Texto do advogado André Braga:
"Cidade Rachada, o mais recente livro da jornalista Cristina Serra relata o afundamento do solo de cinco bairros da cidade de Maceió afetando mais de 60 mil famílias revelando o descaso das autoridades e da solidariedade de uma população.
Em síntese, uma indústria química, a Brasken, outrora, Salgema, explorando o subsolo daqueles bairros, simplesmente cavou – prospectando o mineral ali abundante – que se presta a fabricação de cloro e soda cáustica e não preencheu as cavernas que foram ali se formando resultando numa camada superficial de terra onde estavam instalados os tais bairros, notadamente o bairro do Pinheiro, com suas casas, praças, comércios, hospitais, serviços públicos, enfim, um bairro, como qualquer outro de qualquer cidade, que simplesmente veio abaixo, contudo, sem um saldo imediato de mortes porque o processo se deu de forma gradativa: primeiro as rachaduras, fendas, desmoronamentos e por fim a retirada obrigatória das famílias pelos órgãos competentes.
Antes isso tivesse sido a solução, mas o descalabro se deu ao longo de todo o processo, iniciado em março de 2018 e até a data, presente sem uma solução que se lhe repute justa ou pelo menos aceitável.
A indústria, claro e, como sempre, conforme se viu nas tragédias de Brumadinho e Mariana, negou sua responsabilidade transferindo para os tribunais o dever de apontar o óbvio.
Vieram os laudos especializados e por conseguinte as decisões decorrentes das atuações dos ministérios públicos estadual e federal e assim as decisões das instâncias federais e mesmo do STJ; houve também a instalação de uma CPI no Senado e ao final o resultado foi aterrador e revelador de que no Brasil quem detém o poder do capital sagra-se vencedor em qualquer disputa.
Vidas foram ceifadas e sonhos destruídos. A dignidade do ser humano ruiu com a terra arrasada. Os relatos contidos no livro, os depoimentos, seriam, por si, suficientes para que não pairasse quaisquer dúvidas sobre quem efetivamente causou o resultado e mais, quem efetivamente prevaricou, no mínimo, para a busca da solução justa decorrente da tragédia.
Indenizações vis foram impostas arbitrariamente a quem não seria capaz de vender o seu patrimônio, sobretudo moral e social e o resultado se configurou em cidadãos doentes ante o desmantelo de suas famílias, muitos “suicidados”.
Além do fato noticiado localmente, a repercussão nacional foi pífia e a solidariedade dos alagoanos foi pouco além daquela vizinhança.
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