Círio de Nazaré reafirma força do catolicismo popular na Amazônia

Publicado em 10/10/2026, às 14h59
Fotoarena/Folhapress
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Por Anna Virgínia Balloussier

Como explicar a força do Círio de Nazaré, que toma as ruas de Belém e arredores no segundo domingo de outubro, para o resto do país? Pode-se começar com os números desta temporada que, entre os paraenses, ganha uma conotação parecida com o Natal, com votos de "feliz Círio" trocados nas ruas e banquetes com pratos típicos de origem indígena, como o tucupi, o tacacá e a maniçoba.

As dimensões são superlativas. Fala-se em mais de um milhão de pessoas transitando pelos festejos, que duram vários dias. A procissão principal acontece neste domingo (11), mas antes disso outras romarias com a chamada imagem peregrina acontecem em Belém e cidades vizinhas, por múltiplas modalidades, como motos e barcos.

É uma das maiores aglomerações católicas do mundo, junto com a feta mexicana para Guadalupe e a celebração filipina do Nazareno Negro. Nossa Senhora de Nazaré, no Pará, é a Nazinha. Também é tida como rainha da Amazônia, uma devoção que continua dominando o imaginário do Norte, hoje a região com maior proporção evangélica no Brasil. Em 2013, a Unesco promoveu o Círio a Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Em "Tantas Marias", o historiador Luiz Antonio Simas faz um apanhado sobre as invocações marianas (referentes à mãe de Jesus) espraiadas pelo Brasil. Nazaré é um capítulo à parte.
Essa devoção remonta a 1630, quando um pescador em Saquarema (RJ) foi checar os estragos em seu barco após um toró daqueles. Reza a lenda que o moço passou por um morro e viu uma luz forte.

Era a imagem da Virgem de Nazaré. Pescadores rezaram em volta dela e foram dormir. No dia seguinte, ela já não estava mais lá. "Reapareceu no mesmo costão onde tinha sido encontrada", diz o autor.

Nazaré foi carregada mais uma vez para a casa do pescador, e mais uma vez voltou ao morro. Sinal de que preferia ficar por lá. Os novos devotos construíram uma capela no lugar.
Sete décadas mais tarde, uma história bem parecida circulou no norte do Brasil colonial, e é essa que deu origem ao Círio de Nazaré.

Nazaré é uma versão mariana particularmente pop em Portugal, e a comunidade lusitana era forte na região, o que certamente influenciou no apego local a essa versão de Nossa Senhora.
E tem o elemento da fé. A tradição conta assim: em 1700, o ribeirinho Plácido José de Souza achou uma imagem da santa à beira de um igarapé e teve a mesma ideia de levá-la consigo.
O ciclo de Saquarema se repetiu: a pequena estátua sumia para ressurgir no ponto original, que passou a atrair um povo embasbacado. Corriam de boca em boca relatos de milagres associados a Nazaré. O Círio, desde então, "ritualiza o misterioso retorno da santinha ao local onde fora encontrada", afirma Simas.

Ele reconhece a tentação, entre acadêmicos, de ir atrás da tal da historicidade, para determinar se de fato aquela narrativa ocorreu. "Às vezes a gente escorrega no equívoco de tentar provar se foi, se não foi."

Simas diz que prefere não julgar o que outros tomam como manifestação do sagrado. "Tem uma frase do Jorge de Lima, um poeta que eu adoro: a mentira para quem não crê é o milagre para quem sofreu."

O antropólogo Rodrigo Toniol, filho de paraense e estudioso do catolicismo na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), vê no Círio uma demonstração de força do catolicismo popular. A própria história da santinha que insiste em retornar ao lugar de origem, à revelia dos homens, tem seu simbolismo, afirma.

Na marianologia, o estudo de Maria, há mais narrativas assim. Para Toniol, servem também como lembrete de uma Nossa Senhora "que se coloca sempre a favor do povo na relação com a autoridade eclesiástica".

E o povo recorre a Nazinha para muita coisa. Referência mariana muito mais forte no Pará do que Aparecida, a padroeira nacional, ela é alvo de orações de tudo quanto é tipo.
Fiéis penduravam nesta sexta (9) uma infinidade de fitas coloridas e cartazes no gradeado da basílica que a homenageia. Gente grata por câncer curado, aprovação no vestibular e até uma moto 0km.

A assistente social Joana Fátima Ferreira, 78, conta que testemunhou um milagre na sua família. O irmão, assim que a imagem de Nazaré passou na sua frente, implorou pela gravidez da nora, que havia anos tentava ter um filho, mas perdia o bebê.

"Ele ficou impressionado, porque logo depois ela conseguiu engravidar. Essa é apenas uma pequena parte de vários impossíveis que se tornaram possíveis", diz Joana, que lidera o tradicional almoço de domingo pós-procissão. Nele não pode faltar o arroz paraense, feito com camarão e jambu, "que é uma folhinha que dá um leve tremor na boca, muito gostoso", diz.

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