Revista Crescer
A pele do bebê parece um pouco mais fria ou o termômetro marcou uma temperatura abaixo do normal? A situação pode causar estranhamento, porque, em geral, a preocupação mais frequente é com a febre. Porém, o contrário também pode ser um indicativo de que algo não vai bem.
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A temperatura baixa em bebês e crianças nem sempre significa que há um problema grave. Ela pode acontecer, por exemplo, depois da febre, durante o sono ou após exposição ao frio. Em alguns casos, porém, também pode ser um dos primeiros sinais de hipotermia ou até de uma infecção importante.
A hipotermia infantil é uma condição que exige atenção e deve ser diferenciada das quedas passageiras de temperatura.. Para esclarecer as dúvidas dos pais, especialistas explicam que situações merecem atenção e o que fazer.
O que é considerada temperatura baixa em bebês e crianças?
Depende da idade da criança e da forma de medir a temperatura. Segundo a pediatra Patrícia Salles, coordenadora do pronto-socorro do Sabará Hospital Infantil (SP), recém-nascidos merecem uma atenção especial porque ainda não conseguem controlar a temperatura corporal da mesma forma que crianças maiores.
"Em recém-nascidos, a Organização Mundial da Saúde define hipotermia como temperatura central abaixo de 36,5°C, classificada em leve, moderada e grave. Na prática dos prontos-socorros pediátricos, a maioria dos médicos considera hipotermia em lactentes uma temperatura igual ou inferior a 36°C", explica. Já nas crianças maiores, a referência muda: 'A definição clássica de hipotermia em adultos e crianças maiores é temperatura corporal abaixo de 35°C'".
A pediatra Elisabeth Fernandes, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), reforça que nem toda redução de temperatura significa doença. "Temperaturas entre 36°C e 36,4°C podem refletir apenas uma variação normal", aponta. Ela explica que o número mostrado no termômetro precisa sempre ser interpretado junto com a idade da criança e, principalmente, com seu estado geral.
Nem toda temperatura baixa significa hipotermia
Esta é uma das confusões mais frequentes entre pais e cuidadores. Ao perceber que o bebê está mais frio do que o habitual, muitos já presumem que pode se tratar de um quadro de hipotermia. Mas outras situações podem causar uma leve queda de temperatura, como:
"Uma criança alerta e brincando costuma dizer muito mais que o número do termômetro, de forma isolada", ressalta Elisabeth. O que realmente preocupa, segundo ela, é quando a temperatura está abaixo de 35°C ou quando a queda vem acompanhada de outros sinais importantes, como sonolência excessiva, dificuldade para mamar, respiração alterada, pele muito fria ou prostração.
Já nos recém-nascidos, a atenção deve ser maior. Se a temperatura está baixa, mesmo que o bebê esteja aparentemente bem, o ideal é avaliar.
Temperatura baixa depois da febre ou depois do antitérmico é normal?
Sim. Em muitos casos, a queda da temperatura depois que a febre melhora é uma resposta esperada do organismo. Quando a febre cede, o corpo elimina calor por meio da transpiração e da dilatação dos vasos sanguíneos.
Como consequência, a temperatura pode ficar um pouco abaixo do habitual por um curto período. "Após a melhora da febre, a temperatura pode cair temporariamente, principalmente se a criança estiver suando. Isso costuma ser esperado quando ela permanece ativa e confortável", explica Elisabeth.
A pediatra lembra que o objetivo dos antitérmicos, como dipirona, paracetamol e ibuprofeno, é aliviar o desconforto da criança, e não fazer o termômetro marcar exatamente 36,5°C. Por isso, uma temperatura um pouco mais baixa após o efeito do medicamento pode acontecer e, isoladamente, não costuma representar um problema.
Mais importante do que o número mostrado no termômetro é observar como a criança está. Se ela continua desperta, aceita líquidos, mama normalmente e responde aos estímulos, a tendência é que a temperatura volte ao normal naturalmente. "Se a temperatura ficar abaixo de 35°C ou houver piora do estado geral, a criança deve ser avaliada", orienta a especialista.
