Milla Pasan: empreender para existir e resistir

Na segunda reportagem da série "Empreendedores no espectro", o TNH1 apresenta a história de Jamilla de Paula dos Santos, que viu no empreendedorismo uma estratégia de sobrevivência para uma mulher periférica e autista.

30 DE ABRIL DE 2026

Mobirise Website Builder

O empreendedorismo como necessidade, escolha e estratégia

Em um mercado onde talento por si só não basta, transformar criatividade em negócio exige estratégia, proteção jurídica e visão de futuro. È nesse cruzamento entre arte e empreendedorismo que atua Jamilla de Paula dos Santos.

A garota autista do Benedito Bentes, parte alta de Maceió, cresceu, recebeu o diagnóstico da neurodivergência aos 35 anos, e hoje se destaca na rede de economia criativa e no ecossistema de inovação de Alagoas.

Milla Pasan, como é conhecida, é artista visual e consultora especializada em economia criativa, propriedade intelectual e inovação. 

Empreendedora desde cedo – aos 16 anos já mediava galerias de arte no Sesc Centro, de Maceió – Milla transita no mercado empreendedor com uma bagagem de vida de uma mulher autista e periférica consciente de suas singularidades e de seus talentos, que não são poucos.

"Empreender se tornou um processo de resistência na minha vida e não foi e nem é o caminho mais fácil. É, simultaneamente, necessidade, escolha e estratégia".


Para compreender a fala categórica da Milla empreendedora, dita na conversa com o TNH1 há duas semanas, é necessário voltar no tempo, mais precisamente aos anos 1980, no bairro Benedito Bentes.

Milla é filha de uma mulher preta, mãe solo, na periferia da cidade. Desde cedo, apresentava características do autismo, como atraso na fala, dificuldade de contato visual e comportamentos repetitivos, sendo frequentemente vista como uma criança "estranha".

"Mas, ao mesmo tempo, eu era profundamente inteligente e foi essa inteligência que, de certo modo, funcionou como um mecanismo ambíguo de proteção: reduziu alguns impactos mais violentos, mas não me poupou do bullying constante ao longo de toda a minha trajetória acadêmica, até os dias de hoje".

Passou por diversos atendimentos médicos e terapêuticos, sem que houvesse um diagnóstico. "O que existia era uma sucessão de leituras fragmentadas e, muitas vezes, intervenções desconectadas entre si", lembra.

A necessidade de uma avaliação neuropsicológica esbarrou em uma barreira estrutural: o alto custo, inacessível para sua realidade.

"Lembro com precisão de uma pergunta que fiz ao neuropsicólogo: 'E agora, como eu busco ajuda sendo uma mulher autista?'. A resposta foi direta e, ao mesmo tempo, reveladora de uma lacuna estrutural grave: não existia um protocolo definido no SUS para acompanhamento de mulheres autistas adultas, e o atendimento na rede privada era escasso".

"O autismo em meninas e mulheres passa a ser também uma lente de leitura da realidade social. Ele me permite enxergar, com nitidez, as lacunas institucionais, a ausência de protocolos para mulheres autistas adultas, e a forma como determinados corpos simplesmente não eram/são considerados nas políticas públicas", avalia.

Mobirise Website Builder

MEU NEGÓCIO, MINHAS REGRAS

O diagnóstico do autismo não foi apenas uma resposta clínica. Foi um ato de nomeação que reorganizou passado, presente e possibilidades de futuro para Milla. Com a neurodivergência devidamente diagnosticada, ela parte para a busca de vivências e constrói uma carreira como empreendedora.

Sua produção artística nasce em um ateliê doméstico, em um dos quartos de sua casa, transformado em laboratório de linguagem. È nesse espaço que ela pesquisa, experimenta e estrutura obras que depois ganham circulação pública. O Instagram funciona como extensão desse processo, onde ela expõe e comercializa suas telas, que também já estiveram fisicamente em diversas exposições. A mais recente foi a exposição "Mulheres", no Museu Palácio Floriano Peixoto.

Paralelamente à produção artística, Milla estruturou uma carreira sólida como consultora. Doutoranda em Ciência da Propriedade Intelectual pela Universidade Federal de Sergipe, mestre em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação pela UFAL e graduada em Direito.

Ela também é consultora do Sebrae Alagoas, credenciada desde 2021 comandando oficinas, mentorias e inúmeras palestras e cursos sobre economia criativa, elaboração de projetos, empreendedorismo sustentável, entre outros.

"A capacidade de foco profundo e sustentado é uma das características essenciais relacionadas ao autismo que orienta minha atuação profissional. Quando entro em um tema: como Economia Criativa, Propriedade Intelectual, Direito Autoral ou Estruturação de Projetos, eu não entro de forma superficial. Eu mergulho. Isso me permite construir soluções consistentes, com rigor técnico, algo essencial quando se trabalha com ativos intangíveis e estratégias de longo prazo", explica.

