Falta de políticas públicas estruturantes
A responsabilidade não pode ser atribuída a um único agente. Prefeituras, governos estaduais e a União possuem papéis definidos na política urbana e ambiental. Quando não há:
Plano Diretor atualizado e aplicado;
Fiscalização da ocupação irregular;
Investimentos contínuos em drenagem urbana;
Manutenção periódica de galerias e canais;
Política habitacional para retirar famílias de áreas de risco;
o resultado aparece nas manchetes e nos abrigos improvisados.
O problema não está apenas na chuva intensa, mas na ausência de prevenção.
Mudanças climáticas agravam o cenário
Eventos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos. O aquecimento global contribui para chuvas concentradas em curto período de tempo, aumentando o volume de água que precisa ser escoado rapidamente. Cidades que já eram frágeis tornam-se ainda mais vulneráveis.
Isso exige planejamento climático, mapeamento de áreas de risco e obras estruturantes pensadas para as próximas décadas — não apenas para o próximo inverno.
E a população?
A sociedade também integra essa equação. O descarte irregular de lixo contribui para o entupimento de bueiros e galerias. A pressão por moradia, muitas vezes sem alternativas habitacionais oferecidas pelo poder público, leva à ocupação de áreas inadequadas.
Mas é importante destacar: a maior responsabilidade recai sobre o poder público, que detém os instrumentos legais e orçamentários para planejar e executar políticas preventivas.
Tragédia anunciada
Quando um bairro alaga todo ano, não se trata mais de 'desastre natural'. Trata-se de omissão. Quando uma encosta já mapeada como área de risco desmorona, não é surpresa — é negligência histórica.
A recorrência das cheias expõe a desigualdade social: quem mais sofre são as populações periféricas, que vivem onde o mercado formal não chega e onde o Estado chega pouco.
A pergunta que permanece
Quem é responsável?
A resposta é coletiva, mas institucionalmente concentrada: gestores públicos que não priorizam planejamento urbano e ambiental, políticas que não saem do papel e uma cultura administrativa que age mais na emergência do que na prevenção.
Enquanto a gestão continuar sendo reativa, a cada nova temporada de chuvas repetiremos o mesmo lamento — e as mesmas imagens.
Talvez o maior desastre não seja a chuva.
Seja a previsibilidade da tragédia."