Brasileira namorou por anos um espião russo infiltrado no Brasil sem saber

Publicado em 16/06/2026, às 14h16
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Por GQ Brasil

Stephanie Arcanjo, uma anfitriã de balada, descobriu que seu ex-parceiro, Eric Fauchere, era na verdade um espião russo, após ser convocada pela Polícia Federal para depor sobre o relacionamento que durou cinco anos.

Eric, que se apresentou como um investidor, criou uma nova identidade no Brasil e se envolveu em atividades de espionagem, aproveitando brechas legais para se estabelecer no país, enquanto mantinha um relacionamento íntimo com Stephanie.

Após a prisão de outro espião russo, a relação entre Stephanie e Eric se deteriorou, culminando em um pedido de Eric para que ela fechasse a joalheria que haviam fundado juntos, antes de desaparecer, deixando Stephanie em um estado de confusão e desilusão.

Resumo gerado por IA

Em 2018, Stephanie Arcanjo, 36, trabalhava como anfitriã na Rey Castro, então uma balada de música latina na Vila Olímpia, quando um cliente insistiu em chamá-la para sair. O homem se apresentou como Eric Fauchere, um investidor brasileiro criado na França pelo pai português e filho de uma mulher francesa, que havia morrido após o parto. Aos 20 anos, dizia ter se mudado para a Bélgica até voltar ao Brasil, aos 30, o que explicava o forte sotaque francês.

Ele não era o tipo de Stephanie, mas isso não importava. Ela não estava ali para flertar. Durante a semana, fazia faxinas. Aos fins de semana, recepcionava os clientes da casa para ajudar no sustento da filha pequena. Além do mais, Eric parecia ansioso no papo, apesar de mais educado do que os caras que costumavam abordar as funcionárias. “Ele é um gentleman”, disse uma gerente a ela. Após semanas de insistência de Eric e das colegas, ela o fez esperar até o fim do expediente, às 5 da manhã, para dizer que topava o convite para um almoço nos dias seguintes. Os dois se encontraram em um restaurante na Santa Cruz; ele não tentou nada.

Mas Eric Fauchere não era quem dizia ser. Na verdade, ele nunca havia existido de verdade. Há um ano, Stephanie ainda lutava para esquecê-lo quando recebeu uma intimação da Polícia Federal, em Brasília, para prestar depoimento sobre o relacionamento, que no fim das contas durou cinco anos. Os agentes esconderam os detalhes. Assustada, Stephanie acionou uma advogada para sanar o mistério. No escritório, as duas procuraram o nome do ex no Google e quase caíram da cadeira. Eric, na verdade, era um espião russo. “Eu fiquei totalmente em choque”, diz ela à GQ Brasil.

No início do relacionamento, Eric parecia meio perdido sobre o que fazer na vida. Para Stephanie, dizia fazer investimentos financeiros pelo computador no apartamento onde ele morava sozinho na Saúde, bairro na zona sul de São Paulo. Mas só. Não se interessava por aspectos da nossa cultura, como futebol, tinha o hábito de reclamar da cerveja excessivamente gelada - preferia em temperatura ambiente, como na Europa - e não parecia gostar da nossa música. O único fascínio era a Amazônia, para onde teria viajado antes de conhecer Stephanie.

Além do xadrez, um dos seus poucos interesses era uma pequena coleção de pedras preciosas, das quais mantinha desenhos. Ao descobrir o gosto do namorado pela coisa, ela decidiu ajudá-lo a encontrar um ramo de trabalho e sugeriu a abertura de uma joalheria. Eric gostou da ideia e a convidou para abrir a empresa junto a ele.

Assim nasceu a Esfel Jewelry, uma joalheria instalada em um edifício ao lado do Masp, na Avenida Paulista. Stephanie diz ter fotografado as peças para a loja, inaugurado o Instagram e feito a divulgação da empresa. O namorado ficava com a administração. A loja só recebia clientes com hora marcada, fazia vendas pela internet e com entregas feitas pela própria Stephanie.

O conceito “disruptivo”, com peças personalizadas, atraiu uma clientela em busca de exclusividade e recato. À Receita Federal, Eric declarou um investimento inicial de R$ 100 mil na empresa. “Com sete meses, ele me falou que já tinha pago tudo”, diz. Os dois estavam animados. Ela, especialmente. “Era novo para mim: saber que estava construindo uma vida juntos. Eu tinha esperança de ser alguém que ia estar aqui comigo por um bom tempo”, se emociona.

Antes da pandemia, Eric afirmou que iria estudar gemologia - o estudo de pedras preciosas -, na França, enquanto Stephanie cuidava da empresa no Brasil. No início do isolamento social, ele voltou de vez para o Brasil e afirmou que as aulas seriam remotas. “Eu via ele no computador falando com pessoas em francês e dizia serem colegas de aula. Depois, o assunto morreu. Nunca vi nenhum certificado. Nada”, diz.

