Cobra de “duas cabeças” descoberta na China intriga cientistas

Publicado em 27/05/2026, às 21h06
Shuo Qi et al.
Shuo Qi et al.

Por Galileu

Uma nova espécie de serpente, chamada Calamaria incredibilis, foi descoberta no sul da China, intrigando cientistas devido à sua cauda que se assemelha a uma cabeça, levando moradores a chamá-la de 'cobra de duas cabeças'. Essa descoberta destaca a diversidade ainda não catalogada entre as cobras-de-junco e foi oficialmente descrita em um estudo recente.

Os dois espécimes conhecidos têm cerca de 20 centímetros e utilizam uma estratégia de defesa única, erguendo a cauda para confundir predadores, o que pode aumentar suas chances de sobrevivência. A identificação da espécie foi realizada com tecnologia avançada, revelando diferenças anatômicas significativas em relação a parentes próximos.

Embora a IUCN classifique a espécie como 'Dados Insuficientes' devido à falta de informações sobre sua população e ameaças, a descoberta ressalta a importância da região de Guangxi, que pode abrigar mais répteis desconhecidos. Cientistas acreditam que a diversidade de cobras-de-junco ainda pode estar subestimada, sugerindo que mais espécies podem ser descobertas no futuro.

Resumo gerado por IA

Uma pequena serpente subterrânea descoberta no sul da China está intrigando cientistas por causa de uma característica incomum: sua cauda se parece tanto com a cabeça que moradores locais passaram a chamá-la de “cobra de duas cabeças”. A espécie, nomeada de Calamaria incredibilis, foi oficialmente descrita em um estudo publicado em abril na revista Zoosystematics and Evolution e já é considerada uma das descobertas mais curiosas recentes da herpetologia.

Como destaca a revista Discover, o nome da espécie foge do padrão tradicional usado na taxonomia. Em vez de homenagear uma região, uma pessoa ou uma característica anatômica específica, os pesquisadores recorreram ao termo latino incredibilis, que significa “inacreditável” em português, para refletir a surpresa diante do elevado nível de diversidade escondida dentro do grupo das cobras-de-junco.

Estratégia de defesa engana predadores

A cobra recém-descoberta não é venenosa — característica compartilhada pela maioria das quase 4 mil espécies de serpentes conhecidas no mundo. Ainda assim, ela desenvolveu um mecanismo de defesa singular para afastar predadores.

Quando ameaçada, a Calamaria incredibilis ergue a cauda curta e arredondada, movimentando-a como se fosse uma segunda cabeça. O truque visual é reforçado pelas marcas corporais semelhantes às da região cefálica, criando a ilusão de que o animal possui duas extremidades idênticas. Esse comportamento pode confundir ataques de aves e outros predadores, que acabam mirando a cauda em vez da cabeça verdadeira.

Os dois únicos espécimes conhecidos até agora são machos adultos com cerca de 20 centímetros de comprimento. Eles apresentam corpo cilíndrico, coloração marrom-avermelhada e sete listras escuras ao longo do corpo, além de ventre claro com manchas nas bordas. A cauda representa apenas 8% do tamanho total do animal, o que revela uma proporção extremamente incomum entre serpentes.

Processo de identificação da espécie

A identificação da nova espécie exigiu tecnologia avançada. Os pesquisadores utilizaram tomografia computadorizada de microfoco, conhecida como micro-CT, para gerar imagens tridimensionais do crânio. As reconstruções revelaram diferenças anatômicas inéditas em relação às espécies aparentadas.

Para além disso, testes genéticos mostraram que a distância evolutiva entre a Calamaria incredibilis e seus parentes mais próximos supera 12%, índice considerado elevado para um grupo cujas espécies costumam ser quase indistinguíveis externamente.

Shuo Qi et al.

Os autores também analisaram características como coloração, quantidade de escamas e proporções da cauda para confirmar que os dois exemplares encontrados pertenciam a uma espécie ainda não catalogada pela ciência.

Um outro fator que chamou atenção dos cientistas foi a localização dos registros. Um exemplar foi encontrado no condado de Ningming, a cerca de 1.060 metros de altitude, enquanto o outro apareceu mais de 500 km ao nordeste, em uma reserva natural de Guilin. A distância sugere que a distribuição geográfica da espécie pode ser muito maior do que se imaginava inicialmente.

Região chinesa pode esconder mais répteis desconhecidos

Apesar da descoberta, ainda há poucas informações sobre o tamanho da população, hábitos reprodutivos ou grau de ameaça da espécie. Por esse motivo, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) classificou a serpente como “Dados Insuficientes”, categoria usada quando não existem informações adequadas para avaliar o risco de extinção.

A descoberta também reforça a importância científica de Guangxi. A região possui formações calcárias, relevo acidentado e histórico geológico complexo, condições que favoreceram o isolamento de populações animais ao longo de milhões de anos. Para os pesquisadores, isso ajuda a explicar por que tantas espécies novas de répteis vêm sendo identificadas ali recentemente.

Várias espécies de cobras-de-junco próximas da Calamaria incredibilis foram descritas ou revalidadas na última década, indicando que a diversidade desse grupo ainda pode estar subestimada. Os cientistas suspeitam, inclusive, que outros exemplares armazenados em coleções científicas ou classificados no passado como Calamaria pavimentata possam, na verdade, pertencer a espécies ainda desconhecidas. Em outras palavras: a “cobra de duas cabeças” talvez seja apenas uma entre várias serpentes ocultas sob o solo do sul da China.

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