Contextualizando

Mentira eleitoral não tem ideologia

Em 2 de Outubro de 2026 às 18:05

Jornalista Fabiano Lana:

“Uma grande fake news prosperou por anos em terras brasileiras. A de que espalhar mentiras eleitorais era hábito exclusivo de direitistas mal-intencionados. De canalhas reacionários. Era uma teoria obviamente falsa, autointeressada, porém com certo aval até mesmo do Supremo Tribunal Federal, devido, sobretudo, ao inquérito das fake news presidido pelo ministro Alexandre de Moraes.

A punição para tal ato intolerável de mentir deveria ser, no mínimo, o banimento das redes ou algo bem pior. Quem sabe a prisão? Era crime grave demais para ficar impune, argumentavam os defensores da tese.

Com tantos esquerdistas se deliciando com a história criada de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pretenderia retirar de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil, a verdade foi restabelecida: fake news é uma questão multiideológica no Brasil – a primeira-dama Rosângela da Silva, que abraçou a lorota em pronunciamento público, é um exemplo. Quem não mente que atire a primeira pedra.

Se, por um lado, o bolsonarismo tem os embustes clássicos como 'kit gay', 'mamadeira de piroca (sic)', 'código fonte das urnas adulterado', por outro, não se pode falar com abrangência sobre as vitórias eleitorais do Partido dos Trabalhadores sem abordar suas fake news.

Há uma longa lista. Em 2006, por exemplo, houve a acusação contra o então tucano Geraldo Alckmin, hoje vice-presidente de Lula, de pretender privatizar a Caixa Econômica, o Banco do Brasil e a Petrobras. O candidato à Presidência não conseguiu se defender. Era rotina nas eleições seguintes a divulgação do boato de que iriam acabar com o programa Bolsa Família. O PSDB sempre era abatido com esse tipo de razia.

As informações não passíveis de verificação, para usarmos um pleonasmo sobre a mentirada, não se limitam ao período eleitoral. É possível citar, por exemplo, que a Operação Lava Jato tenha sido obra da CIA, de olho no nosso pré-sal. Até mesmo um dogma petista como 'Dilma Rousseff foi vítima de um golpe', como se a ex-presidente tivesse sido afastada por um golpe de Estado, se pensarmos bem, não é exatamente algo factível.

A agora sagrada guerra eleitoral entre verdade e mentiras ganhou um componente judicial. Nossos juízes mais poderosos resolveram entrar em campo, não para arbitrar, mas com as camisas de seus times de preferência. Representantes do Supremo que atentaram contra a liberdade de expressão agora consideram que todo mundo pode dizer o que quiser nas redes. Os que, em tese, são aliados dos defensores da liberdade irrestrita de fala, exigem retirada de posts tidos como falsos. Os princípios ficaram de lado e predominam as preferências.

De um ponto de vista liberal, não seria papel do Estado dizer o que é ou não é verdade. A própria sociedade, madura, saberia fazer esse tipo de distinção, desmoralizando o que não tem sustentação factual. Além disso, há muitas teses e fatos em disputa; um grupo considera verdade e outro mentira, sem qualquer consenso. Pode ser uma tese otimista com relação ao ser humano, essa de deixar o fluxo de expressões fluir livre, mas está claro que controlar o que as pessoas querem expressar, em nome de se evitar crimes, nunca é uma tarefa neutra, pode sempre esconder objetivos políticos nem sempre confessáveis.

O ministro do STF Flávio Dino e seu antípoda André Mendonça que o digam.”

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