Bebê gelado: mãos e pés frios sempre significam hipotermia?
Essa é uma das maiores dúvidas dos pais e também um dos mitos mais comuns nos consultórios. "Mãos frias não significam, obrigatoriamente, corpo frio", afirma Elisabeth. "Extremidades, como mãos, pés e nariz, frias são muito comuns, principalmente em bebês, porque a circulação periférica ainda é imatura", acrescenta. O ideal, segundo a especialista, é observar o tronco da criança, avaliar seu comportamento e medir a temperatura corretamente.
Patrícia lembra que, nos bebês pequenos, uma temperatura corporal persistentemente baixa pode ser um dos primeiros sinais de infecção grave. "Em recém-nascidos e lactentes jovens, a hipotermia é um dos sinais de sepse neonatal e de infecção bacteriana grave", alerta. Por isso, diante desse quadro, é fundamental buscar atendimento o quanto antes.
Como medir corretamente a temperatura
Quando há suspeita de temperatura baixa, medir corretamente a temperatura é o primeiro passo para saber se há motivo para preocupação. Segundo Elisabeth, o mais indicado é utilizar um termômetro digital e seguir corretamente as orientações do fabricante. "Entre os erros mais comuns estão medir logo após o banho, posicionar mal o termômetro ou confiar apenas no toque das mãos", explica.
Ela também faz um alerta sobre os termômetros infravermelhos. "Na suspeita de hipotermia, evite confiar na medida obtida por termômetros de testa ou de ouvido. Por apresentarem menor acurácia e maior risco de erros de aferição, os pais devem priorizar o termômetro digital axilar, especialmente em lactentes e recém-nascidos", detalha.
Patrícia acrescenta que o local onde a temperatura é medida também interfere no resultado. "Os métodos retal, axilar, oral e timpânico são considerados equivalentes de temperatura central em protocolos neonatais, mas a via axilar é a mais usada no dia a dia. Termômetros de testa e de ouvido tendem a ser menos precisos, principalmente em casos de hipotermia mais evidente", afirma.
Se o resultado parecer incompatível com o estado da criança, vale repetir a aferição alguns minutos depois, certificando-se de que ela está em um ambiente protegido do frio e com o termômetro corretamente posicionado.
Quais sinais mostram que a temperatura baixa merece atenção?
Mais importante do que o valor registrado no termômetro é observar como a criança está. "Em recém-nascidos e lactentes pequenos, o estado geral orienta a conduta muito mais do que o número isolado no termômetro", reforça Patricia. Mas quais sinais indicam que a temperatura baixa pode estar relacionada a um problema mais sério, que exige avaliação médica imediata? Alguns dos principais são:
O que fazer imediatamente?
Ao perceber que o bebê ou a criança está com temperatura abaixo do esperado, a primeira medida é manter a calma e, então, repetir a aferição. “De preferência pela via axilar, em ambiente sem correntes de ar e com a criança vestida", orienta Patrícia. Depois disso, os pais podem iniciar um reaquecimento seguro.
Segundo a especialista, as medidas recomendadas incluem manter a criança em um ambiente aquecido, retirar roupas úmidas, caso estejam molhadas de suor, vestir roupas secas, utilizar cobertores, colocar uma touca nos bebês pequenos para reduzir a perda de calor pela cabeça e, nos recém-nascidos, fazer contato pele a pele. “Isso reduz a ocorrência de hipotermia e continua sendo uma das medidas mais eficazes para recém-nascidos", destaca a médica.
Após cerca de 15 a 30 minutos depois de tomar as medidas, meça a temperatura novamente. Se ela permanecer baixa ou surgirem sinais de alerta, a orientação é procurar atendimento médico.
