Contextualizando

Análise: “O STF exige supremacia ética”

Em 31 de Janeiro de 2026 às 18:00

Escritor e antropólogo Roberto DaMatta:

“Tudo o que fiz na minha longa vida foi, no papel ou cargo de professor, ensinar. Estreei no ensino superior da Faculdade Fluminense de Filosofia, aqui em Niterói, onde, quando estudante, encontrei minha primeira mulher. Jamais desliguei minha vida profissional de uma ética de imparcialidade.

Minha vida de pesquisador em Etnologia me levou a viver com os indígenas Gaviões e Apinajés. Esse trabalho me conduziu à docência no Museu Nacional e na Universidade Federal Fluminense, bem como aos EUA e à Inglaterra e França. Terminei minha carreira docente melancolicamente na PUC-RJ.

Viver o papel de professor não é fácil, pois, como todo cargo público, ele demanda uma pesada exigência de fidelidade. Por exemplo: jamais deixei de respeitar minha ignorância antes de minhas aulas. Na sala de aula, topei com gente esperta e burra, além de malandros, indiferentes; e os interessados em tirar uma boa nota, tal como alguns políticos e a multidão que tem o ‘arrumar-se’ como projeto de vida.

Tive minha cota de dilemas como ser pressionado a dar uma nota razoável, porque o aluno, embora vadio, era filho de um amigo. Nos últimos anos, resisti à pressão de escolher ensinar Antropologia ou militância ideológica.

Nunca precisei de um ‘código de conduta’ para os dilemas morais inerentes ao papel de professor. Minha lealdade sempre foi a de professar de Antropologia Social do modo mais sincero possível. O salário baixo, o posicionamento ideológico ou a amizade jamais me fizeram duvidar da ética weberiana exigida pela ciência como vocação.

Nobres ministros, um Supremo Tribunal Federal exige supremacia ética. Ninguém está atacando a instituição, o que está sendo exposta é a nossa vergonha ante a incapacidade de alguns ministros vestirem a imparcialidade. O papel-cargo de juiz obriga a neutralizar o de marido, irmão e amigo. A impessoalidade não pode ser um tabu incapaz de neutralizar dilemas entre as demandas de pessoalidade dos papéis familiares e as exigências de impessoalidade universalista requeridas pelo cargo de juiz do Supremo. Sem essa consciência, permaneceremos frustrados com a dimensão universalista do projeto democrático cujo eixo é a impessoalidade.

Nosso problema não é o Tribunal, a Presidência ou o Congresso. É a nossa aversão à imparcialidade requerida pela aplicação das leis e a consequente impessoalidade exigida por certos papéis essenciais ao funcionamento da Justiça. Sem ela, a confiança na Justiça perde para o jeitinho, a malandragem, o ‘sabe com quem está falando’ e o patrimonialismo que facilita a corrupção. Não é possível democracia num sistema que torna a imparcialidade um tabu e sistematicamente a escamoteia.”

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