Em 1975, o físico Jack H. Hetherington publicou um artigo na revista Physical Review Letters, creditando seu gato, Chester, como coautor sob o pseudônimo F.D.C. Willard, devido a uma questão editorial sobre o uso da primeira pessoa no texto.
A decisão de incluir Chester como coautor surgiu da dificuldade de reescrever o artigo em uma máquina de escrever, e a publicação acabou se tornando um marco na história da ciência, sendo citada por outros pesquisadores.
Após a publicação, Chester continuou a ser uma figura cômica na academia, com referências humorísticas sobre sua 'participação' em pesquisas, e seu legado perdurou mesmo após sua morte em 1982, quando sua 'autoria' foi lembrada em eventos e brincadeiras acadêmicas.
Você, leitor da GALILEU que é pai de pet orgulhoso de um gatinho, sabe que seu pet tem muitas qualidades. Mas e se ele fosse também um autor de artigo científico? Pois foi exatamente isso que um físico dos Estados Unidos fez em 1975. Naquele ano, um gato siamês chamado Chester teve seu nome publicado em uma das revistas mais prestigiadas da Física. E o mais curioso: tudo começou porque seu tutor não queria reescrever um texto.
LEIA TAMBÉM
A história envolve o físico Jack H. Hetherington, professor da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, e seu felino, que acabou entrando para a história da ciência sob o nome de F.D.C. Willard.
Na época, Hetherington havia escrito um artigo sobre física de baixas temperaturas, intitulado “Efeitos de troca de dois, três e quatro átomos em estruturas CCC ³He”, que investigava efeitos de troca entre átomos de hélio-3. Antes de enviá-lo à revista científica Physical Review Letters, o pesquisador pediu que um colega revisasse o trabalho.
O conteúdo estava bom, mas havia um problema: ao longo do texto, Hetherington havia utilizado repetidamente pronomes como "nós" e "nosso", embora fosse o único autor. As regras editoriais da publicação não permitiam o uso da primeira pessoa do plural em artigos assinados por apenas uma pessoa.
Hoje, corrigir esse detalhe seria uma tarefa relativamente simples. Mas, na década de 1970, o artigo havia sido todo produzido em uma máquina de escrever, o que tornaria as alterações muito mais trabalhosas. Foi então que o físico encontrou uma solução inusitada: adicionar um segundo autor.
De gato doméstico a pesquisador de física
O escolhido para dividir os créditos foi Chester, o gato siamês de Hetherington. Para dar um ar mais acadêmico ao nome do animal, o professor criou o pseudônimo F.D.C. Willard. As iniciais faziam referência a Felis domesticus, uma denominação para gatos domésticos, e a Chester. Já Willard era o nome do pai do felino.
A estratégia funcionou e, em 24 de novembro de 1975, o artigo foi publicado na Physical Review Letters com dois autores: J. H. Hetherington e F.D.C. Willard. Na época, Chester tinha aproximadamente sete anos.
A verdadeira identidade do segundo pesquisador permaneceu desconhecida por algum tempo. Segundo o relato de Hetherington, a farsa começou a ser descoberta quando um visitante chegou à universidade procurando pelo professor. Como ele não estava disponível, o visitante pediu para conversar com Willard.
A solicitação provocou risadas entre os presentes, e o segredo acabou vindo à tona. Apesar da brincadeira, o artigo ganhou reconhecimento por seus méritos científicos e passou a ser citado por outros pesquisadores.
Anos depois, o físico explicou que não se arrependia da decisão. “Se [o artigo] eventualmente se provasse correto, as pessoas se lembrariam mais dele se a autoria anômala fosse conhecida. De qualquer forma, prossegui e, no geral, não me arrependi. A maioria das pessoas acha graça na ideia, apenas os editores, por algum motivo, parecem não achar graça nenhuma na história”, contou Hetherington, segundo o site Today I Found Out.
Uma carreira acadêmica de dar inveja
A participação de Chester na ciência não terminou com a publicação de 1975. Como aponta o site Today I Found Out, o gatinho também deixou sua marca — literalmente — em cópias do artigo. Quando Hetherington recebeu exemplares para assinar, decidiu molhar uma das patas do gato em tinta e carimbá-la nas páginas, criando uma assinatura bastante diferente das habituais.
Uma dessas cópias chegou a físicos de Grenoble, na França, que planejavam convidar Willard para a 15ª Conferência Internacional de Física de Baixas Temperaturas, em 1978. Ao perceberem que a assinatura pertencia a um gato, os organizadores decidiram não incluir nem o felino nem seu tutor na lista de convidados.
Mesmo assim, Willard continuou sendo tratado com bom humor por integrantes da comunidade acadêmica. Em novembro de 1975, Truman O. Woodruff, então chefe do departamento de física da Universidade Estadual de Michigan, chegou a escrever uma carta brincando com a possibilidade de contratar o gato como professor visitante.
Hetherington também passou a se referir ao animal como “consultor de predação de roedores” da universidade, enquanto colegas faziam referências bem-humoradas à sua participação em experimentos envolvendo momento angular e forças gravitacionais.
E a carreira científica de Chester acabaria por aí. Em 1980, seu nome apareceu como único autor de um artigo em francês publicado na revista La Recherche, intitulado “L'hélium 3 solide. Un antiferromagnétique nucléaire”. Na realidade, o estudo havia sido escrito por um grupo de pesquisadores franceses e americanos, incluindo Hetherington. Como os cientistas não conseguiam chegar a um acordo sobre determinados aspectos do conteúdo, decidiram atribuir a autoria exclusivamente a F.D.C. Willard.
Chester morreu em 1982, aos aproximadamente 14 anos, mas seu legado continuou vivo. Em 1º de abril de 2014, a Sociedade Americana de Física anunciou, em uma brincadeira de Dia da Mentira, que todos os artigos escritos por gatos passariam a estar disponíveis gratuitamente ao público.
Assim, mesmo sem entender de física ou sequer saber usar uma máquina de escrever, Chester conquistou algo que muitos pesquisadores desejam: garantir seu lugar na história da ciência.
LEIA MAIS
+Lidas