Veja
O Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” do governo brasileiro em relação aos comentários do presidente Javier Milei durante a convenção do PL, em São Paulo, para anunciar oficialmente a candidatura de Flávio Bolsonaro às eleições de novembro.
LEIA TAMBÉM
O Itamaraty também chamou seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos a respeito dos laços entre os dois países, no que o jornal argentino La Nación qualificou nesta segunda-feira, 27, como “a maior crise diplomática do último meio século entre a Argentina e o Brasil”.
“A opinião é unânime: dezenas de diplomatas, ex-funcionários e especialistas em relações internacionais, tanto da ativa quanto aposentados, de ambos os países, não têm dúvidas de que a maior crise diplomática do último meio século entre Argentina e Brasil acaba de ser desencadeada”, escreveu o jornalista Claudio Jacquelin no artigo de opinião.
Já o Clarín falou em um “conflito diplomático” gerado por Milei que pode gerar medidas de retaliação por parte do governo brasileiro. “Uma crise como esta, com insultos dirigidos a um chefe de Estado em seu próprio país, como os que Milei proferiu contra Lula no sábado no Brasil, é inédita na história democrática”, disse o jornal.
As declarações
No sábado 25, em um discurso inflamado de quase meia hora, Milei desferiu críticas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as suas políticas sociais, além de ter chamado o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”. O magistrado foi relator do caso em que Jair Bolsonaro (PL) foi condenado por tentativa de golpe de Estado, entre outros que miraram o ex-presidente.
A presença do chefe de Estado na convenção do PL “fortaleceu” Flávio Bolsonaro e foi uma “interferência descarada” nas eleições brasileiras, segundo a imprensa da Argentina. Mas sua participação chamou a atenção, especialmente, dada a baixeza dos insultos.
O ultraliberal se referiu a Lula como “presidiário”, “ladrão” e “lixo socialista”, embora não o tenha mencionado pelo nome. Ao chamá-lo de “lixo careca”, ele também evitou nomear Moraes.
“O lixo não me permitiu visitar o meu amigo injustamente encarcerado, quando eu sei que Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández” declarou Milei, que havia anunciado na semana passada, durante uma entrevista em seu país, a intenção de usar a viagem ao Brasil para ver Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em sua residência.
Ele ainda mencionou uma suposta colaboração do governo Lula para apoiar a oposição na última campanha eleitoral na Argentina. A Casa Rosada disse que o petista já interferiu na política argentina ao ter visitado a ex-presidente Cristina Kirchner, em prisão domiciliar, no ano passado, às vésperas do pleito legislativo local. Além disso, segundo Milei, o brasileiro teria financiado o seu adversário, Sergio Massa, na eleição de 2023 — a mesma que o fez presidente.
Após enaltecer suas políticas econômicas na Argentina, ele também criticou o socialismo, o presidente Lula e as suas políticas de destribuição de renda.
“Esse é o método que tem operado em toda a região: causar desequilíbrio econômico com o objetivo de ‘comprar’ votos para não perder o poder nas eleições seguintes”, afirmou.
Milei tenta se posicionar como líder da direita na América Latina. Durante a convenção, ele associou a candidatura de Flávio a uma “transformação política em curso” na região. Segundo ele, países latino-americanos estão se alinhando à direita e abandonando a esquerda, movimento ao qual o Brasil pode se juntar com a eventual eleição de Flávio.
Próximos passos
Não ficou claro que tipo de medida a diplomacia brasileira pretende tomar diante do que o Itamaraty chamou de “ofensas proferidas” por Milei. Ainda segundo o artigo do La Nación, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil não considera “nenhuma das medidas mais extremas”, como o rompimento de relações diplomáticas ou a expulsão de diplomatas (declaração de persona non grata).
No entanto, o jornal destacou que o governo argentino “já deixou claro que não haverá pedido de desculpas do embaixador Raimondi, muito menos do presidente”.
O Clarín, por sua vez, alertou que as tensões devem afetar tanto a missão do embaixador quanto do cônsul em São Paulo, Luis María Kreckler, “que tem um relacionamento ruim com o governo do PT” — apesar de ter vivido momentos tensos também com Jair Bolsonaro por ter sido membro do governo de Cristina Kirchner (ele atuou como seu embaixador em Brasília).
LEIA MAIS