Energia: "Por que o Brasil não segue o caminho certo?"
Publicado em 13/06/2026, às 12h00
Flávio Gomes de Barros
Economista Daniel Lima Costa:
"Aqui está a verdade nua e crua: o modelo regulatório brasileiro é atrasado.
Ele não remunera flexibilidade, resposta rápida, capacidade firme de BESS nem serviços ancilares. Mas remunera térmicas inflexíveis, contratos de 15 anos e gás importado.
O lobby do gás é fortíssimo. Térmicas garantem contratos bilionários concentrados nas mãos de poucos, demanda para importação de GNL e previsibilidade para investidores. Os BESS não geram esse tipo de renda concentrada.
Enquanto Austrália, EUA e China tratam armazenamento como infraestrutura, o Brasil ainda trata como 'tecnologia do futuro'. E falta política pública:
A Austrália subsidia baterias domésticas. O Brasil tributa. A Austrália financia BESS. O Brasil não tem linha de crédito. A Austrália remunera flexibilidade. O Brasil remunera térmicas.
O Brasil poderia seguir o caminho da Austrália — e fazer ainda melhor. Mas não segue porque:
o modelo regulatório é ultrapassado o setor de gás domina o planejamento e a operação o país ainda pensa em “geração”, não em “flexibilidade”
Tecnicamente, economicamente e ambientalmente, o Brasil está perdendo uma oportunidade histórica. E o mais irônico, temos condições superiores às da Austrália para liderar o mundo em armazenamento.
O que falta não é tecnologia. Não é recurso natural. Não é viabilidade econômica. O que falta é regulação, sinal de preço, visão estratégica e vontade política.
O que a Austrália está fazendo — e por que funciona. Baterias domésticas reduzem a demanda de pico. Casas com baterias novas consumiram ~80% menos energia da rede no pico. Isso reduz térmicas, custo marginal, preço para todos, risco de apagões e necessidade de reforços de rede. Baterias em escala de rede definem o preço, substituindo térmicas de pico, são mais baratas que gás, respondem mais rápido e estabilizam a rede.
Baterias evitam desperdício de solar e eólica. A Austrália tinha o mesmo problema do Nordeste: excesso de renováveis e linhas saturadas. A solução foi simples, instalar BESS nos pontos de congestão, armazenar quando a linha está cheia, liberar quando está livre. Resultado: mais renováveis e menor custo sistêmico.
Por que o Brasil poderia fazer igual — e até melhor. Temos hidrelétricas, que funcionam como baterias naturais. Com BESS + hidrelétricas, poderíamos armazenar solar/eólica, poupar água, usar reservatórios como “bateria sazonal” e reduzir térmicas a quase zero.
Temos o melhor sol e vento onshore do mundo, o maior potencial solar do G20 e demanda crescente por flexibilidade. Data centers, hidrogênio verde e indústria eletrointensiva exigem estabilidade e preços baixos. Os BESS entregam isso.
Mas o Brasil ainda prefere contratar térmicas e ignorar armazenamento. Simplesmente, falta planejamento sério e vontade política."
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Economista Daniel Lima Costa:
"Aqui está a verdade nua e crua: o modelo regulatório brasileiro é atrasado.