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Contra o racismo, Fifa e Uefa silenciam suas redes sociais por 3 dias

Portal Media Talks | 30/04/21 - 11h52 - Atualizado em 30/04/21 - 12h36

Reclamações contra racismo online não são novas, mas tomaram nos últimos dois meses uma dimensão inédita que já começa a surtir efeitos. O boicote das mídias sociais – Twitter, Facebook e Instagram – por três dias, anunciado em 24/4 pelas principais associações de futebol britânicas, que se inicia hoje (30/4) às 15h (11h no Brasil), ganhou a adesão de ligas locais e internacionais de futebol, incluindo a Uefa e a Fifa; de diversos outros esportes, como tênis, rúgbi, críquete e ciclismo; de comentaristas esportivos; de patrocinadores; de veículos de imprensa – Sky News, Guardian Sports – e de atletas de outras modalidades. 

Um dos mais notórios foi o campeão de automobilismo Lewis Hamilton, que vem se destacando no combate à discriminação racial e acabou atraindo outros astros da Fórmula 1 para o movimento. 

“Apoio totalmente a iniciativa e se isso ajudar a pressionar essas plataformas, fico feliz em fazer o boicote”.

O comentário de Hamilton dá o tom da ação liderada pela Premier League e pela FA (federação inglesa de futebol), que vai além da mera reclamação. O movimento tem uma pauta objetiva, cobrando das plataformas digitais globais a adoção de mecanismos que impeçam ataques racistas e, do Governo britânico, o rigor na lei que punirá severamente as empresas de mídias digitais que permitem discurso de ódio nas redes.

Mesmo antes do boicote envolvendo todos os clubes do país começar, resultados da pressão começaram a se fazer sentir. O Facebook anunciou uma nova ferramenta para filtrar automaticamente as solicitações de mensagens diretas do Instagram contendo palavras, frases e emojis ofensivos e recursos para bloqueio preventivo de novas contas criadas por abusadores. 

E o Governo revelou detalhes da nova lei, que vai equiparar o racismo online a outros crimes – antisemitismo, estímulo ao suicídio e à automutilação –, que será anunciada no discurso anual da rainha Elizabeth II, em maio. Esse é um sinal eloquente de que a causa saiu das fronteiras do esporte para tornar-se uma questão nacional. 

Em entrevista à BBC na manhã de sexta-feira (30/4), Edleen Jonh, diretora de diversidade da Premier League, disse não esperar que, quando o boicote acabe, na terça-feira, o problema do racismo online esteja resolvido. Mas acredita que a pressão vai fazer com que a engrenagem para acabar com ele gire mais rápido. 

Nas redes sociais, as hashtags #StopOnlineAbuse e #socialmediaboycott destacavam-se entre os trending topics. Todos os times de futebol engajados no boicote postaram em suas redes, com discursos duros condenando o racismo online.

A história do movimento contra o racismo online no futebol 

Há dois anos, vários jogadores de futebol britânicos participaram da campanha #Enough, um boicote de 24 horas nas redes sociais em protesto contra o abuso online. Mas não adiantou muito. 

Uma investigação da Professional Footballers’ Association, o sindicato dos jogadores, encontrou 56 postagens abusivas no Twitter em novembro de 2020. A PFA diz ter comunicado às plataformas, mas, segundo a BBC,  31 delas ainda estão visíveis, o que a organização descreveu como “absolutamente inaceitável”. 

A onda mais recente contra o racismo online foi iniciada pelo astro do futebol francês Thierry Henry, que em março fechou todas as suas contas de mídias sociaispara demonstrar sua indignação com o que considera falta de energia das plataformas digitais para coibir os abusos. Em seguida foi a vez de três clubes britânicos, Swansea City, Rangers e Birminghan City, ficarem três dias sem postar nas redes.

Foi o estopim para o boicote que agora toma conta de todo o futebol e outras modalidades esportivas. A convocação foi assinada pela Premier League e pela FA (Football Association) e pelas demais associações de futebol do país, como as ligas femininas das duas entidades, a English Football League, a Professional Football’s Association, a Football Supporters’ Association e a League Managers Association.