"Também há uma atenção hiperintensa aos detalhes, que, no campo da propriedade intelectual, é critério decisivo. Uma nuance em um nome, um elemento gráfico, uma escolha de classe. Essa precisão técnica se tornou uma ferramenta de trabalho", ressalta.

Mobirise Website Builder

A Milla consultora Sebrae - Oficina de elaboração de projetos na Ilha do Ferro.

Mobirise Website Builder

A Milla empreendedora nas artes visuais - Telas nascem em ateliê e são comercializadas no Instagram.

Mobirise Website Builder

A Mila empreendedora com propriedade intelectual - Oficina durante a Semana de Design 2025.

ENFRENTANDO O CAPACITISMO SEM ROMANTIZAR O PROCESSO

Como empreendedora, Milla apresenta um perfil que tem muitas singularidades. Algumas delas, positivas. "Uma característica importante é uma certa independência de validação social imediata. Eu não opero necessariamente a partir do que está sendo mais aceito ou validado no momento. Isso me permite prestar atenção e escutar com cuidado o outro, propor caminhos menos óbvios, tanto na arte quanto nos negócios, e sustentar decisões estratégicas mesmo quando elas não são consensuais", afirma.

E outras, que podem ser limitantes. "A dificuldade de sociabilidade continua, o desgaste em ambientes com excesso de estímulos, a necessidade de previsibilidade e organização… tudo isso impacta diretamente a forma como eu empreendo porque eu adoeço", lamenta.

"Então, empreender, no meu caso, não foi apenas uma escolha. Foi também um processo de construção de um ambiente de trabalho possível para o meu funcionamento, pois o que sustenta meu trabalho não é apenas capacidade técnica. È o entendimento de como eu funciono e a construção de estratégias para que isso jogue a favor, e não contra", explica.

                                                               O DESAFIO DO CAPACITISMO

Ainda nesta reportagem mostraremos que 86,4% das pessoas não receberam treinamento sobre autismo no ambiente de trabalho. Veja detalhes do estudo mais abaixo.

O cenário traz dificuldades que Milla Pasan conhece bem. "Os maiores desafios que enfrentei e ainda enfrento, não dizem respeito apenas a mim enquanto indivíduo, mas à forma como o mundo está estruturado e ao capacitismo que atravessa essas estruturas", analisa.

"O primeiro deles é a sobrecarga sensorial. Ambientes de trabalho compartilhados, eventos, reuniões e espaços de networking considerados 'naturais' no campo do empreendedorismo e da inovação, muitas vezes são altamente agressivos para mim. Ruídos, luzes intensas e múltiplas interações simultâneas não são apenas desconfortáveis, são fatores que efetivamente me adoecem. E, ainda que hoje eu consiga me posicionar e nomear esses impactos, frequentemente não sou ouvida. Há uma invisibilização contínua. Isso exige de mim um nível constante de gestão do corpo e decisões estratégicas sobre onde e como estar", queixa-se.

O segundo desafio, elenca Milla, seria a sociabilidade como exigência produtiva. "Empreender, especialmente na economia criativa, pressupõe presença, articulação e construção de redes. Para mim, isso não é automático. Existe um custo elevado em interações sociais prolongadas. Muitas vezes, o esforço de socializar gera um estado posterior de exaustão que compromete diretamente minha capacidade de trabalho", diz.

"Eu não opero bem sob improviso constante ou em rotinas caóticas. Preciso de estrutura, clareza e organização. Em um mercado que valoriza a urgência, isso é frequentemente lido como limitação, quando, na verdade, é condição para que eu produza com qualidade e consistência", conclui.

                                                                "NÃO ROMANTIZAR O PROCESSO"

A consciência dos aspectos limitantes do autismo e outros impostos pela sociedade/mercado faz Milla ser categórica ao afirmar que "não romantiza" o processo onde está inserida como mulher e como empreendedora.

"Há um desafio transversal: não romantizar o processo. Existe uma tendência crescente de enquadrar o autismo como 'superpoder', especialmente no discurso empreendedor. Essa narrativa é perigosa porque apaga o esforço, o cansaço, o burnout e as barreiras concretas que atravessam essa experiência", esclarece.

"O que sustenta minha trajetória não é uma suposta vantagem, mas um trabalho contínuo de compreensão de mim mesma e de negociação com o mundo. Empreender, para mim, é, antes de tudo, criar condições de existência. Não se trata apenas de gerar renda ou estruturar negócios, trata-se de construir um modo possível de estar no mundo com dignidade, saúde e autonomia", diz.

