Passarinhos, sinuca e cerveja aproximaram Ronnie Lessa e irmãos Brazão, suspeitos no caso Marielle

Publicado em 27/03/2024, às 11h37
-

Italo Nogueira / Folhapress

Os suspeitos de planejar e executar a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) se conheceram num ponto de encontro de criadores de pássaros no qual bebiam e jogavam sinuca no início dos anos 2000, na zona oeste do Rio de Janeiro.

LEIA TAMBÉM

O encontro foi relatado pelo ex-PM Ronnie Lessa, apontado como executor do crime, em depoimento que integra o acordo de colaboração premiada.

À Polícia Federal, o delator contou como o PM Edmilson de Oliveira, o Macalé, morto em 2021 numa emboscada nunca esclarecida, foi o pivô do contato com o deputado federal Chiquinho Brazão (sem partido) e seu irmão Domingos Brazão, conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro), suspeitos de terem encomendado o crime anos depois.

De acordo com Lessa, Macalé o convidou para visitar a casa de Jorge Santhiago Santos Geraldo, ponto de encontro de criadores de pássaros no Tanque, bairro da zona oeste. O imóvel ficava em frente a um haras da família Brazão.

O ex-PM relatou que passou a frequentar o local mais de uma vez por semana, mais interessado na cerveja e na sinuca do que nas conversas sobre pássaros. Os interessados nas aves eram Macalé e Chiquinho, que conheceu no local.

"Então quer dizer... Aquele ambiente de passarinho, cavalo e mata. [...] Aquele ambiente era uma coisa bacana até para respirar. Virou uma frequência. O Macalé, passarinheiro nato... Eu me aventurava a ter um passarinho ou outro, mas meu negócio era mais beber cerveja e jogar sinuca. Nesse ambiente eu conheci os Brazão, os irmãos", disse Lessa.

A PF localizou a mulher de Santhiago, que confirmou a presença de Lessa no local naquele período.

"Chamou a atenção da equipe de investigação a reação de Rosimeri [Geraldo] ao ser questionada se já tinha sido tutora de um Mastim Napolitano de nome Zeus [mencionado por Lessa na delação]. Num misto de surpresa e emoção, decorrentes da saudade do animal que já falecera e da curiosidade de como a equipe sabia de tal fato, a depoente confirmou.

O relatório sobre a investigação do homicídio também aponta como Chiquinho mantém interesse por pássaros, seguindo criatórios das aves nas redes sociais.

A polícia também aponta como uma prova de corroboração o fato de Macalé ter sido morto quando guardava duas gaiolas dentro de seu veículo.

O relato foi feito para explicar tanto a razão de ter sido procurado pelo Brazão para executar o crime, como pela necessidade de intermediação de Macalé para esse encontro.

"O Macalé era amigo dels [Brazão]. O Macalé cavalgava com eles. Eu nunca cavalguei com eles. O Macalé continuou nessa situação de passarinho desde sempre, e eu não. Eu não tinha paciência para isso. Eu nem sabia nem limpar passarinho. Às vezes ficava sujo", disse Lessa à PF.

O relatório não descreve novos encontros entre Lessa e os Brazão até o segundo semestre de 2017, quando, segundo a PF, o ex-PM é contactado por Macalé para encontrar os irmãos e discutir o plano para matar Marielle.

Lessa foi preso em março de 2019 sob acusação de executar a vereadora e seu motorista Anderson Gomes. O ex-PM decidiu firmar acordo de colaboração premiada no início deste ano, na qual acusou os irmãos Brazão de encomendar o crime. Os dois negam envolvimento no homicídio.

Os irmãos negam qualquer envolvimento com o assassinato.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

'Saiu rindo', diz segurança sobre colega que liderou espancamento que matou ciclista no Rio Empresária que morreu após cirurgia plástica fez seis procedimentos no rosto, diz família Campo de society comprado com dinheiro do tráfico é alvo de operação em RO PEC que acaba com a escala 6x1 chega à CCJ, e governo Lula emplaca aliado na relatoria