Trecho da Ilíada, de Homero, é encontrado dentro de múmia egípcia

Publicado em 23/04/2026, às 20h41
- Universidade de Barcelona

Galileu

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Uma múmia encontrada no sítio arqueológico de Oxirrinco, atual Al Bahnasa, revelou um uso até então desconhecido de textos clássicos na Antiguidade: um fragmento da Ilíada foi incorporado diretamente ao processo de mumificação. Datada de cerca de 1.600 anos, a tumba pertence ao período romano no Egito e integra uma necrópole com câmaras de calcário que já haviam fornecido outros materiais arqueológicos relevantes.

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A descoberta ocorreu durante a campanha de escavações realizada entre novembro e dezembro de 2025 pela Missão Arqueológica de Oxirrinco, vinculada à Universidade de Barcelona, da Espanha. Coordenada pelas pesquisadoras Maite Mascort e Esther Pons, a equipe identificou, na Tumba 65 do Setor 22, uma múmia que apresentava um papiro posicionado sobre o abdômen — parte deliberada do ritual de embalsamamento.

Do ritual ao texto literário

Por si só, a presença de papiros em múmias não é incomum. Em escavações anteriores, os pesquisadores já haviam documentado materiais semelhantes, sempre associados a conteúdos mágicos ou ritualísticos. No entanto, o que distingue o novo achado é a natureza do texto.

A análise do papiro foi conduzida entre janeiro e fevereiro de 2026 por uma equipe multidisciplinar que incluiu a conservadora Margalida Munar, a papirologista Leah Mascia e o filólogo Ignasi-Xavier Adiego. A partir da leitura de Mascia, Adiego identificou o fragmento como pertencente ao Livro II da Ilíada, especificamente ao chamado “catálogo de navios”, trecho em que Homero descreve as forças gregas reunidas para a Guerra de Troia.

“Esta não é a primeira vez que encontramos papiros gregos agrupados, selados e incorporados ao processo de mumificação, mas até agora, seu conteúdo era principalmente mágico”, explica Adiego, em comunicado à imprensa, publicado na segunda-feira (20). “A verdadeira novidade é encontrar um papiro literário em um contexto funerário.”

Implicações históricas e culturais

O contexto da descoberta ajuda a dimensionar sua importância. A múmia foi encontrada em um complexo funerário com três câmaras de calcário, onde também havia sarcófagos de madeira decorados — muitos deles degradados por saques ao longo dos séculos. Embora outros papiros tenham sido identificados nesse mesmo local, nenhum continha trechos da Ilíada, obra que, naquele período, já era reconhecida como um clássico, destaca a revista Scientific American.

Durante o domínio greco-romano, a cidade de Oxirrinco foi um importante centro urbano e, desde o fim do século 19, tornou-se uma das principais fontes de papiros do mundo antigo, incluindo textos literários de grande relevância histórica. Nesse cenário, a presença de um fragmento literário inserido no corpo de uma múmia aponta para um uso simbólico ainda não plenamente compreendido.

A prática pode refletir tanto a difusão da cultura grega no Egito romano quanto a atribuição de novos sentidos à literatura, possivelmente relacionados à identidade do indivíduo, ao seu status social ou a crenças sobre a vida após a morte. Essas questões seguem em investigação pela Missão Arqueológica de Oxirrinco, ativa desde 1992 e inicialmente liderada por Josep Padró. Os resultados mais recentes estão sendo apresentados em uma série de conferências na Universidade de Barcelona, reunindo especialistas de diferentes áreas.

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