Veja como a atividade estimula habilidades importantes, mas pode perder parte desse potencial quando os adultos assumem o controle e aceleram o processo
Com a febre dos álbuns de figurinhas da Copa do Mundo mobilizando crianças, adolescentes e famílias em todo o país, uma prática tradicional ganha novos significados. Muito além de uma simples coleção, o álbum pode se transformar em uma poderosa ferramenta de desenvolvimento emocional e social.
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No entanto, segundo Priscilla Montes, educadora e especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil, muitos adultos acabam interferindo em um processo que deveria ser conduzido pelas próprias crianças. Para ela, a busca pelas figurinhas, as trocas e até mesmo as páginas incompletas representam oportunidades valiosas de aprendizagem que vão muito além do objetivo de finalizar o álbum.
“Quando observamos uma criança tentando completar um álbum, estamos vendo muito mais do que alguém procurando figurinhas. Existe ali uma experiência de negociação, espera, tolerância à frustração, construção de autonomia, mediação de conflitos e aprendizagem das relações humanas”, afirma.
Em uma sociedade marcada pela imediatidade, em que praticamente tudo pode ser obtido com poucos cliques, a experiência de colecionar figurinhas resgata um elemento cada vez mais raro: a espera. Segundo a educadora, é justamente nesse intervalo entre o desejo e a realização que ocorre parte importante do desenvolvimento emocional infantil.
“A criança aprende que nem tudo acontece no momento em que deseja. Ela precisa esperar novos pacotes, novas oportunidades de troca e lidar com o fato de que determinada figurinha ainda não apareceu. Esse processo contribui para o desenvolvimento da paciência, da persistência e da capacidade de enfrentar frustrações”, explica.
Outro aspecto destacado por Priscilla Montes é o papel das trocas presenciais. Os encontros para negociar figurinhas funcionam como verdadeiros laboratórios sociais, nos quais crianças e adolescentes exercitam competências que serão fundamentais ao longo da vida.
“Nesses momentos, elas aprendem a argumentar, defender seus interesses, ouvir o outro, fazer acordos, lidar com recusas e resolver pequenos conflitos. São habilidades que dificilmente podem ser ensinadas apenas por meio de discursos”, observa.

A educadora percebe um movimento crescente de adultos que assumem o protagonismo da atividade. Em muitos casos, pais negociam as trocas, determinam quais figurinhas devem ser trocadas ou recorrem à compra de grandes quantidades de pacotes para completar rapidamente o álbum.
“Apoiar é diferente de assumir o processo. Quando os adultos eliminam rapidamente as dificuldades ou ocupam todos os espaços de negociação, acabam reduzindo oportunidades importantes de desenvolvimento”, alerta.
Priscilla Montes também chama atenção para uma mudança no foco da atividade. Em algumas situações, discussões sobre raridade, lucro, valorização e revenda das figurinhas passam a ocupar o centro da experiência, transformando uma brincadeira em uma espécie de operação financeira.
“Vale refletir sobre o que estamos ensinando às crianças. Estamos ajudando apenas a completar um álbum ou também a construir relações, negociar, esperar e lidar com processos?”, questiona a especialista.
Para Priscilla Montes, o principal aprendizado proporcionado pelo álbum não está na última figurinha colada, mas em todo o percurso realizado até ela. “O desenvolvimento não acontece apenas quando a criança alcança um objetivo. Muitas das competências emocionais e sociais mais importantes são construídas justamente durante a caminhada”, conclui.
Por Karen Benevides
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