Contextualizando

Banco Master: precatório de usina foi vendido em esquema de fraude

Em 25 de Fevereiro de 2026 às 18:00

Jornalista Daniel Weterman:

"O Bnco Master se beneficiou de uma negociação fraudulenta ao comprar um precatório de uma usina do Grupo João Santos, que entrou em recuperação judicial, e incorporar o ativo em seu balanço enquanto atuava no mercado financeiro. O dinheiro arrecadado com a venda foi enviado por antigos donos do conglomerado para o exterior em movimentações suspeitas, conforme documentos aos quais o Estadãoteve acesso.

O antigo dono do grupo, Fernando Santos, disse à reportagem que o negócio ocorreu nos parâmetros de mercado, levando em conta a situação do processo no momento (leia mais abaixo). A atual gestão afirmou que a decisão foi tomada pela diretoria anterior de forma isolada e que a operação deixou um prejuízo da ordem de R$ 1,8 bilhão na empresa. O dono do Master Daniel Vorcaro, não se manifestou.

A operação envolve um precatório bilionário do Grupo João Santos, um dos maiores conglomerados do País até o início dos anos 2000, que foi parar no banco de Vorcaro após ser vendido por menos de 20% do valor pelo qual era avaliado. Trata-se de um direito creditório — ou, no jargão financeiro, um “pré-precatório”. É um dinheiro que uma empresa tem para receber da União e cujo processo ainda não tramitou de forma definitiva na Justiça.

O Master comprou esse tipo de crédito enquanto emitia Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) prometendo rentabilidade muito acima do mercado. A instituição foi liquidada pelo Banco Central em novembro do ano passado após ser identificada uma série de fraudes em negociações com o Banco de Brasília (BRB). Vorcaro chegou a ser preso e o processo corre no Supr3emo TribunalmFederal (STF).

A origem do precatório bilionário vem de uma condenação da União para indenizar as usinas do setormsucroalcooleiro que obtiveram prejuízos na fixação de preços pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) entre junho de 1989 a maio de 1994. O governo federal foi condenado a pagar os prejuízos em 2012, mas continuou contestando a decisão e o processo se arrasta até hoje.

Uma das beneficiadas pela indenização foi a Companhia Agro Industrial de Goiana (Caig), dona da Usina Santa Tereza, em Pernambuco, empresa do Grupo João Santos. O grupo entrou em recuperação judicial junto com 43 companhias do conglomerado.

A União foi condenada a pagar R$ 983 milhões para a usina, dos quais R$ 171 milhões já não são mais questionados e o restante ainda está em discussão. O valor total do precatório cresceu, em razão do tempo e das atualizações, e hoje é calculado em R$ 2,2 bilhões.

O antigo controlador do grupo, Fernando Santos, negociou a venda do ativo para o Master (na época, chamado de Banco Máxima). As transferências ocorreram de forma fracionada em diversas parcelas, durante os anos de 2019 a 2020, para uma cadeia de fundos de investimento que tinham o Master por trás. São eles: Amazonita, Luna, Noruega, Atenas, Dublin e Horizon.

No caso dos fundos Amazonita e Horizon, o Master era o cotista majoritário, conforme documentos entregues pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM ) à Justiça. Nos demais, o crédito entrou nos fundos e depois foi transferido para o Master ou para outros fundos ligados ao banco. A suspeita é que todos tenham sido usados pelo Master para fazer operações no mercado financeiro.

O conglomerado pernambucano recebeu R$ 180 milhões com a venda, quando o precatório já valia R$ 1 bilhão. Os fundos, por sua vez, venderam os papéis para o banco de Daniel Vorcaro, conforme documentos entregues pelo Grupo João Santos e pelo Master na Justiça.

Relatórios entregues pela atual gestão do Grupo João Santos à Polícia Federal e à Justiça apontam que, do dinheiro que o grupo recebeu, R$ 32 milhões foram remetidos para três empresas na Suíça (Agricultural, Cement & Land e Sugar & Land) entre 2019 e 2022.

Os valores foram movimentados em contas mantidas no Master. Outros R$ 75 milhões foram enviados para contas de Gustavo Elijah Figueiredo Góes, genro de Fernando Santos, e de empresas ligadas à família.

Em função do nome nas empresas na Suíça, os repasses foram apelidados de Operação La La Land. As transferências foram usadas sob o pretexto de pagar a variação cambial de contratos de empréstimos em dólar. As empresas emprestaram US$ 100 milhões ao grupo cerca de um mês após as suas criações, e são suspeitas de terem sido usadas pelos antigos donos para simular dívidas e mandar dinheiro para o exterior.

Fernando, Gustavo e outras pessoas e empresas ligadas à família foram investigados na Operação Background, da Polícia Federal, e são suspeitos de lavagem de dinheiro, organização criminosa e outros crimes cometidos no controle das empresas, incluindo a remessa de recursos para o exterior. Os documentos indicam que o dinheiro arrecadado com a venda do precatório integrou o esquema..."

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