente ao mesmo resultado.
Além de ampliar o registro geológico dos impactos extraterrestres e oferecer uma rara janela para compreender como era a Terra em seus primeiros bilhões de anos de existência, a nova estimativa ainda substitui uma proposta anterior da própria equipe. Em 2025, os especialistas haviam sugerido uma idade ainda mais remota à cratera, de 3,47 bilhões de anos.
Idade da cratera
O avanço foi possível graças ao estudo de dois minerais encontrados nas rochas da região: o zircão e a apatita. Esses compostos são estruturas cristalinas capazes de preservar informações químicas sobre os ambientes em que se formaram, funcionando como verdadeiros arquivos da história geológica.
No caso do zircão, considerado um dos minerais mais resistentes da natureza, os pesquisadores identificaram cristais com formas incomuns, descritas como ramificadas e esqueléticas. Essas características sugerem que eles foram submetidos a condições extremas durante o impacto, quando cristais mais antigos foram quebrados, parcialmente recristalizados e modificados pelo intenso calor liberado pela colisão.
Para determinar a idade dessas alterações, a equipe utilizou técnicas de geocronologia — área da ciência que mede o tempo geológico por meio da composição química dos minerais. Os pesquisadores analisaram especialmente a transformação natural de átomos de urânio em chumbo ao longo de bilhões de anos, um dos métodos mais confiáveis para datar rochas antigas, destaca a revista New Scientist.
Como forma de confirmar os resultados, os cientistas também estudaram a apatita, mineral que teria se formado quando fluidos extremamente quentes circularam pelas fraturas abertas pelo impacto. As duas análises apontaram para uma idade próxima de 3,02 bilhões de anos, reforçando a interpretação de que ambas registram o mesmo evento catastrófico.
Vestígio da Terra primitiva
Datar crateras tão antigas é uma tarefa particularmente difícil. Ao longo de bilhões de anos, as rochas da Terra passam por processos de aquecimento, compressão e transformação química que podem apagar ou distorcer evidências deixadas por impactos antigos. Por isso, a maioria das marcas produzidas por colisões ocorridas no início da história do planeta desapareceu completamente. Segundo os autores do estudo, a Cratera do Polo representa uma exceção extraordinária.
A estrutura preserva evidências conhecidas como “cones de estilhaçamento” — formações rochosas em formato cônico que surgem exclusivamente após eventos de altíssima energia, como impactos de asteroides. Essas marcas são consideradas uma das assinaturas geológicas mais confiáveis para identificar antigas crateras.
A descoberta é particularmente relevante porque permite investigar um período pouco conhecido da evolução terrestre. Durante o Éon Arqueano, período compreendido entre cerca de 4 bilhões e 2,5 bilhões de anos atrás, quando os primeiros continentes começavam a surgir, a Terra era um mundo muito diferente do atual: os continentes ainda estavam em formação, a atmosfera possuía composição distinta e a vida, quando existente, era limitada a formas microscópicas extremamente simples.
Debate científico continua
Apesar da nova datação, a idade exata da cratera ainda não é consenso entre especialistas. Pesquisadores que estudaram a mesma região contestam a cronologia proposta pela equipe e defendem que a estrutura pode ser mais jovem do que os cerca de 3 bilhões de anos apontados no novo trabalho.
Os autores do estudo, porém, sustentam que a diferença em relação às análises anteriores está no fato de terem datado diretamente minerais presentes nas próprias rochas afetadas pelo impacto, em vez de depender apenas de correlações com camadas vizinhas.
De acordo com Chris Kirkland, líder da pesquisa mais recente, o impacto deixou para trás um “relógio mineral”, e a concordância entre zircão e apatita reforça a interpretação de que se trata de um único evento extraordinário. “A concordância entre dois sistemas minerais diferentes nos dá confiança de que estamos vendo a assinatura de um único evento importante — o impacto de um meteorito”, afirma o pesquisador, em comunicado.
Mais do que estabelecer um recorde de antiguidade, a pesquisa ajuda a entender a violência dos processos que moldaram a Terra em sua fase inicial. Impactos de grandes asteroides eram muito mais comuns nos primeiros bilhões de anos do Sistema Solar e podem ter influenciado a formação da crosta terrestre, a circulação de água e até as condições que favoreceram o surgimento da vida.
Para Kirkland, a importância do achado vai além do recorde cronológico. “É incrivelmente difícil datar crateras de impacto antigas porque, ao longo de bilhões de anos, as rochas são alteradas pelo calor, pressão e fluidos, o que pode obscurecer ou redefinir os sinais originais do impacto. O que conseguimos fazer aqui foi separar o momento do impacto de sua longa história geológica”, afirma ele. “Esta descoberta leva o registro de impactos da Terra a um período geológico mais remoto do que qualquer cratera previamente datada, oferecendo um vislumbre raro dos processos violentos que moldaram a Terra primitiva”.
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