Mobirise Website Builder

E-book grátis

Preferindo responder à entrevista ao TNH1 em formato de texto, Milla Pasan, em uma das respostas, nos apresentou ensinamentos e orientações que foram transformados neste e-book "6 passos simples, mas fundamentais, para autistas que querem empreender".

As 6 dicas de Milla são um conjunto de orientações ancoradas em sua prática e experiência, sobretudo na compreensão de que empreender não segue um modelo único, especialmente quando se trata de pessoas autistas.

Importante saber que os seis passos listados no e-book não devem ser interpretados como etapas rígidas, mas como fundamentos que se conectam: estrutura, comunicação, ritmo, rede e posicionamento, sempre a partir de uma perspectiva de sustentabilidade de um modelo de negócio a longo prazo.

"Antes de pensar em produto, serviço ou mercado, entenda como você funciona: Quais ambientes te regulam ou te desorganizam? Qual é o seu ritmo real de energia? Quanto tempo você consegue sustentar foco sem entrar em exaustão?", ensina Milla.

O e-book – download abaixo – não é um livro extenso ou um estudo aprofundado, mas apenas um pequeno manual com dicas simples, mas importantes para o universo do autista empreendedor.  

NÚMEROS QUE PRECISAMOS CONHECER

BRASIL TEM 2,4 MILHÕES
DE AUTISTAS

85% DOS ADULTOS AUTISTAS ESTÃO DESEMPREGADOS

86,4% DAS PESSOAS NUNCA RECEBERAM TREINAMENTOS SOBRE NEURODIVERSIDADE 

 TAXA DE ESCOLARIZAÇÃO - DE 36,9% - SUPERA A DA POPULAÇÃO GERAL

O Brasil descobrindo sua população autista


Os números acima são um quadro-resumo dos dados que o Brasil começa a descobrir sobre sua população autista. Aliás, somente em 2025 o país conheceu uma estimativa oficial de pessoas com TEA, quando foram divulgados os dados do Censo 2022. A pergunta sobre a existência de alguém na família diagnosticado com TEA por um profissional de saúde foi incluída no questionário do IBGE por força da Lei 13.861/2019.

No levantamento, foram identificadas 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA (1,2% da população brasileira). A prevalência do autismo é maior entre os homens: cerca de 1,4 milhões de homens e 1,0 milhão de mulheres.

Entre os grupos etários, a prevalência de diagnóstico de autismo foi maior entre os mais jovens: 2,1% no grupo de 0 e 4 anos de idade, 2,6% entre 5 e 9 anos, 1,9% entre 10 e 14 anos e 1,3% entre 15 e 19 anos. Esses percentuais representam, ao todo, 1,1 milhão de pessoas de 0 a 14 anos com autismo. Nos demais grupos etários, os percentuais oscilaram entre 0,8% e 1,0%.

                  MERCADO DE TRABALHO: 85% DOS AUTISTAS ESTÃO DESEMPREGADOS

Quando o tema é mercado de trabalho, os números de levantamentos do IBGE e de outras instituições apenas confirmam as impressões de especialistas e das próprias pessoas com TEA entrevistadas nesta série de reportagens do TNH1.

Segundo o Censo 2022, 85% dos adultos com autismo estão desempregados. O dado não surpreende diante das dificuldades de adaptação do mercado de trabalho tradicional em acolher essas pessoas, como mostrado nas reportagens.

Escolarização - Essa exclusão do mercado ocorre mesmo entre uma parcela da população com alto nível de escolarização. A taxa de escolarização da população com autismo no Brasil é de 36,9%, acima da observada na população geral (24,3%).

                     86,4% NÃO RECEBERAM TREINAMENTO NO AMBIENTE DE TRABALHO 

O ambiente corporativo insalubre para autistas, relatado por Milla e João Felipe (entrevistado na primeira reportagem da série), pode ter como uma de suas causas a ausência de políticas voltadas à melhoria da convivência e à conscientização.

O levantamento "Neurodiversidade no Mercado de Trabalho", realizado em 2024 pela consultoria Maya, em parceria com a Universidade Corporativa Korú, mostrou que 86,4% dos entrevistados nunca receberam treinamentos sobre neurodiversidade no ambiente de trabalho. O estudo ouviu 12 mil estudantes e profissionais.

Um dado que não soa estranho para nossa entrevistada, Milla Pasan. "O mercado não está preparado. E faço esse recorte a partir de Alagoas, que é onde eu vivo e atuo. O que existe, na maior parte dos casos, é uma expectativa de adaptação individual e não uma transformação estrutural dos ambientes", analisa a entrevsitada Milla Pasan.

"O mercado ainda opera a partir de um modelo de sujeito 'padrão: comunicativo, altamente sociável, adaptável a estímulos intensos, produtivo sob pressão e confortável em ambientes caóticos. Esse modelo não é neutro! Ele exclui, de forma sistemática, pessoas neurodivergentes", lamenta e acrescenta...

