Contextualizando

"A recorrência dos desastres naturais nas cidades brasileiras'"

Em 22 de Fevereiro de 2026 às 14:00

Jornalista Keyler Simões, em seu blog:

"A cada início de verão se prolongando até o inverno, o roteiro se repete nas cidades brasileiras: ruas alagadas, casas invadidas pela água, famílias desalojadas, comércio fechado e prejuízos que se acumulam ano após ano. As imagens se tornam familiares — carros submersos, pontes interditadas, encostas deslizando — como se a tragédia fosse um fenômeno inevitável. Mas será mesmo?

As cheias provocadas pelas chuvas não são, em si, um problema novo. O que se repete é a vulnerabilidade das cidades diante delas. O volume de água pode ser natural; o desastre, quase sempre, é social e político.

Grande parte das cidades brasileiras cresceu sem planejamento adequado. Áreas de várzea — naturalmente destinadas ao escoamento dos rios — foram ocupadas por moradias. Encostas frágeis receberam construções sem infraestrutura. Canais foram aterrados, lagoas drenadas, manguezais destruídos. O que antes absorvia água passou a repelir.

A impermeabilização excessiva do solo com asfalto e concreto impede a infiltração da água da chuva. Sem drenagem eficiente, a água corre rapidamente para os pontos mais baixos, sobrecarregando galerias e rios.

Falta de políticas públicas estruturantes

A responsabilidade não pode ser atribuída a um único agente. Prefeituras, governos estaduais e a União possuem papéis definidos na política urbana e ambiental. Quando não há:

Plano Diretor atualizado e aplicado;

Fiscalização da ocupação irregular;

Investimentos contínuos em drenagem urbana;

Manutenção periódica de galerias e canais;

Política habitacional para retirar famílias de áreas de risco;

o resultado aparece nas manchetes e nos abrigos improvisados.

O problema não está apenas na chuva intensa, mas na ausência de prevenção.

Mudanças climáticas agravam o cenário

Eventos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos. O aquecimento global contribui para chuvas concentradas em curto período de tempo, aumentando o volume de água que precisa ser escoado rapidamente. Cidades que já eram frágeis tornam-se ainda mais vulneráveis.

Isso exige planejamento climático, mapeamento de áreas de risco e obras estruturantes pensadas para as próximas décadas — não apenas para o próximo inverno.

E a população?

A sociedade também integra essa equação. O descarte irregular de lixo contribui para o entupimento de bueiros e galerias. A pressão por moradia, muitas vezes sem alternativas habitacionais oferecidas pelo poder público, leva à ocupação de áreas inadequadas.

Mas é importante destacar: a maior responsabilidade recai sobre o poder público, que detém os instrumentos legais e orçamentários para planejar e executar políticas preventivas.

Tragédia anunciada

Quando um bairro alaga todo ano, não se trata mais de 'desastre natural'. Trata-se de omissão. Quando uma encosta já mapeada como área de risco desmorona, não é surpresa — é negligência histórica.

A recorrência das cheias expõe a desigualdade social: quem mais sofre são as populações periféricas, que vivem onde o mercado formal não chega e onde o Estado chega pouco.

A pergunta que permanece

Quem é responsável?

A resposta é coletiva, mas institucionalmente concentrada: gestores públicos que não priorizam planejamento urbano e ambiental, políticas que não saem do papel e uma cultura administrativa que age mais na emergência do que na prevenção.

Enquanto a gestão continuar sendo reativa, a cada nova temporada de chuvas repetiremos o mesmo lamento — e as mesmas imagens.

Talvez o maior desastre não seja a chuva.

Seja a previsibilidade da tragédia."

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