Traficante morto por comparsas escondia arma para entrar em casa pois era filho de PM

Publicado em 14/04/2026, às 13h06
- Marcelo Theobald

Extra Online

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"Aí, qual foi que você anda com a pistola dentro da mochila?". A cobrança foi feita numa conversa pelo WhatsApp, em 5 de novembro de 2025. De um lado, estava um dos chefes do tráfico na Cidade de Deus, identificado no perfil como “Deus sempre no controle”. Do outro, Breno Barbosa Diniz, de 24 anos, gerente da venda de drogas em parte da favela. A bronca veio com um complemento: “Mano, pistola é pra andar na cintura. Você pediu pra trocar de porte pra deixar dentro de moto?”. A atitude de Breno tinha uma explicação: ele escondia da família, até ser morto por comparsas do Comando Vermelho (CV), três meses depois, que estava envolvido com o crime.

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Desde que Breno desapareceu, em 19 de fevereiro deste ano, seu pai, o sargento Francisco (nome fictício), da Polícia Militar, percorre favelas controladas pelo CV, necrotérios e locais onde quadrilhas escondem cadáveres. Sem esperança de achar o filho vivo, o PM busca o corpo. Ele descobriu o envolvimento do rapaz com o tráfico pela boca de um bandido da Cidade de Deus, enquanto o procurava.

— É uma dor de magnitude que nunca imaginei. É uma surpresa, um choque. Para mim, ele era trabalhador. Nunca vi nada. Fiquei chocado quando soube de seu envolvimento com o tráfico. Acho que Breno não queria que a família soubesse porque sabia que eu iria lá. O pessoal que morava ali, os familiares, ninguém o via armado. Não sei se era vergonha ou medo de ver o pai aparecer numa boca de fumo — diz Francisco.

A conversa entre um dos chefes do tráfico da favela e Breno foi obtida pelo EXTRA junto a uma fonte, após a publicação da primeira reportagem sobre o caso, no último domingo. Mensagens arquivadas em celulares que eram usados pelo jovem revelam seu esforço para esconder de parentes a vida criminosa que levava e também mostram como a quadrilha da Cidade de Deus se organiza.

Sem arma na casa da família

Após levar a bronca citada no início desta reportagem, Breno tentou se justificar. “O pente (carregador) da peça (arma) fica comigo. Só deixo assim pra entrar na minha família”, escreveu o rapaz para o comparsa, referindo-se à casa na qual foi criado. O outro traficante respondeu, impaciente: “Oi? Porque chegou para mim que você só fica com a pistola dentro da moto. Numa dessa, vagabundo rouba”.

O exercício de dissimulação de Breno era parte de um esforço maior do jovem para manter seu envolvimento com o tráfico longe da vista da família. Para justificar o dinheiro que ganhava e os horários de trabalho fora dos padrões, ele usava como desculpa um ferro-velho que tinha dentro da comunidade. Exatamente um mês depois de o rapaz desaparecer, o estabelecimento foi incendiado, durante aquilo que testemunhas descreveram como uma comemoração macabra pela morte do filho do sargento Francisco.

Ontem, o sargento da PM, surpreso com as mensagens de celular do filho, afirmou que sua luta seguirá. "Um corpo foi encontrado hoje (ontem) na Avenida Ayrton Senna (na Barra). Eu fui ao IML, mas nada. Vou continuar atrás do Breno".

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