Já no fim da pandemia, ele fez mais uma viagem, como sempre a negócios, para a Finlândia. De lá, costumava telefonar para garantir que estava onde estava. No retorno ao Brasil, propôs fechar a Esfel em São Paulo, reabri-la em Brasília e, finalmente, morarem juntos mesmo sem ele nunca tê-la pedido formalmente em namoro. “Para mim, ali estávamos oficializando a nossa relação”, diz. “Era tipo um sonho para uma pessoa que saiu da periferia tava vivendo um sonho. Eu estava vivendo o meu sonho de fadas”, lembra.

Eric topou que Stephanie levasse a filha, com quem ele mantinha certa distância, mas com quem nunca foi arrogante ou omisso. Quase sempre, a presenteava. Como tinha poucos amigos e conhecidos em São Paulo e sem criar muitos laços com a família de Stephanie, abriu mão facilmente da vida na capital paulista e levou os três a se instalarem na casa grande em Brasília, com piscina, onde jogavam golfe, o esporte favorito dele, e frequentavam um clube de tênis e academia.

Em uma tarde de churrasco na nova casa, o espião bebeu além da conta e reservou um espaço no jardim. “A gente comprou várias plantas e fez um canto com rosas de várias cores. Ele dizia que era homenagem à mãe dele, que gostava de rosas, e me disse: eu queria que a minha mãe visse a vida que eu tenho hoje em dia”, disse. Os dois se emocionaram. “Foi a única vez que vi ele chorar. Na verdade, só o vi chorar de novo quando terminamos”.

Nos meses seguintes, o temperamento dele começou a mudar. Embora nunca tenha falado muito sobre política, Stephanie notou o aumento do interesse dele sobre o tema, especialmente quando a Rússia declarou definitivamente guerra contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022. “Tínhamos um choque: eu falava sobre raça, preconceito, consciência de classe e ele tinha certa resistência. No começo, ele entendia”, lembra. Eric começou um curso em relações exteriores; Stephanie investiu em um de Ciências Políticas. Mas o tom já havia mudado.

Ele era 100% Putin”, diz. Com os meses, ele deixou de incentivá-la a estudar política e viajava cada vez mais a negócios, pela Europa e Oriente Médio, onde dizia negociar pedras. No Carnaval de 2022, foram até Morro de São Paulo, na Bahia, onde ele parecia ausente. Quando Stephanie o via, ele falava sobre o cenário político internacional ou se enterrava em partidas de xadrez online. “Na verdade, vendo as fotos aqui, eu fiquei sozinha desde que cheguei a Brasília”, lamenta-se.

Também parecia mais preocupado e ríspido do que na vida que levava em São Paulo. Costumava-se queixar-se do cabelo de Stephanie, que alisou para agradá-lo e deixou de escutar hip-hop, que ele dizia detestar. “Eu me senti presa, às vezes. Me questionava: não estou sendo eu, será? Pensava: ‘às vezes a gente tem que abrir mão de algumas coisas quando você ama alguém”, diz.

Brasil: a "fábrica de espiões russos"

Em maio de 2025, o jornal The New York Times revelou que o Brasil havia se tornado uma “fábrica de espiões russos”, onde espiões eram treinados para se infiltrar antes de serem enviados a nações mais estratégicas para o Kremlin. A “fábrica” foi desbaratada, pouco a pouco, pela PF a partir de informações do FBI, a agência de investigação federal norte-americana.

A espionagem é comum entre muitos países, mas os russos são famosos pela fórmula radical, herdada do período soviético. Em vez de ações pontuais, os espiões são ensinados a criar laços, investir em empresas, estudar, comprar e alugar imóveis para se tornarem indetectáveis para autoridades, vizinhos e até sócios. Ou, como no caso de Stephanie, até mesmo para uma namorada.

A missão de um espião varia. Há relatos de espiões em países da África que inflamam grupos radicais e fornecem armamento; em outros casos, podem repassar informações sigilosas de autoridades, econômicas, localizar inimigos e até mesmo promover ações violentas no país de atuação. É uma tradição da inteligência russa: até mesmo o presidente russo, Vladimir Putin, já foi um espião da antiga agência do país, hoje mais conhecida como KGB.

O próprio Eric tirou proveito de uma brecha do nosso sistema para criar uma nova identidade por aqui, ponto importante para transformar nosso país em um celeiro da espionagem russa: no Brasil, a certidão de nascimento pode ser emitida diretamente no hospital ao nascer, mas é possível emiti-la a qualquer momento com assinatura de duas testemunhas. O mecanismo foi criado no passado para auxiliar famílias que podem, por exemplo, terem tido um filho em casa ou áreas rurais e só depois terem decidido levá-lo a um cartório para fazer o registro oficial.

Assim, Eric falsificou o documento de nascimento e conseguiu emitir todos os demais: carteira de identidade, passaporte, reservista. No ano passado, a GQ Brasil teve acesso a endereços de Eric em São Paulo, onde ele morou na zona sul e na região central, sempre acima de qualquer suspeita. O espião também teria usado dados de uma idosa, de Santo André, para registrar uma linha telefônica e criar um e-mail falso.

