Contextualizando

As afinidades entre os regimes do Brasil e do Irã

Em 20 de Janeiro de 2026 às 17:29

Texto de Nuno Vasconcellos:

"... A primeira explicação para o apoio do governo brasileiro ao regime iraniano está nas afinidades ideológicas, no antiamericanismo e no antissemitismo que, infelizmente, vêm se encastelando no Itamaraty desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Numa diplomacia que trocou a conduta técnica e profissional por motivações ideológicas, as manifestações de apoio ao Irã, tomadas sob influência do assessor para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, tornaram-se recorrentes e já expuseram o Brasil a dezenas de situações vexatórias. Duas merecem ser relembradas.

A primeira foi a presença do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), ao lado de um bando de líderes terroristas, na posse do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, no dia 30 de julho de 2024. Detalhe: naquele momento, reféns eram mantidos em calabouços e o Exército de Israel combatia o Hamas na Faixa de Gaza.

Alckmin ocupou um assento a poucos metros do chefão do grupo, Ismail Haniyeh. Uma das raras autoridades do Ocidente na posse, Alckmin ainda estava no Irã no momento em que, poucas horas depois do evento,Haniyeh foi alvo de uma ação precisa dos órgãos de inteligência de Israel. No ataque, o terrorista que foi um dos idealizadores dos atentados de 7 de outubro de 2023 foi “neutralizado” e saiu definitivamente de cena.

O outro caso é menos famoso, mas igualmente constrangedor. No dia 18 de julho de 2024, Celso Amorim participou, em Washington, de um evento promovido por uma ONG pacifista americana. Em certa altura, o diplomata ultrapassou todos os limites de civilidade ao atribuir às agressões sistemáticas sofridas por mulheres no Irã o mesmo peso da pena de morte, que ainda é prevista em alguns estados americanos.

'Não concordo com o tratamento que as mulheres recebem no Irã. Mas não concordo com a pena de morte que ainda existe nos Estados Unidos', disse o brasileiro. O americano Dan Baer, que é ligado ao Partido Democrata e já foi embaixador dos Estados Unidos junto à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), reagiu de forma desconcertante.

Depois de criticar a pena de morte, Baer mencionou o aparato jurídico e realçou o sólido direito de defesa que vigora nos estados que ainda executam autores de crimes hediondos. Então, encarou Amorim e disparou: 'Traçar um equivalente entre a aplicação da pena de morte e o regime iraniano não é moralmente respeitável. E acho que mina a credibilidade moral daqueles que fazem esse tipo de equivalência'.

A afinidade ideológica de Brasília com a ditadura teocrática do Irã, por mais rejeitada que seja pelos brasileiros que não pretendem renunciar à própria “credibilidade moral”, é, sim, o principal motivo por trás da nota vergonhosa emitida pelo Itamaraty em resposta à repressão que vem acontecendo no Irã desde o dia 28 de dezembro. A ordem dada à “guarda revolucionária” de atirar para matar deixou as ruas cobertas de cadáveres.

Diante da violência extrema, e para tentar esconder a carnificina, o regime mandou cortar a internet e obstruir toda a comunicação do Irã com o mundo. O saldo foi tão macabro que o mundo, até agora, não sabe se os mortos devem ser contados em centenas, em milhares ou em dezenas de milhares. Dados mais ou menos oficiais dão conta de aproximadamente 700 mortos.

Uma ONG instalada na Noruega, que monitora os direitos humanos no Irã, fala em mais de 3.000 corpos empilhados nos necrotérios. Algumas fontes apontam números ainda mais elevados: mais de 20 mil pessoas assassinadas e mais de 30 mil manifestantes arrastados para as prisões – alguns, inclusive, sentenciados sem direito à defesa à pena de morte que Amorim condena nos Estados Unidos.

Esses números tão discrepantes, por si só, já dão a dimensão da anormalidade que toma conta do país. Como a censura é pesada e impede a coleta de dados confiáveis, a verdade se torna relativa e cada um acaba se agarrando às informações que melhor se ajustam às suas convicções. Para quem observa de fora, porém, não há dúvida quanto ao essencial: trata-se de uma ditadura que massacra seu próprio povo.

E o Brasil? Bem... o Brasil guardou silêncio obsequioso nos primeiros dias da caçada que a ditadura promoveu contra seu próprio povo. Depois, o Itamaraty se limitou a emitir uma das notas mais patéticas que já soltou em apoio a ditaduras: “O Brasil lamenta as mortes e transmite condolências às famílias afetadas. Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”, diz o texto.

Teria sido melhor o silêncio. A nota só foi emitida depois que circularam informações de que, para conter o massacre desenfreado de civis, o governo dos Estados Unidos cogitou atacar o Irã e dar o empurrão final para expulsar os aiatolás do poder (possibilidade que, até o momento, não foi descartada).

Para o Itamaraty, no entanto, o povo desarmado, que é alvo das balas da ditadura, teria força suficiente para dialogar de igual para igual com os aiatolás, que só entendem a linguagem da violência..."

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