Contextualizando

Análise: "O Supremo Tribunal Federal no banco dos réus"

Em 12 de Fevereiro de 2026 às 17:40
Jornalista Amanda Klein:
"Demorou menos de uma semana entre a quebra da criptografia do celular do dono do Master, Daniel Vorcaro, e a explosão da primeira bomba em Brasília. Apesar das notórias e extensas conexões políticas do banqueiro, o alvo foi o Supremo Tribunal Federal. Foro que na última década tornou-se muito mais político que jurídico, seja para dar a última palavra em questões inerentes ao Legislativo, seja como árbitro da intrincada teia de Brasília.
À medida que o Supremo Poder se olha no espelho, caberá em primeiro lugar aos próprios ministros decidirem se acolhem ou não a suspeição de um dos pares, o ministro Dias Toffoli. Segundo revelou a colunista Mônica Bergamo, ele era sócio junto com os irmãos do Tayayá Resort, cuja participação foi vendida para um fundo de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero. O conselho do presidente do STF, Edson Fachin, foi premonitório: se a própria corte não adotar uma autolimitação, haverá 'limitação por um poder externo'.
É a tempestade perfeita em ano eleitoral, arrastando o Supremo para o centro da guerra política. A rápida erosão de credibilidade do ator tido como algoz dos bolsonaristas é prato cheio para a direita. O impeachment de ministros do Supremo tende a ganhar força como bandeira de candidatos ao Senado. Já a esquerda enxerga o STF como aliado que condenou golpista e defendeu a democracia.
O governo Lula fica em posição delicada. Apesar de defender a investigação ampla do caso Master - com plena autonomia para a PF e o Banco Central - e estar insatisfeito com o comportamento de Toffoli, não tem interesse em ver o STF enredado na crise. Minoritário no Congresso, o petismo contou com o apoio do Supremo para reverter derrotas na Câmara e no Senado em uma série de matérias, da economia ao meio ambiente.
Apesar da tensão entre os poderes, há igualmente uma relação de interdependência. Um protege o outro. O Congresso barra o impeachment de ministros e evita leis que limitem o poder da corte, enquanto o STF protege caciques políticos de investigações explosivas. Um dia essa corda pode roer. Estamos só no começo das revelações do celular que pode mudar o rumo dos acontecimentos em Brasília."

Gostou? Compartilhe