O Brasil agora reconhece oficialmente a existência de montanhas, após a criação do Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR) pelo IBGE, que estabelece critérios técnicos para a classificação do relevo nacional. Essa mudança é significativa, pois altera a percepção sobre a geografia do país, que antes não considerava suas elevações como montanhas devido à falta de um padrão definido.
O SBCR define montanhas como elevações com pelo menos 300 metros de altura em relação às áreas vizinhas, além de exigir encostas íngremes e topos pontiagudos. A nova classificação inclui montanhas em 14 estados, com destaque para Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Ceará, enquanto elevações como o Monte Roraima permanecem como planaltos.
O IBGE planeja divulgar um mapa definitivo das montanhas brasileiras em 2026, e as definições para os outros quatro táxons de relevo devem ser finalizadas nos próximos anos. Essa iniciativa visa padronizar a classificação do relevo no Brasil, promovendo uma melhor compreensão geográfica do território.
É uma frase que pode ser encontrada em qualquer apostila de Geografia: “o relevo do Brasil é formado por planaltos, planícies e depressões”. Na boca do povo, porém, isso não existia: bastava olhar para o horizonte em regiões serranas para ver as elevações rochosas que muitos brasileiros se acostumaram a chamar de montanhas.
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O debate acontece porque não existe uma definição universal e absoluta para montanhas. Cada país estabelece seus próprios critérios. Nos EUA, uma montanha é geralmente sinalizada como uma elevação com 1.000 pés (304,8 m) de altura ou mais. No Reino Unido, são necessários pelo menos 2.000 pés (609,6 m) de altura para ser montanha, mesmo padrão adotado pela União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA). Na Noruega, não há critério.
Não é só isso: elevação, volume, relevo, declividade, espaçamento e continuidade são critérios que também podem ser usados para definir uma montanha, além da altura. Na Alemanha, por exemplo, utiliza-se o conceito de “Reliefenergie” (“energia do relevo”) em vez de apenas altitude absoluta. “Reliefenergie” é basicamente a diferença de altitude entre o ponto mais alto e o mais baixo de uma determinada área. Por isso, uma região a 700 m de altitude pode parecer muito mais “montanhosa” que um planalto a 2.000 m relativamente plano.
No Brasil, a situação era meio delicada. Nosso país está localizado no interior da placa tectônica sul-americana, longe de zonas modernas de colisão. Isso significa que o país não forma grandes cordilheiras jovens e que as elevações que já existem são muito antigas, erodidas ao longo de milhões de anos, o que deixou o relevo mais arredondado, sem muitos picos pontiagudos.
Por causa disso, muitos especialistas entendiam que o Brasil não tinha montanhas. Agora, isso mudou.
O cenário mudou em 2026
Em 2019, o IBGE resolveu montar uma força-tarefa para criar um sistema unificado de classificação de relevo, já que o Brasil ainda não tinha isso. A metodologia já existia, faltava um padrão. Assim surgiu o Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR), cujo grupo de autores tem se reunido desde então para discutir o assunto.
A missão principal do SBCR é estabelecer os cinco níveis taxonômicos (táxons) dos grandes conjuntos de relevo do Brasil. A missão foi parcialmente finalizada em 2026, quando os especialistas chegaram a um consenso técnico sobre os cinco conceitos geomorfológicos que compõem o primeiro táxon:
1) Montanhas: Precisam ter pelo menos 300 m de altura em relação às áreas vizinhas, encostas íngremes e topo pontiagudo. Também não podem estar sozinhas: precisam fazer parte de conjuntos montanhosos ou serras. Exemplos: Dedo de Deus (RJ) e montanhas da Serra dos Órgãos (RJ).
2) Planaltos: São relevos elevados (ao menos em uma de suas bordas) em relação às superfícies adjacentes. Podem ter superfícies planas ou mais irregulares, com diferentes inclinações e altitudes. Essas formações surgem ao longo do tempo pela ação da erosão sobre diferentes tipos de rochas.
3) Planícies: São áreas de relevo predominantemente plano, formadas por sedimentos mais recentes e pouco consolidados. Nessas regiões, o acúmulo de materiais é maior do que o desgaste causado pela erosão, criando diferentes formas de paisagem moldadas pela ação de rios, mares, lagos, lagoas e ventos.
4) Superfícies Rebaixadas: São áreas de relevo mais baixo do que as regiões ao redor, formadas principalmente pelo desgaste do terreno ao longo do tempo. Costumam apresentar inclinações suaves ou moderadas e pequenas a médias variações de altitude. Podem surgir entre planaltos, entre montanhas ou próximas às bordas do relevo, às vezes preservando elevações isoladas que resistiram melhor à erosão.
5) Tabuleiros: São formas de relevo geralmente recortadas pela erosão, com superfícies planas ou levemente onduladas. Podem apresentar níveis em forma de degraus, inclinações suaves e bordas mais íngremes. Normalmente têm baixa altitude, entre cerca de 20 e 250 metros, e são formados por sedimentos relativamente recentes e pouco endurecidos.
Os critérios técnicos completos podem ser encontrados na Revista Brasileira de Geografia, Vol. 67, no 2.
Segundo o IBGE, as montanhas existem em 14 estados do país. O Rio de Janeiro é o campeão em território proporcional, mas as maiores áreas montanhosas estão em Minas Gerais, Bahia e Ceará. Os picos que existem no meio da Floresta Amazônica agora entram oficialmente na categoria de montanhas.
Curiosamente, o novo critério deixa de lado o Monte Roraima, que continua sendo Planalto porque não atende à regra do “topo pontiagudo”, assim como o Pão de Açúcar (RJ) e o Pico do Cabugi (RN), que não cumprem o requisito de precisar fazer parte de um grupo. Várias outras elevações famosas do Brasil também não se qualificaram como montanhas. O IBGE pretende divulgar um mapa definitivo com todas as montanhas do Brasil ainda em 2026. As definições dos quatro táxons seguintes devem sair nos próximos anos.
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