"Quando se fala em inclusão, o que geralmente se oferece são ajustes pontuais e superficiais, que não alteram a lógica de funcionamento dos espaços. Na prática, a responsabilidade continua sendo deslocada para o indivíduo: é a pessoa neurodivergente que precisa se adaptar, performar, regular o próprio corpo e encontrar estratégias para caber".

ENTREVISTA
Geórgia Nunes -
Gestora Nacional
do Sebrae Plural

"Pessoas no espectro autista são plenamente capazes, mas precisam desse
direcionamento claro para superar barreiras sociais"

O TNH1 conversou com a Gerente Unidade de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional, que engloba o Sebrae Plural, Geórgia Nunes.  

Como está o cenário do empreendedorismo inclusivo no país. Esses grupos sub-representados têm buscado o suporte do Sebrae?
Sim, há uma busca crescente, mas o Sebrae tem sido proativo em fomentar o atendimento a esses grupos, que muitas vezes desconhecem os canais de apoio. Na Unidade de Empreendedorismo, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional, priorizamos mulheres, negros, PCDs, LGBTQIAP+, 60+, indígenas, quilombolas e atuação em ESG.
Sabe-se que 85% das pessoas autistas adultas estão fora do mercado de trabalho formal no Brasil, conforme dados do IBGE | Publicação: Pesquisa Nacional de Saúde.
E 38,1% dos empreendedores com deficiência [Os autistas são classificados como PCD] possuem ensino superior completo. 

E há outras barreiras?
Existem dados ainda mais preocupantes, além da exclusão nos postos de trabalho, eles enfrentam preconceito na aquisição de linhas de crédito, o que os leva a empreender.

Pelo Programa Plural, os estados realizam seus planejamentos priorizando esses públicos, propõem projetos personalizados e oferecem letramento empreendedor, capacitações, orientação para crédito e acesso a mercados. Isso democratiza oportunidades e impulsiona negócios inclusivos.
Isso democratiza oportunidades e impulsiona negócios inclusivos.

Os empreendedores autistas têm singularidades que impulsionam, como hiperfoco e há fatores limitantes, como socialização. O trabalho do Sebrae atua nessas singularidades?
Sim, as consultorias do Sebrae são ideais para isso. Elas oferecem um passo a passo prático e estruturado, guiando o empreendedor "pela mão" com ferramentas personalizadas, como treinamentos em comunicação assertiva, estratégias de networking adaptadas e gestão financeira, entre outros. Recentemente publicamos um manual de atendimento aos grupos sub-representados, onde todas as pessoas que trabalham com atendimento podem conhecer as especificidades de cada público e atendê-los com mais empatia e profissionalismo.

Seria uma espécie de direcionamento?
Pessoas no espectro autista são plenamente capazes – muitas vezes com vantagens como foco intenso e criatividade única, mas 

 

precisam desse direcionamento claro para superar barreiras sociais e desenvolver o lado empreendedor para os negócios.
Programas como o curso gratuito "Negócios com Sentido: Empreender no Espectro" reforçam isso, transformando características autistas em forças empreendedoras.

Como surgiu e foi pensado o Sebrae Plural?
O Programa Nacional Plural surgiu em 2023, lançado pelo Sebrae Nacional, como iniciativa estratégica para promover o empreendedorismo inclusivo direcionado a grupos sub-representados. 

Temos um documento de referência do Programa Plural, que se baseia-se no tripé Diversidade – Inovação – Competitividade, alinhado ao Planejamento Estratégico Sebrae 2035 e aos ODS (8, 5 e 10), com o objetivo de ampliar negócios liderados por esses públicos via relacionamento acolhedor e ações transformadoras.

E quais os projetos do Sebrae Plural estão em andamento? 
O Programa Plural abrange PCD (incluindo TEA/autismo) como público prioritário. Temos projetos específicos para autistas em 2025-2026 entre eles "Empreendedorismo inclusivo é alternativa para ampliar o número de pessoas autistas no mercado de trabalho"; "Negócios com Sentido: Empreender no Espectro"; e "Empreendedorismo inclusivo abre novas oportunidades no Sebrae.

Mobirise Website Builder
NA PRÓXIMA REPORTAGEM...

Encerrando a série "Empreendedores no espectro", você confere a história de Netinho. Autista grau 2 de suporte, que empreende com a ajuda da mãe em uma loja que se transformou em seu universo particular. 

Na mesma reportagem você confere entrevista com Clarice Carvalho, autista, ativista e autora do livro que traz uma investigação inédita sobre o empreendedorismo entre indivíduos com Transtorno do Espectro do Autismo.

TNH1