O que NÃO fazer
Na tentativa de aquecer rapidamente o bebê, algumas práticas populares podem aumentar os riscos. "Evite bolsas de água quente, cobertores elétricos ou objetos aquecidos em contato direto com a pele, pelo risco de queimaduras", ensina Patrícia. Outro erro é tentar compensar a temperatura com calor excessivo. "O reaquecimento agressivo e não supervisionado em lactentes pequenos também não é recomendado", orienta.
Também não é indicado esperar várias horas para observar a evolução quando o bebê apresenta sinais de gravidade. Os cuidados realizados em casa devem acontecer paralelamente à busca por atendimento, e não substituí-la.
Quando procurar atendimento de urgência?
Nem toda temperatura baixa representa uma emergência, mas algumas situações exigem avaliação médica imediata. Segundo Patricia, deve-se procurar um pronto-socorro quando a criança apresentar:
"Em lactentes muito jovens, mesmo uma hipotermia leve isolada já justifica avaliação clínica, pelo risco de infecção subjacente”, lembra a Patrícia. Elisabeth reforça que, quanto menor o bebê, maior deve ser a atenção.
Como prevenir episódios de temperatura baixa
Na maioria das vezes, prevenir a perda excessiva de calor é suficiente para evitar problemas. Nos recém-nascidos, isso começa ainda na maternidade, com o contato pele a pele, o aleitamento precoce e o cuidado para evitar exposição desnecessária ao frio. "O recém-nascido perde calor com facilidade porque tem pouca gordura, pele fina e um sistema de regulação térmica ainda imaturo", explica Elisabeth.
Em casa, alguns cuidados simples ajudam, como vestir a criança de acordo com a temperatura ambiente, evitar ambientes muito frios ou com ar-condicionado intenso, trocar roupas molhadas imediatamente, secar bem o bebê após o banho, usar touca nos primeiros dias de vida quando indicado e medir a temperatura sempre que houver dúvida.
Hipotermia: as principais dúvidas dos pais, respondidas
35°C é perigoso?
Pode ser. Em crianças maiores, esse valor caracteriza hipotermia e merece avaliação médica, especialmente se houver outros sintomas. Em recém-nascidos, temperaturas até mais altas já podem exigir atenção.
Bebê pode dormir com temperatura baixa?
Sim, não é preciso mantê-lo acordado à força. O importante é verificar se ele desperta normalmente quando estimulado, mama bem e responde aos pais. Se estiver difícil acordá-lo ou houver outros sinais de alerta, procure atendimento imediatamente.
Banho frio pode causar hipotermia?
Em recém-nascidos e bebês pequenos, a exposição prolongada ao frio favorece a perda de calor corporal. Por isso, o banho deve ser rápido, em ambiente aquecido. Em seguida, seque bem a criança e agasalhe-a de forma adequada.
Cobertor resolve?
Ajuda, mas sozinho nem sempre é suficiente. O reaquecimento deve ser gradual e pode incluir roupas secas, ambiente aquecido e contato pele a pele, especialmente nos primeiros meses de vida.
O que fazer antes de chegar ao hospital?
Mantenha a criança aquecida, faça contato pele a pele quando possível, evite fontes de calor direto e observe continuamente a respiração e o nível de consciência durante o deslocamento.
Recém-nascidos têm mais risco?
Sim. Eles perdem calor mais rapidamente porque têm pouca gordura corporal, pele fina e um sistema de regulação da temperatura ainda imaturo.
Antitérmico pode baixar demais a temperatura?
Pode ocorrer uma queda temporária após o tratamento da febre, principalmente se a criança estiver suando. Em geral, isso não representa um problema quando ela continua ativa e bem-disposta. Temperaturas abaixo de 35°C ou acompanhadas de prostração exigem avaliação médica.
Bebê gelado sempre significa hipotermia?
Não. Mãos, pés e nariz frios são comuns, principalmente nos primeiros meses de vida. O que deve ser avaliado é a temperatura corporal medida corretamente e o estado geral da criança.
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