Como células cancerígenas entram em “estado zumbi” para escapar da quimioterapia

Publicado em 26/10/2026, às 23h38
Ivan S/Pexels
Ivan S/Pexels

Por Galileu

Cientistas do Trinity College Dublin descobriram que algumas células cancerígenas entram em um estado de senescência prematura, permitindo sua sobrevivência à quimioterapia e potencial recuperação dos tumores após o tratamento.

As proteínas inibidoras da apoptose (IAPs) desempenham um papel crucial nesse processo, ajudando as células tumorais a evitar a morte celular e a adquirir características que favorecem a cicatrização, o que pode complicar o tratamento do câncer.

Pesquisadores sugerem que antagonistas de IAP podem ser utilizados em combinação com quimioterapia para eliminar células senescentes, embora a eficácia clínica dessa abordagem ainda precise ser confirmada em estudos futuros.

Resumo gerado por IA

Cientistas do Trinity College Dublin, na Irlanda, descobriram um mecanismo que ajuda algumas células cancerígenas a sobreviver à quimioterapia: elas entram em um estado semelhante ao de um zumbi, conhecido como senescência prematura. Nessa condição, as células deixam de se dividir temporariamente, mas permanecem vivas e passam por mudanças que podem favorecer a recuperação dos tumores após o tratamento.

O estudo, publicado na revista Science Advances, identificou o papel das proteínas inibidoras da apoptose (IAPs, na sigla em inglês) nesse processo. Essas moléculas ajudam as células tumorais a escapar da morte induzida pela quimioterapia e permitem que algumas delas adquiram características associadas à cicatrização de tecidos. A descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias capazes de combater a resistência dos tumores ao tratamento.

Como as células cancerígenas enganam o organismo

O sistema imunológico não atua apenas na defesa contra infecções. Ele também participa da recuperação de tecidos danificados, coordenando processos como a produção de novas células, o fornecimento de nutrientes e oxigênio e a formação de vasos sanguíneos.

Embora essenciais para a cicatrização, esses mecanismos podem ser explorados por tumores. Ao assumir características associadas a tecidos lesionados, as células cancerígenas podem estimular respostas do organismo que, em determinadas circunstâncias, favorecem sua sobrevivência e seu crescimento.

Essa relação ajuda a explicar por que o câncer é frequentemente descrito como uma espécie de “ferida que não cicatriza”. Ainda assim, os mecanismos moleculares que permitem aos tumores aproveitar os processos de reparação dos tecidos não são completamente compreendidos.

No novo estudo, pesquisadores investigaram como algumas células tumorais sobrevivem aos danos provocados pela quimioterapia. A equipe, liderada pelo professor de genética médica Seamus Martin e pelo pesquisador de pós-doutorado Gokhan Gunay, da Trinity College Dublin, identificou a participação das IAPs na neutralização dos efeitos de moléculas conhecidas como receptores de morte.

Esses receptores podem desencadear mecanismos de autodestruição celular em resposta a danos no DNA causados pelo tratamento. Ao bloquear essa resposta, as IAPs ajudam determinadas células tumorais a evitar a morte. Esse efeito vai além da sobrevivência. As proteínas também permitem que as células resistentes entrem em senescência prematura, um estado celular que altera profundamente seu funcionamento.

O que acontece durante o estado zumbi?

As células senescentes são caracterizadas pela interrupção da divisão celular, mas não estão mortas. Após a exposição à quimioterapia, algumas delas passam por mudanças expressivas em poucos dias, incluindo um aumento de tamanho que pode chegar a quase dez vezes em comparação com uma célula normal.

Elas também intensificam a atividade de genes associados à cicatrização de feridas e passam a secretar maiores quantidades de mediadores inflamatórios. Essas substâncias atraem células do sistema imunológico e podem modificar o ambiente ao redor do tumor.

Nesse contexto, a resposta inflamatória e os mecanismos de reparação podem acabar contribuindo para a recuperação tumoral. Assim, mesmo quando a quimioterapia elimina parte das células cancerígenas, as sobreviventes podem permanecer no organismo em um estado que favorece a retomada do tumor.

A senescência celular também está associada ao envelhecimento. Com o passar dos anos, células senescentes podem se acumular nos tecidos e contribuir para a inflamação crônica e para a deterioração de funções normais do organismo. No câncer, o fenômeno apresenta um desafio adicional: as células que deixam de se dividir não necessariamente deixam de representar uma ameaça.

Uma possível estratégia para combater a resistência

Além de identificar o papel das IAPs na sobrevivência das células senescentes, os pesquisadores observaram que essas células dependem das proteínas para continuar vivas. Essa vulnerabilidade pode ser explorada por compostos conhecidos como antagonistas de IAP, capazes de bloquear a atividade dessas moléculas.

Segundo os resultados descritos pela equipe, esses compostos eliminaram seletivamente as células senescentes ao reativar os mecanismos de autodestruição associados aos receptores de morte. Dessa forma, a abordagem sugere uma possível combinação terapêutica: administrar medicamentos quimioterápicos e, em seguida, utilizar antagonistas de IAP para atingir células que escaparam dos efeitos iniciais do tratamento

“Descobrir como os tumores conseguem escapar dos efeitos de destruição celular da quimioterapia e entrar em senescência é um problema importante e desafiador”, afirmou o professor Seamus Martin, em comunicado.

“Essas novas descobertas sugerem maneiras pelas quais podemos ser capazes de diminuir as defesas dos tumores neutralizando as IAPs após a administração de medicamentos quimioterápicos, o que deve bloquear sua entrada em senescência e matar mais células do tumor”, acrescentou ele.

Apesar do potencial, a descoberta ainda precisa ser avaliada no contexto do desenvolvimento de tratamentos para pacientes. A identificação de um mecanismo molecular e de compostos capazes de atingir células resistentes não significa, que uma nova terapia já esteja disponível ou tenha eficácia clínica comprovada.

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