Na documentação, Eric tinha até mesmo registrado o nome da suposta mãe morta no parto: a francesa, em teoria, se chamava Annie Fauchere Lopes e teria morrido no dia 3 de janeiro de 1986 ao dar à luz, no Rio de Janeiro. Já o nome do pai não constava nos documentos, mas Eric mostrava para Stephanie a foto do homem, que também teria morrido vítima de um câncer de pulmão há muitos anos. “Ele me falava que tinha uma falta materna, mas não falava muito do pai”, diz Stephanie “Só dizia que o pai era duro, trabalhava muito, não tinha afeto, carinho”, acrescenta a ex-namorada.

O começo do fim do namoro

A coisa piorou em dezembro de 2022, quando a Polícia Federal prendeu o espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov por uso de passaporte falso após ele ser deportado da Holanda, onde tentava disputar um concurso para o Tribunal Penal Internacional (TPI). No Brasil, ele se passava por Viktor Muller Ferreira e também dizia ter perdido o pai e a mãe. Até hoje, ele nega ser espião e continua preso, à espera de uma decisão do Supremo Tribunal Federal em deportá-lo de volta à Rússia, que defende que Ferreira era, na verdade, um traficante.

A prisão gerou abalou o castelo de cartas da relação entre Stephanie e Eric. Para a virada do ano, os dois reservaram um hotel em Dubai, quando ele disse que os dois teriam que se mudar para outro hotel rapidamente. Depois de um telefonema na nova hospedagem, disse que ela deveria voltar ao Brasil imediatamente. Mesmo com muita insistência dela, Eric defendeu que explicaria a razão em outro momento. Era 30 de dezembro. Os dois foram até o aeroporto, ele comprou uma passagem e ela chorou durante o voo de mais de 15 horas até Brasília.

No começo de janeiro de 2023, Eric reapareceu, telefonou e pediu que fechasse a joalheria que haviam construído juntos, devolvesse a casa e entregasse a documentação a um homem estranho, que apareceu em um estacionamento com uma maleta. “Aí, eu desconfiei ainda mais que tinha algo de muito errado acontecendo com ele. Sei lá, como tráfico humano ou contrabando de pedras preciosas”, diz. A princípio, naquela altura os dois ainda tinham uma relação, mas o cansaço em tentar revelar tantos mistérios a consumia; ela se ateve a fazer o que ele queria.

“Eu acho que ele já sabia que a gente não ia ter mais nada. Eu acho que ele só queria ter alguém de confiança. Também era uma forma de me manipular para fazer as coisas certas, não fazer alarde, não fazer nada, só fechar a loja, entregar a casa, fazer tudo como ele queria”, diz.

Ainda à distância, Eric sumia cada vez mais e telefonava de números estranhos, em horas marcadas, sem dizer onde estava. Quanto mais tentava arranjar uma explicação, mais parecia se enrolar. “Uma hora, ele falou de vez que não iríamos mais nos ver depois de fechar a loja e que iria… Virar monge. Ainda subestimou meu intelecto”, desabafa. Juntou o pouco de dinheiro que tinha e voou para Suíça, na casa de uma familiar, para quem sabe, em alguma das ruas da Europa, pudesse reencontrá-lo. Mas nada. “Foi a minha desilusão”. Stephanie voltou a São Paulo, onde voltou a trabalhar, desta vez como atendente de padaria e diarista.

Quando ficou diante dos agentes da Polícia Federal por chamada de vídeo, os agentes explicaram que as fotografias do suposto pai pertenciam a um homem morto há muito tempo. Embora não tenham dito, é quase consenso que Eric tenha voltado e se escondido na Rússia. Em nota, a Polícia Federal afirmou à GQ Brasil não comentar sobre investigações em andamento.

Foi só prestes a prestar depoimento que ela teve conhecimento do nome verdadeiro de Eric: Aleksander Andreyevich. Nascido em alguma região desconhecida da Rússia ou do Oriente Médio. “Não quero saber onde ele está. É uma ferida muito aberta e fico emotiva demais”, ela chora.

Desde que Eric, ou Aleksander, desapareceu, ela parecia constrangida ao relatar a história para os amigos. “Todos me perguntavam: ‘quem será que Eric era?’”, diz. Com os meses, parou de esperar uma ligação ou buscar o nome dele no Google, até forçar a memória a esquecer. Ainda se pergunta se ele a amou de verdade; se as mudanças de humor eram para protegê-la e prepará-la para o fim. Ou, se no fundo, ele nunca sentiu nada.

“É uma ferida muito aberta para mim. Eu fico emotiva”, chora. “Eu consigo ver que estou conseguindo seguir em frente quando consigo falar, mas reviver tudo isso ainda é difícil”.

Gostou? Compartilhe