Por que os egípcios colocavam próteses penianas nas múmias?

Publicado em 14/05/2026, às 20h41
- Marzena Ożarek-Szilke/Universidade de Wrocław

Galileu

Ler resumo da notícia

Para os antigos egípcios, perder qualquer parte do corpo era algo extremamente grave: acreditava-se que a estrutura física do ser humano era essencial para ele tanto na vida como na morte. No pós-vida, ainda precisaríamos dos nossos pés para andar, das nossas mãos para manipular objetos, dos nossos ouvidos para escutar, etc.

LEIA TAMBÉM

Por isso, era comum que os corpos mumificados do Egito tivessem próteses alocadas no lugar de partes perdidas, como dedos, orelhas, narizes e até mesmo o pênis.

"Existe um longo histórico entre os antigos egípcios de que eles restauravam partes do corpo após o falecimento para que pudessem entrar na vida após a morte íntegros", afirmou a arqueóloga da Universidade de Manchester Jacky Finch à CBC em 2007, quando tornou-se notícia que uma múmia havia sido encontrada com um dedão prostético. A justificativa para os pênis artificiais, segundo ela, era simples: "Era importante poder procriar na vida após a morte".

Pesquisadores já observaram vários casos em que embalsamadores egípcios aplicaram falos artificiais a múmias, inclusive de crianças. Porém, essa não era uma prática generalizada, ou seja, nem todas as múmias masculinas continham esse acessório — na verdade, tratava-se de uma minoria. É possível que esses casos específicos tivessem significado ritualístico ou religioso.

Um dos tópicos discutidos pelos cientistas é se as próteses, especificamente as dos dedos, tinham apenas função “pós-morte” ou se tinham uso durante a vida, funcionando como as que existem nos tempos contemporâneos. As primeiras próteses de auxílio de que se tem notícia, em teoria, só surgiram mais tarde, na Grécia e na Roma antigas. Mas em 2011, arqueólogos testaram um dedão prostético de uma múmia de Luxor que viveu entre 950 e 710 a.C. e confirmaram: era um acessório auxiliar para andar, não apenas um ornamento.

Para fazer suas próteses, os egípcios utilizavam os materiais que tinham à mão, como couro, madeira, tecido, gesso, resina e cola feita a partir de gordura animal.

Por que estar inteiro após a morte era importante

Um dos motivos pelos quais os egípcios antigos tinham tanto apreço pela completude do corpo pode estar relacionado ao mito de Osíris.

Segundo a versão mais conhecida da história, Osíris era um rei divino que governava o Egito de forma civilizada e justa. Seu irmão, Seth, tinha inveja dele e queria tomar o poder. Seth então elaborou uma armadilha, trancou Osíris num sarcófago e o lançou ao rio Nilo.

Depois de muito procurar, a esposa de Osíris, Ísis, encontrou o corpo e o trouxe de volta ao Egito. Mas Seth descobriu e, furioso, roubou o cadáver de Osíris e o despedaçou, espalhando os fragmentos pelo Egito para impedir que Osíris fosse restaurado.

Ísis então percorreu o país recolhendo os pedaços do marido, auxiliada por sua irmã Néftis e, em certas versões, pelo deus chacal Anúbis. O único membro que ela não conseguiu recuperar teria sido o pênis, supostamente devorado por peixes do Nilo. Ísis criou então uma versão artificial do membro usando magia.

A reconstituição de Osíris por Isis é muito importante na mitologia: os dois posteriormente têm um filho juntos, Hórus, que eventualmente desafia Seth para reivindicar o trono. Osíris, por sua vez, se torna o senhor do submundo.

A ideia de Isis recitar magia para reconstruir o marido era espelhada nos rituais de embalsamento das múmias: os sacerdotes entoavam orações para ordenar ao corpo do morto que se reconectasse e readquirisse a unidade.

“Osíris era o protótipo de todos os falecidos, portanto, todos podiam ser dotados de vida”, afirma este artigo científico. “Um por um, os membros e órgãos eram devolvidos ao falecido. Com a ajuda de formas simbólicas, os membros eram reunidos, pois a fala tinha um poder potente sobre a vida e a vida após a morte no antigo Egito. Graças ao efeito mágico dos feitiços e à proteção dos deuses, os membros dispersos retornavam a um único corpo”.

Inclusive, a múmia do faraó Tutancâmon é famosa por ter sido preparada com o pênis (que era o verdadeiro mesmo) em um ângulo de 90 graus, produzindo uma ereção artificial. Especialistas acreditam que isso foi feito deliberadamente para associá-lo a Osíris, reforçando os poderes de Tutancâmon no submundo.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

"Inferno de Dante" representou impacto de asteroide? O que diz este estudo Cientistas registram pela primeira vez abertura de placa tectônica no fundo do mar Produto brasileiro avança e pode ajudar no combate à malária na África Como extinção de animais gigantes há 10 mil anos causa efeitos até hoje