Técnico repete fórmula de 1986 e internacionaliza seleção do Canadá em retorno à Copa

Publicado em 29/03/2022, às 20h32
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Folhapress

Em 2018, quando assumiu a seleção masculina do Canadá, o técnico John Herdman era um dos poucos a crer na possibilidade de classificar o país para a Copa do Mundo no Qatar.

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Com uma única participação em mundiais, no México, em 1986, a nação que voltou para casa após perder os três jogos que disputou não conseguiu cultivar muitas esperanças depois disso.

Mas foi justamente com vídeos dessa campanha, incluindo a trajetória nas Eliminatórias, que o inglês deu início ao trabalho de convencer não só os jogadores mas todo o país de que era possível voltar à Copa.

"Ainda não consigo acreditar", disse ele no domingo (27), diante de arquibancadas lotadas no estádio BMO Field, em Toronto, onde o Canadá fez 4 a 0 na Jamaica e carimbou sua vaga para a Copa deste ano.

"Tenho pregado essa crença, mas, quando finalmente acontece, fico sem palavras."

Estampada nas camisas usadas pelos jogadores após o duelo, uma pequena frase resume o sentimento que ele ajudou a despertar: "Nós podemos".

O treinador inglês tinha apenas dez anos quando o Canadá disputou o Mundial em 1986. Na época, ele vivia em Consett, cidade vizinha à de seu time do coração, o Newcastle United, na Inglaterra.

Mais de três décadas depois, foi com os canadenses que ele construiu uma relação de idolatria. Antes do feito pela equipe masculina, o estudioso técnico já havia levado a seleção feminina do Canadá à conquista de duas medalhas de bronze consecutivas em Olimpíadas (Londres-2012 e Rio-2016), além de um ouro no Pan-Americano de 2011, no México, derrotando o Brasil na decisão.

O sucesso com as mulheres serviu de inspiração para o trabalho com os homens, mas Herdman também usou parte da fórmula que havia levado os canadenses para o Mundial no México, apostando em um time internacional.

Jogadores nascidos em seis países diferentes naturalizados canadenses, além de 22 que possuem dupla nacionalidade, fizeram parte do plantel que conquistou a vaga na disputa das Eliminatórias da Concacaf, que abrange a América do Norte, a América Central e o Caribe.

Três países vão direto para o Qatar -Estados Unidos e México, segundo e terceiro na classificação atual, respectivamente, estão perto de ficar com as outras duas vagas. A Costa Rica, em quarto, deverá disputar a repescagem contra o campeão da Oceania.

Como o Canadá será uma das sedes da Copa do Mundo de 2026 junto com os Estados Unidos e com o México, o país garante duas participações consecutivas. É um feito importante para desenvolver o futebol no país.

"Somos um país do futebol, isso é tudo o que a gente sempre quis", afirmou o treinador inglês.

O objetivo dele é deixar um legado maior do que a própria classificação. A ideia é que, no futuro, não se dependa da fórmula já usada em 1986, quando o Canadá contou com atletas nascidos em nove países diferentes, naturalizados canadenses, além de 14 com dupla nacionalidade.

No elenco atual, o peso dos migrantes é inegável. O grande nome da equipe é o lateral e ponta-esquerda Alphonso Davies, 21. Nascido em um campo de refugiados em Gana, filho de pais que fugiam da guerra civil na Libéria, mudou-se aos cinco anos para o Canadá.

No domingo, Davies chorou durante uma transmissão na internet enquanto acompanhava à vitória sobre a Jamaica. Ele ainda se recupera de uma inflamação no coração, diagnosticada depois que ele teve Covid-19, e não atua desde dezembro. Há uma semana, voltou a treinar no clube alemão e deve jogar a Copa.

A trajetória do líder das Eliminatórias da Concacaf teve, ainda, outros pilares. Filho de pais jamaicanos, o atacante Cyle Larin, 26, marcou 13 gols na disputa e é o artilheiro do time. Foi o jogador do Besiktas, da Turquia, que abriu o caminho para a vitória justamente sobre o país em que sua família nasceu.

Na lista dos goleadores do elenco, ele é seguido de perto por Jonathan David, 22. Nascido no Brooklyn, em Nova York, nos Estados Unidos, mudou-se ainda bebê com a família para o Haiti, onde nasceram seus pais. Quando o atacante completou seis anos, eles se mudaram novamente, desta vez para o Canadá.

Já adulto, ele chegou a ser convidado a defender a seleção norte-americana, mas preferiu a equipe canadense. "O Canadá meu deu uma vida boa e me tornou o homem que sou hoje", disse o atleta do Lille, da França, pelo qual fez 13 gols na liga nacional. Nas Eliminatórias, balançou a rede nove vezes.

O fato de o trio formado por Aphonso Davies, Cyle Larin e Jonathan David atuar no futebol europeu é mais um fator que ajuda a explicar o sucesso da atual geração que defende o Canadá.

Na convocação mais recente de John Herdman para os jogos das Eliminatórias, 15 dos 25 jogadores que foram chamados atuam na Europa. Outros quatro jogam nos Estados Unidos, e apenas seis são de clubes do Canadá.

A experiência desse grupo formou um plantel com mais confiança para brigar pela vaga na Copa e fazer uma campanha histórica. "E nós estamos apenas começando", avisou o treinador, ansioso pelo início da disputa do Mundial.

Antes, vai encerrar sua participação nas Eliminatórias nesta quarta-feira (30), diante do Panamá, num jogo em que o Canadá precisa apenas de um empate para selar a melhor campanha da disputa na Concacaf.

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