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Opinião: "Da coragem de Teotônio à pobreza política dos dias atuais"

Publicado em 03/10/2026, às 08h00

Flávio Gomes de Barros

Os mais jovens certamente não se recordam, mas Teotônio Brandão Vilela foi um dos políticos de maior expressão de Alagoas e do Brasil.

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Empresário da agroindústria açucareira, foi deputado estadual, vice-governador e se notabilizou no exercício do segundo mandato de senador, quando pela sua postura democrática foi cogitado a concorrer à Presidência da República.

Antagonista do regime militar que havia ajudado a instaurar no país, tornou-se seu principal opositor no Congresso Nacional.

A possibilidade de ser presidente do Brasil na verdade ele pessoalmente nunca cogitou – era um anseio dos seus admiradores.

Intelectual respeitado, esse alagoano de Viçosa foi vencido pelo câncer, em 1983, mas até hoje é reverenciado por muitos brasileiros, a exemplo do jornalista Walter Casagrande Jr., em artigo no portal UOL:

 

“Assistindo atordoado às propagandas políticas e a esses debates patéticos, me deu vontade de escrever sobre políticos que honravam seu cargo com coragem e determinação.

Senhores que não se escondiam e colocavam suas ideias democráticas, mesmo em plena ditadura militar, viajando por esse Brasil afora.

Não tenho dúvidas de que a grande maioria desses políticos atuais e muitos eleitores que se fecham e acreditam em mentiras e mais mentiras não tenham a menor ideia de quem foi o Sr. Teotônio Brandão Vilela.

Um alagoano ‘porreta’ que começou sua trajetória política em partido conservador, mas que espalhava a voz da democracia por todos os cantos do país.

Teotônio Vilela foi vice-governador do estado das Alagoas, deputado estadual e senador da república.

Era uma ilha democrática cercada por militares por todos os lados.

Me lembro muito bem das minhas conversas com gente da minha idade, meninos e meninas, com 16/17/18 anos, quando surgia a pergunta: ‘Se pudéssemos votar para presidente, em quem você votaria?’

A resposta da grande maioria era Teotônio Vilela, e depois se espalhava por vários; tinha jovens que até diziam Paulo Maluf.

Quando se iniciou a Democracia Corinthiana, em 1982, o seu nome girava muito entre nós, nas reuniões e nas mesas de bares, tomando cerveja.

Teotônio Vilela não temia a morte nem a perseguição e saía por aí gritando e espalhando o nome mais temido da ditadura militar: DEMOCRACIA.

Era admirado e a preferência quase que absoluta do meio democrático, principalmente o artístico, tanto que em 1983 os gênios Milton Nascimento e Fernando Brant escreveram uma música lindíssima chamada ‘O Menestrel das Alagoas’:

‘Quem é esse viajante

Quem é esse menestrel

Que espalha esperança

E transforma sal em mel?

Quem é esse saltimbanco

Falando em rebelião

Como quem fala em amores

Para a moça no portão?

Quem é esse que penetra

No fundo do pantanal

Como quem vai de manhãzinha

Buscar fruta no quintal?

Quem é que conhece

Alagoas e Gerais

E fala a língua do povo como ninguém fala mais?

Quem é esse?

De quem está irá santa

Essa saúde civil

Que, tocando a ferida,

Redescobre o Brasil

Quem é esse peregrino

Que caminha sem parar

Quem é esse meu poeta

Que ninguém pode calar

Quem é esse?’

Essa música teve seu primeiro lançamento em 1º de setembro de 1983, por Fafá de Belém, como carro-chefe de seu álbum homônimo.

Pouco tempo antes do falecimento do ‘Menestrel das Alagoas’, Sr. Teotônio Brandão Vilela, em 20 de novembro.

Posteriormente, o próprio Milton gravou num álbum ao vivo do show realizado no Anhembi, em São Paulo.

Conto a história desse personagem histórico da política brasileira porque vejo uma pobreza de conhecimento, de propostas dos candidatos de hoje que me agonia.

Existe uma força sombria antidemocrática espalhada pelo mundo, e o Brasil acompanhou esse retrocesso mental mundial.

Aí, com muito saudosismo, vejo que faltam pessoas com conhecimento e argumentos para defender e esclarecer uma grande massa que acredita na loucura dos extremos.

Sou pela democracia e sempre serei, e neste texto não estou chamando voto para ninguém nem defendendo ou apoiando alguém.

Defenderei, como sempre fiz, a democracia brasileira; lutei para voltar, lutei para protegê-la e lutarei sempre para sua permanência.”

 

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