Cerca de 40 internos são libertados de clínica de reabilitação após denúncias de cárcere

Publicado em 07/10/2026, às 12h11
Internos são libertados de clínica após relatos de agressões, fome e confinamento em Anadia - Foto: Reprodução/Ascom MPAL
Internos são libertados de clínica após relatos de agressões, fome e confinamento em Anadia - Foto: Reprodução/Ascom MPAL

por Eberth Lins

Publicado em 07/10/2026, às 12h11

Cerca de 40 pessoas foram resgatadas de uma clínica de tratamento de dependentes químicos em Anadia, Alagoas, após denúncias de maus-tratos e cárcere privado, incluindo relatos de agressões e privação de alimentação.

Entre os internos, um adolescente de 15 anos relatou ter sido mantido trancado em um cômodo sem ventilação e submetido a castigos severos, como ficar amarrado e sem comida por dias.

A fiscalização do Ministério Público resultou na retirada dos pacientes que desejavam sair, enquanto o proprietário da clínica foi levado à delegacia para investigação por possíveis crimes, incluindo cárcere privado e maus-tratos.

Resumo gerado por IA
Cerca de 40 pessoas foram resgatadas de uma clínica para tratamento de dependentes químicos na zona rural de Anadia, interior de Alagoas, após uma fiscalização realizada pelo Ministério Público, nessa terça-feira (06). Os internos relataram que eram mantidos no local contra a própria vontade e contaram às autoridades episódios de agressões, falta de alimentação e punições que incluíam ficar amarrados e trancados em um quarto escuro.

De acordo com o MPAL, entre os pacientes estava um adolescente de 15 anos, que contou ter passado dois dias trancado em um cômodo sem ventilação e ser obrigado a secar uma piscina usando apenas um balde, depois de uma discussão com um dos responsáveis pela unidade. 

 “Eu fiquei só de cueca, dois dias nesse local. Fui pra lá porque o filho do missionário disse que ia pegar minha mãe, eu respondi, aí ele me colocou lá. Mas também já tive que secar a piscina com um balde. Quando minha família veio me visitar, eu não contei isso porque eles diziam que iriam elevar minha punição. Eu dei uma de feliz, porque se eu contasse, ia sofrer uma nova punição. Eu tava há cinco dias sem comer. A salsicha quando vinha era com cheiro de podre. Aqui eu tive febre, dor de cabeça, tontura. Eu tô feliz que vou voltar pra casa”, relatou o adolescente. 

Cerca de 40 pessoas são retiradas de clínica após relatos de cárcere e maus-tratos em Anadia. Foto: Cortesia MPAL

Outros internos fizeram relatos semelhantes ao MPAL. A retirada da água da piscina era usada como castigo. A punição mais grave, porém, seria o confinamento em um quarto escuro, onde alguns pacientes afirmaram ter ficado amarrados por períodos de até 24 horas. Alguns apresentaram marcas nos pulsos que, segundo os relatos, teriam sido provocadas pelas contenções.

A fiscalização aconteceu depois de uma denúncia anônima sobre a "Clínica Jesus Te Ama”. No local, conforme detalhou o MPAL, também foram encontrados idosos que reclamaram de não ter acesso aos próprios cartões bancários e aposentadorias. Dois deles precisaram ser levados de ambulância por causa das condições de saúde.

“Essa é a segunda inspeção que fazemos à clínica em menos de dois meses e constatamos a manutenção de muitas irregularidades, como indício de cárcere privado e retenção de recursos dos pacientes, além de outras que serão investigadas pelo Ministério Público de Alagoas, por meio do ajuizamento de ação civil pública e de outras medidas que se façam necessárias”, detalhou a promotora de Justiça Viviane Farias.

Os responsáveis pela clínica não apresentaram documentos que autorizassem as internações compulsórias dos pacientes. Também não foram encontrados laudos psiquiátricos individuais ou ordens judiciais que justificassem a permanência deles contra a própria vontade.

Com a chegada das autoridades, os internos que desejavam deixar a clínica foram retirados do local. Veículos foram disponibilizados para o transporte, com apoio da Prefeitura de Anadia. Quatro pacientes, no entanto, decidiram permanecer na unidade.

A Polícia Civil também foi acionada e levou o proprietário da clínica para a delegacia, que pode ser investigado por suspeitas de cárcere privado, retenção de documentos e valores e possíveis maus-tratos. O adolescente de 15 anos foi encaminhado ao Conselho Tutelar.

"Encontramos indícios fortes de retenção de documentos e valores, cárcere privado, talvez maus tratos, e estamos com os responsáveis na delegacia em processo de prisão em flagrante. Vamos abrir inquérito policial para robustecer e encaminhar para a Justiça”, complementou o delegado Medson Maia.

O TNH1 tentou falar com a Clínica Jesus Te Ama, mas não conseguiu contato até a publicação desta matéria. O espaço, no entanto, segue aberto para uma manifestação.

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